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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Equilíbrio
ácido-básico.

pH = 7,40 ± 0,03 — e a vida está em equilíbrio. Quando o tampão falha, o pulmão e o rim entram em cena. Aprenda a ler uma gasometria em 5 passos, calcular o ânion gap, e identificar os distúrbios mistos.

pH normal
7,35–7,45
pCO₂
35–45
HCO₃⁻
22–26
Ânion gap
8–12
pH = pK + log [HCO₃⁻] 0,03 · pCO₂
6,8 · ácido 7,40 7,8 · alcal.
01 / Conceitos

A química do pH.

O pH plasmático precisa estar entre 7,35 e 7,45 para que as enzimas, transportadores e receptores funcionem. Pequenas variações (~0,1 unidade) já alteram afinidade de O₂ pela hemoglobina, condução nervosa, contratilidade cardíaca e excitabilidade neuromuscular. Pense no equilíbrio ácido-básico como uma defesa em três camadas:

Tampão (segundos)

Resposta instantânea. Sequestra H⁺ livre antes que o pH oscile. Cada tampão tem um nicho — compartimento, velocidade e capacidade diferentes.

🔵 Bicarbonato / CO₂ — o tampão dominante do plasma

Par HCO₃⁻/H₂CO₃, pK = 6,1. Seria um tampão ruim num sistema fechado — o pK ideal deveria ser próximo de 7,4. Mas é um sistema aberto: o CO₂ gerado pela reação tampão é exalado pelo pulmão, deslocando o equilíbrio continuamente para o lado da neutralização. Nunca satura.

H⁺ + HCO₃⁻ → H₂CO₃ → CO₂ + H₂O
CO₂ exalado → equilíbrio desloca p/ direita → mais H⁺ neutralizado

Concentração plasmática ~24 mEq/L — enorme comparado ao H⁺ (0,00004 mEq/L). Cada mol de H⁺ que entra consome um mol de HCO₃⁻, tornando-o proxy mensurável da carga ácida acumulada. Responsável por ~50% da capacidade tampão extracelular.

🔴 Hemoglobina — o tampão intracelular do eritrócito

Maior tampão não-bicarbonato do sangue. Os resíduos de histidina (imidazol, pK ~6,0–7,0 dependendo do microambiente) na globina aceitam ou doam H⁺ conforme o pH oscila. Age dentro do eritrócito — tampona o H⁺ gerado localmente na troca de gases.

Efeito Bohr: quando a hemoglobina libera O₂ nos tecidos (onde o CO₂ e H⁺ são altos), ela fica desoxigenada e capta H⁺ — reforçando o tampão exatamente onde mais é necessário. Nos pulmões, o processo se inverte: Hb capta O₂, libera H⁺ → CO₂ é exalado. O efeito Bohr integra transporte de O₂ e tamponamento num mesmo mecanismo.

🟡 Fosfato — melhor pK, mas pouco no plasma

Par HPO₄²⁻/H₂PO₄⁻, pK = 6,8 — muito mais próximo do pH fisiológico que o bicarbonato. Seria um tampão ideal. O problema: sua concentração plasmática é baixa (~1 mEq/L), limitando a capacidade.

Onde brilha:Intracelular — alta concentração de fosfato orgânico e inorgânico nas células → tampão relevante no interior celular. ② Urina — o fosfato filtrado no túbulo é o principal "ácido titulável": H⁺ secretado pelo rim se liga ao HPO₄²⁻ → H₂PO₄⁻ excretado na urina → cada mol excretado representa 1 mol de H⁺ eliminado e 1 mol de HCO₃⁻ regenerado.

🟣 Proteínas plasmáticas — albumina como tampão

A albumina (35–45 g/L) possui grupos imidazol (histidina), amino e carboxila que doam/aceitam H⁺. Contribuição estimada em ~15% da capacidade tampão plasmática. Implicação clínica: hipoalbuminemia (cirrose, desnutrição) reduz a capacidade tampão e modifica o ânion gap — AG "normal" pode mascarar acidose metabólica em paciente com albumina baixa (corrigir AG: +2,5 mEq/L para cada 1 g/dL de albumina abaixo de 4).

🟠 Osso — reserva de longo prazo, mas com custo

A matriz mineral óssea (carbonato de hidroxiapatita) é o maior reservatório de tampão do organismo — mas de ativação lenta (horas a dias). Em acidose crônica (DRC, acidose tubular renal), o osso libera carbonato para neutralizar H⁺ → desmineralização progressiva → osteopenia, osteoporose, risco de fraturas. É um tampão de "último recurso" que cobra preço em tecido ósseo. Por isso tratar acidose crônica (bicarbonato VO na DRC) protege também o esqueleto.

Pulmão (minutos)

Ajusta ventilação alveolar para regular pCO₂.

  • Hiperventilação → ↓ pCO₂ → ↑ pH (compensa acidose)
  • Hipoventilação → ↑ pCO₂ → ↓ pH (compensa alcalose)
  • Quimiorreceptores centrais respondem a pH/CO₂ do LCR; periféricos (corpos carotídeos) respondem a O₂/pH/CO₂
  • Resposta máxima em 12–24h; limitada por fadiga e por hipoxemia (paciente não pode descer pCO₂ < ~12 mmHg)

Rim (horas–dias)

Reabsorve HCO₃⁻ e excreta H⁺. Lento, mas o mais duradouro.

  • TCP: reabsorve ~80% do HCO₃⁻ filtrado via troca Na⁺/H⁺ (NHE3); anidrase carbônica luminal converte HCO₃⁻ + H⁺ → H₂CO₃ → CO₂ + H₂O
  • Alça espessa: ~10–15% adicional
  • Ducto coletor: H⁺-ATPase nas células α-intercalares secreta H⁺ ativamente; pH urinário pode descer até ~5,0
  • Amoniogênese: glutamina → NH₄⁺ excretado — principal forma de eliminar H⁺ "fixo"

Equação de Henderson-Hasselbalch

A relação que define o pH plasmático.

pH = 6,1 + log ( [HCO₃⁻] / 0,03 × pCO₂ )

  • pK = 6,1 do par H₂CO₃/HCO₃⁻
  • 0,03 mmol/L/mmHg é o coeficiente de solubilidade do CO₂
  • Numerador (HCO₃⁻) = controlado pelo rim → distúrbios metabólicos
  • Denominador (pCO₂) = controlado pelo pulmão → distúrbios respiratórios
  • Manter pH ≈ constante = manter razão HCO₃⁻/pCO₂ próxima de 20:1

Valores de referência

pH
7,40
7,35–7,45
pCO₂
40
35–45 mmHg
HCO₃⁻
24
22–26 mEq/L
BE
0
−2 a +2
pO₂
95
80–100 mmHg
SatO₂
98
%
Na⁺
140
135–145
Cl⁻
103
98–106
K⁺
4,2
3,5–5,0
AG
10
8–12 mEq/L

Acidemia × acidose · alcalemia × alcalose

Acidemia/alcalemia = pH sanguíneo medido fora da faixa normal. Acidose/alcalose = o processo (metabólico ou respiratório) que tende a alterar o pH. Um paciente pode ter acidose metabólica compensada com pH normal — então tem o processo, mas não tem acidemia.

02 / Compensação

Quem compensa quem.

Toda alteração primária dispara uma resposta compensatória previsível, no outro sistema (se a primária é metabólica → pulmão compensa; se primária é respiratória → rim compensa). A compensação nunca normaliza completamente o pH — se o pH voltou ao normal, suspeite de distúrbio misto.

1
Acidose metabólica → hiperventilação ↓ HCO₃⁻ sentido pelos quimiorreceptores → aumento da ventilação alveolar (respiração de Kussmaul) → ↓ pCO₂. Resposta em minutos, máxima em 12–24h.
2
Alcalose metabólica → hipoventilação ↑ HCO₃⁻ → ↓ drive ventilatório → ↑ pCO₂. Compensação limitada pela necessidade de manter pO₂ — pCO₂ raramente sobe acima de ~55 mmHg.
3
Acidose respiratória → retenção renal de HCO₃⁻ Aguda: tampão tecidual gera ↑ ~1 mEq/L de HCO₃⁻ a cada 10 mmHg ↑ pCO₂. Crônica (3–5 dias): rim retém HCO₃⁻ ativamente, ↑ 3–5 mEq/L por 10 mmHg.
4
Alcalose respiratória → excreção renal de HCO₃⁻ Aguda: ↓ 1–2 mEq/L de HCO₃⁻ por 10 mmHg ↓ pCO₂. Crônica: ↓ ~5 mEq/L por 10 mmHg de ↓ pCO₂, após 24–36h.

Fórmulas de compensação esperada

Acidose metabólica — Winter
pCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2

pCO₂ > esperado: acidose respiratória associada.
pCO₂ < esperado: alcalose respiratória associada.

Alcalose metabólica
pCO₂ esperada = 0,7 × HCO₃⁻ + 20 ± 5

Resposta limitada — raramente pCO₂ > 55 mmHg.

Acidose respiratória aguda
↑ HCO₃⁻ = 1 mEq/L · cada ↑ 10 mmHg de pCO₂

Tampão tecidual imediato. Pequena resposta.

Acidose respiratória crônica (24–36h)
↑ HCO₃⁻ = 3 a 5 mEq/L · cada ↑ 10 mmHg de pCO₂

Resposta renal robusta. HCO₃⁻ pode chegar a 30–35.

Alcalose respiratória aguda
↓ HCO₃⁻ = 1 a 2 mEq/L · cada ↓ 10 mmHg de pCO₂

Tampão tecidual imediato.

Alcalose respiratória crônica (24–36h)
↓ HCO₃⁻ = ~5 mEq/L · cada ↓ 10 mmHg de pCO₂

HCO₃⁻ pode descer até ~18 — abaixo disso, pense em acidose metabólica associada.

Regra de ouro

Se a compensação esperada não bate com a observada — existe um segundo distúrbio. Ex.: paciente com acidose metabólica grave (HCO₃⁻ = 10), Winter prevê pCO₂ ~23. Se a pCO₂ medida é 35, o paciente está hipoventilando relativamente → acidose respiratória associada (paciente cansando).

03 / Análise gasométrica

Leitura em 5 passos.

Toda vez que você pega uma gasometria, passe pela mesma sequência. Não importa se é uma cetoacidose, DPOC descompensado ou intoxicação por salicilato — o algoritmo é igual.

Olhe o pH pH < 7,35 = acidemia. pH > 7,45 = alcalemia. pH 7,40 ± 0,03 = normal — mas pode haver distúrbio misto compensado!
Identifique o distúrbio primário Em acidemia: HCO₃⁻ baixo → metabólica. pCO₂ alto → respiratória. Em alcalemia: HCO₃⁻ alto → metabólica. pCO₂ baixo → respiratória. O distúrbio primário é o que "concorda" com o pH.
Cheque a compensação esperada Aplique Winter (para acidose metab) ou as outras fórmulas. Se a compensação observada está fora do esperado → segundo distúrbio.
Calcule o ânion gap AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻). Normal ≈ 8–12 mEq/L. Sempre corrigir pela albumina: AG corrigido = AG + 2,5 × (4 − albumina). Em acidose metabólica, separar AG alto × AG normal muda a etiologia.
Calcule o delta-delta (Δ AG / Δ HCO₃⁻) Em acidose metabólica de AG alto, o aumento do AG deveria ser igual à queda do HCO₃⁻.
Δ/Δ < 1: acidose mista (AG alto + AG normal).
Δ/Δ ≈ 1: acidose pura de AG alto.
Δ/Δ > 2: alcalose metabólica concomitante ou acidose respiratória crônica preexistente.

Ânion gap corrigido pela albumina

A albumina é o principal ânion não medido. Em hipoalbuminemia (cirrose, sepse, desnutrição), o AG "verdadeiro" pode estar mascarado.

AG corrigido = AG medido + 2,5 × (4 − albumina sérica em g/dL)

Ex.: paciente com AG = 14, albumina = 2,0 → AG corrigido = 14 + 2,5 × 2 = 19 → realmente elevado.

↻ Ferramentas

Calculadoras interativas.

Treine seu raciocínio antes da prova. Insira valores e veja a interpretação automaticamente.

⚖️ Ânion gap
AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻) · Normal 8–12 mEq/L
Resultado Insira os valores e clique em Calcular.
🌬️ Compensação respiratória (Winter)
Acidose metabólica: pCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2
Resultado Verifica se há distúrbio respiratório associado.
🧪 Decoder de gasometria
Entrada completa para análise integrada (pH, pCO₂, HCO₃⁻, Na⁺, Cl⁻)
Interpretação Forneça todos os valores e clique em Interpretar.
Δ Delta-delta (acidose com AG ↑)
Δ/Δ = (AG − 12) / (24 − HCO₃⁻) · Detecta distúrbios mistos sobrepostos
Resultado Avalia se há distúrbio adicional além da acidose metabólica de AG ↑.
04 / Acidose metabólica

Quando o HCO₃⁻ cai.

Acidose metabólica = ↓ HCO₃⁻ primário, com queda compensatória da pCO₂ (Kussmaul). A divisão fundamental é entre AG aumentado (acúmulo de ácidos não-medidos) e AG normal / hiperclorêmica (perda de HCO₃⁻ ou ganho de Cl⁻).

Tabela ilustrativa — eletrólitos por mecanismo

CondiçãoNa⁺Cl⁻HCO₃⁻AG
Normal1421032712
Excesso de ácidos orgânicos (lactato, cetoácidos)1421031425
Ganho de Cl⁻ (SF 0,9%, ATR, diarreia)1421161412

Acidose metabólica com AG ↑ · MUDPILES

Mnemônico clássico para causas de AG aumentado. Toque cada letra:

M
Methanol
Toxina
Metanol → ácido fórmico. Acidose com AG ↑ + cegueira/atrofia óptica. Tratamento: fomepizol, etanol, hemodiálise.
U
Uremia
DRC avançada
Doença renal crônica (TFG < 20–30): acúmulo de sulfato, fosfato e ânions orgânicos. AG ↑ moderado (15–20). Tratamento: bicarbonato VO, diálise.
D
DKA / Cetoacidose
Endócrino
Cetoacidose diabética, alcoólica ou de jejum → β-hidroxibutirato, acetoacetato. Tratamento: insulina, hidratação, K⁺.
P
Paraldeído
Toxina (raro)
Sedativo histórico, hoje raro. Mecanismo: metabolização a ácido acético e cloroacético.
I
INH / Ferro
Toxina
Isoniazida em superdose → convulsões + acidose lática. Intoxicação por ferro → lesão hepatocelular + acidose.
L
Lactato
Hipoperfusão
Acidose lática: tipo A (hipóxia tecidual — sepse, choque, isquemia) e tipo B (metformina, álcool, leucemia, HIV-NRTI). Lactato > 2 = leve, > 4 = grave.
E
Etilenoglicol
Toxina
Anticongelante. Metabólitos: glicolato (acidose) e oxalato (lesão renal + cristais de oxalato na urina). Tratamento: fomepizol, hemodiálise.
S
Salicilato
Toxina
AAS em superdose → distúrbio misto clássico: alcalose respiratória (estímulo central) + acidose metabólica AG ↑. Tratamento: alcalinização urinária com bicarbonato.

Acidose metabólica com AG normal (hiperclorêmica)

Mnemônico: USEDCAR (Ureteroenterostomia, Saline excess, Endocrine — Addison, Diarreia, Carbonic anhydrase inhibitors, ATR, Renal tubular).

Diarreia

Perda de HCO₃⁻ pelas fezes. Causa mais comum.

  • Líquido intestinal é rico em HCO₃⁻ (pâncreas, biliar)
  • Perdas levam à hipocalemia associada (perda concomitante de K⁺)
  • AG urinário NEGATIVO (NH₄⁺ urinário alto — rim tentando excretar H⁺): U(Na+K)−U(Cl) < 0
  • Tratamento: reposição de volume e bicarbonato se grave

Acidose tubular renal (ATR)

Defeito tubular renal na manipulação de ácidos/bases.

  • Tipo 1 (distal): não acidifica urina (pH urinário > 5,5). K⁺ baixo. Risco de nefrolitíase de Ca²⁺/fosfato
  • Tipo 2 (proximal): defeito de reabsorção de HCO₃⁻. K⁺ baixo. Síndrome de Fanconi associada (glicosúria, fosfatúria, aminoacidúria)
  • Tipo 4 (hipoaldosteronismo): K⁺ ALTO. Comum em DM2, nefropatia diabética, IECA/BRA
  • AG urinário POSITIVO (NH₄⁺ baixo — rim falha em excretar H⁺)

Ânion gap urinário — para diferenciar diarreia × ATR

AG urinário = (U-Na⁺ + U-K⁺) − U-Cl⁻

  • Negativo (urina rica em NH₄Cl): rim está respondendo, expulsando H⁺ — pense em perda extra-renal de HCO₃⁻ (diarreia).
  • Positivo / zero: rim NÃO está excretando NH₄⁺ — pense em ATR.

Manifestações clínicas

  • Respiração de Kussmaul — hiperventilação profunda e regular; achado clínico mais comum, qualquer que seja a causa
  • Cardiovascular: ↓ contratilidade miocárdica, vasodilatação periférica, ↓ resposta a catecolaminas; arritmias se pH < 7,1
  • Neuro: letargia, confusão, coma (mais com pH < 7,2)
  • Hipercalemia: H⁺ entra na célula em troca de K⁺ (mais marcante na acidose mineral; menos na lática/cetoacidose)
  • Desvio da curva de O₂ para direita (Bohr) — libera mais O₂ aos tecidos

Tratamento

Princípio geral

Trate a causa de base. Bicarbonato exógeno é exceção, não regra.

Quando dar bicarbonato?

  • Acidose com AG normal (perda real de HCO₃⁻ — diarreia grave, ATR): reposição faz sentido
  • Acidose grave com pH < 7,1: considerar, com cautela
  • DRC com acidose crônica: bicarbonato VO para manter HCO₃⁻ ≥ 22 (KDIGO) — retarda progressão
  • Hipercalemia grave com acidose: pode ajudar a internalizar K⁺

Quando NÃO dar bicarbonato

  • Cetoacidose diabética: insulina + hidratação resolvem; bicarbonato pode agravar acidose intracelular paradoxal e atrasar resolução
  • Acidose lática: sem benefício de mortalidade comprovado; trate o choque/sepse
  • AG alto, paciente estável: o ácido orgânico será regenerado em HCO₃⁻ quando a causa for tratada
05 / Alcalose metabólica

Quando o HCO₃⁻ sobe.

Alcalose metabólica = ↑ HCO₃⁻ primário, com hipoventilação compensatória (limitada). Mecanismos: perda de H⁺ (vômito, sucção NG, diurético, hipermineralocorticismo) ou ganho de HCO₃⁻ (antiácidos, transfusão maciça, síndrome leite-álcali).

Diagnóstico diferencial pela cloretúria

O cloreto urinário separa as causas em dois grandes grupos — guia o tratamento.

Cloreto-sensível (U-Cl⁻ < 10 mEq/L)

Hipovolemia. Rim ávido por Cl⁻ e Na⁺. Corrige com SF 0,9%.

  • Vômito / sucção nasogástrica: perda de HCl gástrico → ↑ HCO₃⁻ + hipovolemia + hipocloremia + hipocalemia
  • Diuréticos (alça, tiazídicos): contração do extracelular + perda de Cl⁻/K⁺
  • Pós-hipercapnia: rim "esqueceu" de excretar o HCO₃⁻ retido
  • Adenoma viloso colônico: raro, perde Cl⁻

Cloreto-resistente (U-Cl⁻ > 20 mEq/L)

Excesso de mineralocorticoide ou disfunção tubular. Não corrige com SF.

  • Hiperaldosteronismo primário (Conn): HAS + hipocalemia + alcalose
  • Cushing: efeito mineralocorticoide do cortisol em altas doses
  • Síndrome de Bartter: mimetiza furosemida (alça espessa) — normotenso
  • Síndrome de Gitelman: mimetiza tiazídico (TCD) — normotenso, hipomagnesemia
  • Síndrome de Liddle: ENaC hiperativo — HAS + hipocalemia, aldosterona BAIXA

Por que vômito faz alcalose hipocalêmica?

São três mecanismos independentes e simultâneos — cada um sozinho já causaria alcalose. Juntos, criam um quadro que se autoperpetua mesmo depois que o vômito cessa. Entender cada engrenagem justifica cada passo do tratamento.

1
Perda de HCl — o gatilho inicial

Para entender, é preciso lembrar como o estômago fabrica ácido. A célula parietal gástrica usa a anidrase carbônica para gerar H⁺ e HCO₃⁻ a partir de CO₂ + H₂O. O H⁺ é bombeado para o lúmen gástrico (forma HCl junto com o Cl⁻). O HCO₃⁻ entra no plasma — é a chamada "maré alcalina pós-prandial".

CO₂ + H₂O → H⁺ (→ lúmen: HCl) + HCO₃⁻ (→ plasma)

Em condições normais, quando o HCl alcança o duodeno, o pâncreas secreta HCO₃⁻ para neutralizá-lo — e o balanço fica zero. No vômito, o HCl é expelido antes de chegar ao duodeno. O HCO₃⁻ que o estômago jogou no plasma nunca é neutralizado. Resultado: cada vômito efetivamente "injeta" HCO₃⁻ no sangue → alcalose metabólica. Junto com isso, perde-se Cl⁻ (importante para o próximo passo).

2
Hipovolemia + hipocloremia ativam o rim para manter a alcalose

Com vômitos repetidos, o paciente perde volume → hipovolemia → ativa o eixo RAA. A aldosterona sobe. No túbulo coletor, a aldosterona faz duas coisas:

  • Reabsorve Na⁺ avidamente (manter volume é prioridade absoluta)
  • Para cada Na⁺ reabsorvido, secreta K⁺ ou H⁺ para a luz tubular (manter eletroneutralidade)

Cada H⁺ secretado para a urina regenera 1 HCO₃⁻ no plasma → a alcalose é ativamente mantida pelo rim, que está "tentando salvar o volume às custas do pH".

A acidúria paradoxal: o paciente tem alcalose metabólica (pH alto no sangue), mas sua urina é ácida. Parece paradoxal, mas faz sentido: o rim está excretando H⁺ não porque o sangue está ácido, mas porque a aldosterona manda secretar H⁺ para reabsorver Na⁺. O rim "sacrifica" o pH para salvar o volume. Clinicamente: U-Cl⁻ < 10 mEq/L confirma que a causa é cloreto-sensível (depleção de volume).

O papel do Cl⁻: em condições normais, quando há excesso de HCO₃⁻, o rim o excreta na urina na forma de NaHCO₃. Mas para excretar NaHCO₃, precisa de Cl⁻ para reabsorver no cloreto — com hipocloremia, o rim não consegue "descarregar" o HCO₃⁻ excedente. A alcalose fica presa.

3
Hipocalemia autoperpetua a alcalose — o terceiro laço

A aldosterona do passo 2 excreta K⁺ → hipocalemia. A hipocalemia, por sua vez, cria mais alcalose por dois mecanismos:

Troca K⁺/H⁺ nas células tubulares

Com K⁺ baixo no extracelular, as células tubulares "trocam": liberam o K⁺ que têm para o extracelular e, em contrapartida, captam H⁺ do plasma. A célula tubular fica com acidose intracelular. Isso estimula a H⁺-ATPase a secretar mais H⁺ na urina e a regenerar mais HCO₃⁻ para o plasma.

↑ Amoniogênese

A acidose intracelular da célula tubular estimula a síntese de amônia (NH₃) a partir de glutamina. NH₃ capta H⁺ no lúmen → NH₄⁺ excretado → mais H⁺ removido da urina → mais HCO₃⁻ regenerado. O rim está gerando novo HCO₃⁻ ativamente.

O círculo vicioso: alcalose → aldosterona excreta K⁺ → hipocalemia → acidose intracelular tubular → mais H⁺ excretado → mais HCO₃⁻ no plasma → mais alcalose. Mesmo que o vômito pare, o ciclo continua até que K⁺ e volume sejam repostos.

4
Tratamento — desfazendo cada nó, na ordem certa

Não se trata alcalose metabólica por vômito com bicarbonato negativo — o rim vai resolver se você der as ferramentas certas.

SF 0,9% (soro fisiológico)

Corrige hipovolemia → desliga o RAA → cai a aldosterona → rim para de secretar H⁺ e pode agora excretar o excesso de HCO₃⁻. Repõe Cl⁻ → rim consegue "descarregar" HCO₃⁻ na urina (como NaCl, não NaHCO₃). Sem volume, nada mais funciona.

KCl

Corrige hipocalemia → desfaz a acidose intracelular tubular → para a amoniogênese excessiva e a H⁺-ATPase excessiva → rim deixa de regenerar HCO₃⁻. Sem K⁺, mesmo com volume reposto, a alcalose persiste. KCl é obrigatório.

Por que não dar NaHCO₃ "para baixo" no pH? Bicarbonato negativo não existe. O tratamento é restaurar as condições para que o rim próprio excrete o HCO₃⁻ excedente. Com volume e K⁺ repostos, o rim normaliza o pH em horas.

Manifestações clínicas

  • Hipocalemia — principal efeito clinicamente relevante; arritmias em coronariopata
  • Tetania / parestesias — alcalose ↓ Ca²⁺ ionizado (↑ ligação à albumina)
  • Hipoventilação compensatória — pode mascarar pCO₂ alta em paciente com DPOC
  • Desvio da curva de O₂ para esquerda — menos liberação de O₂ aos tecidos
  • Confusão, convulsões em alcalose grave (pH > 7,55)
06 / Distúrbios respiratórios

Quando a pCO₂ manda.

Acidose respiratória

↑ pCO₂ primário, por hipoventilação alveolar. Aguda: pH cai bruscamente (HCO₃⁻ sobe pouco). Crônica: rim reteve HCO₃⁻ ao longo de 3–5 dias, pH quase normal.

Causas

  • SNC: opioides, sedativos, AVC tronco encefálico, TCE
  • Neuromuscular: miastenia grave, Guillain-Barré, ELA, hipocalemia/hipofosfatemia grave
  • Via aérea / parênquima: DPOC descompensado (CAUSA CLÁSSICA), asma grave, fibrose pulmonar avançada
  • Caixa torácica: cifoescoliose, obesidade mórbida (Pickwick), pneumotórax
  • Iatrogênico: ventilação mecânica mal ajustada

DPOC retentor crônico — armadilha clássica

Paciente com pCO₂ basal de 55 mmHg e HCO₃⁻ de 32 — pH ≈ 7,38. Está compensado. Se chega à emergência com pCO₂ = 80 e pH = 7,20, sofreu uma acidose respiratória aguda sobre crônica. O drive ventilatório passa a depender de hipóxia — cuidado com O₂ em alto fluxo (pode causar narcose).

Alcalose respiratória

↓ pCO₂ primário, por hiperventilação alveolar. Mais comum do que se pensa em ambiente hospitalar.

Causas

  • Hipóxia: altitude, pneumonia, TEP, ICC, asma leve
  • Estímulo central: ansiedade, dor, febre, gravidez (progesterona), AVC, encefalite
  • Toxinas: salicilato — clássico do distúrbio misto (alcalose respiratória + acidose metab AG↑)
  • Sepse: early septic shock — alcalose respiratória precede a acidose lática
  • Hepatopatia avançada: hiperamonemia estimula respiração
  • Iatrogênico: hiperventilação mecânica

Manifestações

  • Parestesias periorais e digitais (alcalose aguda, ↓ Ca²⁺ ionizado)
  • Tetania, espasmo carpopedal em alcalose aguda grave
  • Tontura, síncope — vasoconstrição cerebral por hipocapnia
  • Convulsões em casos extremos
↻ Aprofundamento

Perguntas socráticas.

Toque para revelar. Antes — formule você mesmo a resposta.

?
Por que o lactato sobe na sepse?
Pense primeiro

O lactato é apenas um marcador de hipoperfusão? Ou pode subir mesmo com perfusão preservada? Pense em mais de um mecanismo.

O lactato na sepse sobe por vários mecanismos sobrepostos:

  • Hipóxia tecidual (tipo A clássico): hipoperfusão → glicólise anaeróbia → piruvato → lactato. Mas isso é minoritário nos pacientes ressuscitados.
  • Disfunção mitocondrial: mediadores inflamatórios (TNF, IL-6, NO) inibem a piruvato desidrogenase — piruvato acumula e é convertido a lactato mesmo com O₂ disponível.
  • Estímulo β-adrenérgico: catecolaminas (endógenas e exógenas — noradrenalina/adrenalina) aumentam glicólise aeróbia via Na/K-ATPase muscular esquelético.
  • Clearance hepático reduzido: fígado disfuncional não depura.
  • Acúmulo de D-lactato por bactérias intestinais com translocação.

Por isso, lactato isolado não diferencia "perfusão ruim" de "doença grave sem hipóxia" — interprete junto com PAM, ScvO₂, tempo de enchimento capilar, débito urinário.

?
Como o rim compensa acidose respiratória crônica?
Pense primeiro

O que o rim faz para "subir" o HCO₃⁻? É apenas reabsorção do filtrado, ou ele gera bicarbonato novo? Quanto tempo leva?

O rim usa dois mecanismos coordenados em 3–5 dias:

  1. ↑ reabsorção de HCO₃⁻ no TCP: a hipercapnia ↑ atividade do NHE3 (Na⁺/H⁺ exchanger) e da H⁺-ATPase tubular. O HCO₃⁻ filtrado é praticamente todo recuperado.
  2. ↑ amoniogênese (geração de HCO₃⁻ NOVO): em resposta à acidose intracelular, o TCP aumenta o metabolismo da glutamina → α-cetoglutarato + 2 NH₄⁺. O α-KG é metabolizado a HCO₃⁻ novo que retorna ao sangue. O NH₄⁺ é excretado na urina como NH₄Cl — eliminando o ácido "fixo".

Resultado: a cada 10 mmHg de ↑ pCO₂ sustentada, o HCO₃⁻ sobe 3–5 mEq/L. Por isso o paciente com DPOC retentor tem HCO₃⁻ 30–35 e pH quase normal (7,35–7,38).

Importante: ao corrigir a hipercapnia rapidamente (intubação agressiva), o HCO₃⁻ retido persiste por dias → alcalose metabólica pós-hipercapnia.

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Por que vômito causa alcalose e aciduria paradoxal?
Pense primeiro

Se o paciente está alcalótico, esperaríamos urina alcalina, não? Por que a urina dele é ácida?

É um dos conceitos mais bonitos da nefrologia. Sequência:

  1. Fase 1 — perda de HCl: o vômito perde H⁺ + Cl⁻; o estômago "doa" HCO₃⁻ ao plasma a cada HCl produzido. Cria alcalose. O rim, sentindo alcalose + cloreto normal, deveria excretar HCO₃⁻ — urina alcalina. Isso ocorre na fase inicial.
  2. Fase 2 — depleção de volume: com vômito persistente, o paciente desidrata. Hipovolemia + hipocloremia ativam o eixo RAA. Aldosterona ↑ retém Na⁺ avidamente no túbulo distal, e obrigatoriamente excreta K⁺ e H⁺ na luz. O rim "prefere" manter volume a manter pH.
  3. Fase 3 — hipocalemia: a perda de K⁺ piora; K⁺ baixo intracelular força a célula tubular a trocar K⁺ por H⁺ extracelular, gerando acidose intracelular tubular. O resultado: a célula α-intercalar secreta H⁺ na urina mesmo com pH plasmático alto = aciduria paradoxal.
  4. Por que isso "mantém" a alcalose: cada H⁺ secretado regenera 1 HCO₃⁻ para o plasma — a alcalose é perpetuada apesar de a causa primária (vômito) ter cessado.

Resolução clínica: SF 0,9% (restaura volume + Cl⁻) + KCl (restaura K⁺). Aí o rim "se sente" reidratado, desliga a aldosterona e excreta o excesso de HCO₃⁻.

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Quando suspeitar de distúrbio misto?
Pense primeiro

Liste pelo menos 3 sinais matemáticos/clínicos que indicam > 1 distúrbio coexistente.

Sinais de alerta para distúrbio misto:

  • pH normal com pCO₂ ou HCO₃⁻ anormais — compensação nunca normaliza completamente o pH; se está normal com bioquímica alterada, há > 1 distúrbio.
  • Compensação fora do esperado (Winter, etc.) — sempre cheque com a fórmula.
  • Δ AG / Δ HCO₃⁻ < 1: acidose mista (AG ↑ + AG normal).
  • Δ/Δ > 2: alcalose metabólica + acidose AG ↑.
  • HCO₃⁻ desproporcional ao pCO₂ em respiratórios: ex. acidose resp. aguda esperaria HCO₃⁻ ~26, e veio HCO₃⁻ = 32 → alcalose metab. associada.
  • pCO₂ ou HCO₃⁻ em direções "trocadas": ex. pH = 7,30, pCO₂ = 50, HCO₃⁻ = 18 → acidose resp + acidose met combinadas.

Exemplos clássicos:

  • DPOC retentor + diurético: acidose resp crônica + alcalose metab
  • Intoxicação por salicilato: alcalose resp (estímulo central) + acidose metab AG ↑
  • Sepse grave: alcalose resp inicial + acidose metab lática
  • Cirrose com vômito: alcalose resp + alcalose metab
  • CAD + vômito: acidose AG ↑ + alcalose metab → pH pode parecer normal
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Quando dosar o ânion gap urinário?
Pense primeiro

Em qual cenário ele realmente muda conduta? Como interpretá-lo?

O AG urinário é solicitado em acidose metabólica de AG normal (hiperclorêmica) para diferenciar:

  • Perda extra-renal de HCO₃⁻ (diarreia, fístula intestinal) — rim funciona, excreta NH₄⁺ avidamente
  • Defeito tubular renal (ATR) — rim não consegue excretar NH₄⁺

Fórmula: AG urinário = (Na⁺ + K⁺) urinário − Cl⁻ urinário.

O Cl⁻ urinário "balanceia" o NH₄⁺ (que não é medido) — então um Cl⁻ alto, com Na/K relativamente baixos = muito NH₄⁺ = rim funcionando.

AG urinárioInterpretaçãoDiagnóstico provável
NEGATIVO (< −10)Muito NH₄⁺ urinário — rim OKDiarreia, perda extra-renal de HCO₃⁻
POSITIVO (> +10)Pouco NH₄⁺ — rim falhaATR (tipo 1, 4 — sempre; tipo 2 — variável)

Cuidado: não é válido se houver outro ânion na urina (cetonúria — DKA, hipurato — toluene, etc.). Nesses casos, mede-se o osmolal gap urinário.

⊕ Quiz

Teste seu raciocínio.

Sete questões. Toque na alternativa; o feedback aparece embaixo.

Q1. Paciente com pH 7,18 · pCO₂ 22 · HCO₃⁻ 8 · Na⁺ 138 · Cl⁻ 100. Diagnóstico mais provável?
Q2. Paciente cetoacidótico com pH 7,32, HCO₃⁻ 16, pCO₂ 32, Na⁺ 140, Cl⁻ 100. Qual o achado mais surpreendente?
Q3. Causa de acidose metabólica com AG NORMAL e hipocalemia:
Q4. Paciente com vômitos há 5 dias. Gasometria: pH 7,52, pCO₂ 48, HCO₃⁻ 38, K⁺ 2,8, U-Cl⁻ < 10 mEq/L. Melhor conduta inicial?
Q5. Em quais causas o mnemônico MUDPILES NÃO se aplica? (acidose com AG normal)
Q6. DPOC retentor crônico, basal pH 7,37 · pCO₂ 56 · HCO₃⁻ 32. Chega à emergência com pH 7,20 · pCO₂ 80 · HCO₃⁻ 30. Interpretação:
Q7. Paciente intoxicado por AAS. Gasometria: pH 7,40, pCO₂ 20, HCO₃⁻ 12, Na⁺ 140, Cl⁻ 100. O pH normal significa:
⊳ Resumo

Take-home messages.

01

pH = 7,40 ± 0,03

Tampão (segundos) → pulmão (minutos) → rim (horas-dias). Quem altera o quê: HCO₃⁻ = rim, pCO₂ = pulmão.

02

Henderson-Hasselbalch

pH depende da razão HCO₃⁻/pCO₂. Manter razão ≈ 20:1 = manter pH constante.

03

Sempre 5 passos

pH → distúrbio primário → compensação esperada → AG → Δ/Δ. Mesmo algoritmo, sempre.

04

Winter para acidose metab

pCO₂ esperada = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2. Fora do esperado = distúrbio respiratório associado.

05

AG corrigido pela albumina

AG + 2,5 × (4 − albumina). Não esqueça em cirrótico, séptico, desnutrido.

06

MUDPILES = AG ↑

Methanol, Uremia, DKA, Paraldeído, INH/Ferro, Lactato, Etilenoglicol, Salicilato.

07

AG normal = perda de HCO₃⁻ ou ganho de Cl⁻

Diarreia (AG urinário NEG) × ATR (AG urinário POS). Tipo 4 = hiperK; tipos 1 e 2 = hipoK.

08

Bicarbonato — quando dar?

AG normal real (diarreia, ATR), DRC crônica, hipercalemia grave, pH < 7,1 selecionados. NÃO em DKA/lática rotineiramente.

09

Alcalose metabólica: cloretúria manda

U-Cl⁻ < 10 = cloreto-sensível (vômito, diurético) → SF 0,9% + KCl. U-Cl⁻ > 20 = cloreto-resistente (Conn, Bartter, Gitelman) → trate causa.

10

Vômito = alcalose + hipoK + aciduria paradoxal

Volume + Cl⁻ + K⁺ baixos perpetuam a alcalose via aldosterona. Reponha tudo.

11

DPOC retentor: cuidado com O₂

Drive ventilatório depende de hipóxia. Alvo SatO₂ 88–92%. Hipercapnia aguda + crônica é diferente — leia pH e HCO₃⁻.

12

pH normal pode esconder distúrbio

Compensação NUNCA normaliza pH 100%. pH normal + bioquímica anormal = distúrbio MISTO. Suspeite de salicilato, sepse complexa.

↻ Framework

Pense em 5 passos.

Toda vez que uma gasometria cair na sua mão — em prova, plantão ou enfermaria — passe por estes 5 nós de raciocínio na ordem. Toque em cada cartão para aprofundar.

1
Passo 1 · pH
Acidemia ou alcalemia?
O pH está abaixo de 7,35 ou acima de 7,45?
pH < 7,35
Acidemia. Busque o distúrbio que está "puxando" o pH para baixo: HCO₃⁻ baixo (metab) ou pCO₂ alto (resp).
pH > 7,45
Alcalemia. HCO₃⁻ alto (metab) ou pCO₂ baixo (resp). Em pH normal + bioquímica anormal: pense em distúrbio misto.
Toque para aprofundarRecolher
Armadilhas
  • pH 7,40 com pCO₂ ou HCO₃⁻ anormais — sempre suspeite de distúrbio misto
  • Acidemia leve (pH 7,30–7,35) pode mascarar quadro grave em paciente cansando
  • Use o pH só para identificar o lado predominante; ele não diz o número de distúrbios
2
Passo 2 · Distúrbio primário
Metabólico ou respiratório?
Qual valor (HCO₃⁻ ou pCO₂) está alterado no mesmo sentido do pH?
HCO₃⁻ ALTERADO
Distúrbio metabólico. HCO₃⁻ baixo + pH baixo = acidose metab. HCO₃⁻ alto + pH alto = alcalose metab.
pCO₂ ALTERADO
Distúrbio respiratório. pCO₂ alto + pH baixo = acidose resp. pCO₂ baixo + pH alto = alcalose resp.
Toque para aprofundarRecolher
Macetes
  • "Mesmo lado do pH" = distúrbio primário. "Lado oposto" = compensação.
  • Os dois alterados em direções opostas? Pode ser distúrbio simples bem compensado OU distúrbio misto — Passo 3 separa.
3
Passo 3 · Compensação
Bate com o esperado?
Aplique a fórmula apropriada — a compensação observada é igual à esperada?
DENTRO
Distúrbio único com compensação adequada. Próximo passo: avaliar AG se acidose metab.
FORA
Distúrbio misto. Identifique qual é o segundo: se pCO₂ > esperado em acidose metab → acidose resp associada; se < esperado → alcalose resp associada.
Toque para aprofundarRecolher
Fórmulas chave
  • Acidose metab (Winter): pCO₂ = 1,5 × HCO₃⁻ + 8 ± 2
  • Alcalose metab: pCO₂ = 0,7 × HCO₃⁻ + 20 ± 5
  • Acidose resp aguda: ↑ HCO₃⁻ = 1 / 10 ↑ pCO₂
  • Acidose resp crônica: ↑ HCO₃⁻ = 3–5 / 10 ↑ pCO₂
  • Alcalose resp aguda: ↓ HCO₃⁻ = 1–2 / 10 ↓ pCO₂
  • Alcalose resp crônica: ↓ HCO₃⁻ ≈ 5 / 10 ↓ pCO₂
4
Passo 4 · Ânion gap
Calcule sempre.
AG = Na⁺ − (Cl⁻ + HCO₃⁻). Corrigido pela albumina. Está alto?
AG > 12
Ácidos não-medidos. Pense MUDPILES: lática, cetoacidose, uremia, toxinas.
AG NORMAL
Perda de HCO₃⁻ ou ganho de Cl⁻. Diarreia ou ATR — solicite AG urinário.
Toque para aprofundarRecolher
Não esqueça
  • Sempre corrija pela albumina — cada 1 g/dL abaixo de 4,0 sobe AG real em ~2,5
  • AG alto pode coexistir com AG normal — Δ/Δ < 1 confirma
  • AG > 30 sugere intoxicação (etilenoglicol, metanol) ou cetoacidose severa
5
Passo 5 · Δ/Δ e causa
Encontre a etiologia.
Δ/Δ = (AG − 12) / (24 − HCO₃⁻) — distúrbio adicional?
Δ/Δ ≈ 1
Acidose AG ↑ pura. Trate a causa de base; não dê bicarbonato rotineiramente.
Δ/Δ < 1 ou > 2
Mais de um distúrbio. <1: acidose mista (AG ↑ + AG normal). >2: alcalose metab associada ou acidose resp crônica.
Toque para aprofundarRecolher
Da gasometria ao paciente
  • Olhe contexto: choque, DM, vômito, DPOC, gestante, intoxicação?
  • Cetonemia/cetonúria? Lactato? Função renal? Osmolal gap?
  • Trate a causa — bicarbonato é exceção
  • Reavalie a gasometria após intervenção; melhora deve seguir o tratamento da causa

Gasometria interpretada com método

Cinco passos, do pH à etiologia. Se você passa por todos antes de concluir, dificilmente erra — mesmo nos distúrbios mistos mais traiçoeiros.