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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Doença renal
crônica.

Perda progressiva e irreversível da função renal — uma síndrome que afeta bilhões globalmente. Diabetes e HAS lideram as causas. Da nefroproteção à terapia substitutiva, o raciocínio é estruturado.

Prevalência
~10%
Causa #1
DM
Estágios
1–5
TRS
3 opções
01 / Definição

O que é DRC?

A doença renal crônica (DRC) é uma síndrome progressiva e irreversível de perda da função renal. A definição da KDIGO é operacional e depende de cronicidade (≥ 3 meses) somada a um dos seguintes:

Critério KDIGO — DRC se ≥ 1 destes por ≥ 3 meses

  • TFG < 60 mL/min/1,73m² — critério funcional
  • Marcadores de dano renal presentes (critério estrutural / funcional), mesmo com TFG normal:
    • Albuminúria persistente (≥ 30 mg/g de creatinina)
    • Alterações do sedimento urinário (hematúria glomerular, cilindros)
    • Distúrbios tubulares com alterações eletrolíticas
    • Alterações histológicas em biópsia
    • Alterações estruturais em imagem (rins reduzidos, policísticos, etc.)
    • História de transplante renal prévio

Por que 3 meses?

A janela de 3 meses separa injúria renal aguda (IRA, potencialmente reversível) de doença renal crônica. Uma TFG baixa de 50 mL/min/1,73m² ontem pode ser uma IRA — repetir em 3 meses define a cronicidade.

Atenção — TFG isolada engana

Um paciente jovem com nefropatia diabética inicial pode ter TFG 100 mL/min e mesmo assim ter DRC, se houver albuminúria persistente. A albuminúria é o primeiro sinal — e o mais sensível — em muitas etiologias.

02 / Estágios

Classificação KDIGO.

A KDIGO classifica a DRC em duas dimensões: G (taxa de filtração glomerular) e A (albuminúria). O prognóstico depende das duas — sempre relatar como G+A.

Categorias de TFG (G1–G5)

EstágioTFG (mL/min/1,73m²)Descrição
G1≥ 90Normal ou alta — DRC apenas se houver marcador de dano
G260–89Diminuição ligeira — DRC apenas com marcador de dano
G3a45–59Diminuição moderada
G3b30–44Diminuição moderada a grave
G415–29Diminuição grave — preparo para TRS
G5< 15Falência renal — indica TRS

Categorias de albuminúria (A1–A3)

EstágioAlbuminúria (mg/g)Descrição
A1< 30Normal a ligeiro aumento
A230–300Aumento moderado (antigamente "microalbuminúria")
A3> 300Aumento grave (antigamente "macroalbuminúria")

Matriz de risco KDIGO (G × A)

As cores indicam o risco de progressão para falência renal, eventos CV e mortalidade. Quanto mais à direita e abaixo, pior.

G \ A
A1 <30
A2 30–300
A3 >300
G1 ≥90
Baixo
Moderado
Alto
G2 60–89
Baixo
Moderado
Alto
G3a 45–59
Moderado
Alto
Muito alto
G3b 30–44
Alto
Muito alto
Muito alto
G4 15–29
Muito alto
Muito alto
Muito alto
G5 <15
Muito alto
Muito alto
Muito alto
03 / Calculadora

Estágio interativo.

Insira TFG e albuminúria do seu paciente — o estágio KDIGO e a conduta recomendada aparecem em tempo real.

Calculadora KDIGO de estágio DRC
G + A em uma só etapa
G3a A2 Risco alto
Diminuição moderada com aumento moderado de albuminúria.
Iniciar/otimizar IECA ou BRA. Estatina. Considerar iSGLT2 se TFG ≥ 20. Acompanhamento a cada 6 meses. Vacinação.

Como interpretar

  • G1A1 / G2A1: sem DRC ativa. Vigilância de fatores de risco.
  • G3a–G4: nefroproteção agressiva é mandatória. IECA/BRA, iSGLT2, controle pressórico e glicêmico.
  • G4: preparo para TRS — encaminhamento a nefrologista, acesso vascular planejado.
  • G5: indicação iminente de diálise ou transplante.
04 / Causas

Quem causa.

A maioria absoluta dos casos de DRC tem causa identificável. Saber a etiologia muda o ritmo de progressão, o tratamento específico e o risco de complicações extra-renais.

Causa%Pista clínica
Diabetes mellitus~40%Albuminúria → proteinúria; retinopatia diabética concomitante
Hipertensão arterial~25%HAS de longa data, sem proteinúria importante, rins reduzidos simetricamente
Glomerulopatias~15%Sedimento ativo (hematúria glomerular, cilindros hemáticos), proteinúria nefrótica
Doença renal policística~5%Autossômica dominante, história familiar, rins aumentados com múltiplos cistos
Uropatia obstrutiva~3%HPB, neoplasia pélvica, litíase de repetição, hidronefrose em imagem
Nefropatia por refluxo~2%Cicatrizes corticais focais, ITUs de infância repetidas
Nefrite intersticialraroDrogas (AINE, lítio, IBPs), doença autoimune
Causa desconhecida~10%Diagnóstico tardio — rins reduzidos sem etiologia clara

Nefropatia diabética

Causa #1 de DRC no mundo.

  • Curso típico: hiperfiltração inicial → microalbuminúria (A2) → proteinúria franca (A3) → queda da TFG
  • Histologia: glomeruloesclerose nodular (Kimmelstiel-Wilson), espessamento da MBG, expansão mesangial
  • Sinais associados: retinopatia diabética (forte associação), neuropatia
  • Tratamento: controle glicêmico + IECA/BRA + iSGLT2 (evidência forte) + finerenona
  • Prevenção: rastreio anual com albuminúria + TFG em todo diabético

Nefroesclerose hipertensiva

Causa #2 de DRC.

  • Curso típico: HAS de longa data não controlada → arteriolosclerose → isquemia glomerular → fibrose
  • Histologia: hialinose arteriolar, esclerose global de glomérulos, atrofia tubular
  • Proteinúria: tipicamente leve (A1–A2), raramente nefrótica
  • Imagem: rins reduzidos simetricamente
  • Tratamento: controle pressórico rigoroso (alvo <130/80), IECA/BRA de 1ª linha
05 / Fisiopatologia

Como o rim se destrói.

Independente da etiologia inicial, a DRC converge para um caminho final comum: perda progressiva de néfrons funcionais, hiperfiltração compensatória dos remanescentes e fibrose túbulo-intersticial irreversível. Entender essa cascata é essencial para justificar cada intervenção nefroprotetora.

Hipótese de Brenner — o paradoxo da hiperfiltração

Quando néfrons são perdidos, os remanescentes sofrem hipertrofia compensatória e hiperfiltração glomerular: a TFG por néfron aumenta para manter a TFG total. Isso funciona a curto prazo, mas cobra um preço.

1
Lesão inicial (DM, HAS, glomerulopatia…) Redução da massa nefrônica funcional. Os néfrons remanescentes são sobrecarregados.
2
Hiperfiltração compensatória ↑ Pressão hidrostática intraglomerular (Pgc) por vasodilatação da arteríola aferente e ativação do SRAA (angiotensina II vasoconstringe a eferente). TFG por néfron aumenta mas a pressão glomerular sobe.
3
Hipertensão glomerular → dano endotelial A pressão elevada lesa o endotélio, a membrana basal glomerular e o podócito. Resultado: proteinúria. A proteinúria em si é nefrotóxica — albumina filtrada ativa células tubulares via receptores megalina/cubilina, liberando citocinas pró-inflamatórias.
4
TGF-β, endotelina e fibrose Células mesangiais e túbulo-intersticiais ativadas secretam TGF-β1 (principal mediador pró-fibrótico), PDGF e endotelina-1. Miofibroblastos depositam colágeno no interstício. Fibrose = néfrons a menos = mais hiperfiltração nos remanescentes → ciclo vicioso.
5
Fibrose túbulo-intersticial — via final comum Independente da lesão glomerular inicial, é a extensão da fibrose intersticial que melhor prediz a queda da TFG. Ativação pericítica, transição epitélio-mesenquimal e isquemia tubular se somam à injúria direta por toxinas urêmicas.

SRAA: amplificador da progressão

Angiotensina II — o vilão central

  • Vasoconstrição preferencial da arteríola eferente → ↑ Pgc
  • Estimula síntese de TGF-β1 no mesângio e túbulo
  • Induz expressão de PAI-1 (inibe degradação da matriz)
  • Ativa NF-κB → inflamação renal crônica
  • Aumenta reabsorção de Na⁺ proximal → hipertensão sistêmica

Por que IECA/BRA são nefroprotetores

  • Bloqueiam ang II → vasodilatação preferencial da eferente → ↓ Pgc
  • Reduzem proteinúria independente do efeito pressórico
  • ↓ TGF-β1 → menos fibrose
  • iSGLT2 complementam: constrição da aferente via feedback tubuloglomerular
  • Finerenona (ARM): bloqueia aldosterona → ↓ inflamação e fibrose renal

Estresse oxidativo e inflamação crônica

A isquemia intermitente, os lipopolissacarídeos bacterianos circulantes e as toxinas urêmicas (p-cresol, indoxil sulfato) geram espécies reativas de oxigênio (EROs) que danificam DNA tubular, oxidam LDL intraglomerular e ativam NLRP3 inflamassome. Isso cria um estado de inflamação renal de baixo grau que sustenta a progressão mesmo após controle da causa inicial.

Acúmulo de toxinas urêmicas

p-c
p-cresol sulfato e indoxil sulfato Derivados do metabolismo intestinal de aminoácidos aromáticos. Não filtrados eficientemente (ligados à albumina). Diretamente fibrogênicos no túbulo e nocivos ao endotélio sistêmico (↑ risco cardiovascular).
FGF
FGF-23 e deficiência de Klotho Com a perda de néfrons, cai a expressão de Klotho (co-receptor de FGF-23 no rim). FGF-23 sobe para compensar a hiperfosfatemia, mas níveis muito altos são tóxicos ao miocárdio (hipertrofia ventricular esquerda). A deficiência de Klotho acelera envelhecimento renal e sistêmico.
PTH
PTH e hiperparatireoidismo secundário ↓ 1,25(OH)₂D₃ (rim não converte) → hipocalcemia → ↑ PTH. PTH alto é uma "toxina urêmica" em si: causa osteodistrofia renal, calcificação vascular e disfunção imune.

Insight clínico: A hiperfiltração compensatória explica por que pacientes com DRC inicial podem ter TFG aparentemente normal ou até elevada — a albuminúria é o primeiro biomarcador de lesão, não a queda da TFG. Rastrear proteinúria precocemente é rastrear o mecanismo de progressão em ação.

Achados laboratoriais

Os exames laboratoriais refletem diretamente as funções perdidas. Há uma progressão previsível — albuminúria e FGF-23 sobem primeiro; creatinina e ureia refletem queda tardia da TFG.

ExameAchado típicoMecanismo / Correlação clínica
Creatinina sérica↑ progressivoProduto do metabolismo muscular; sobe quando TFG cai >50% (tardia — afetada por massa muscular)
Ureia (BUN)↑ (catabolismo + ↓ excreção)Produto do metabolismo proteico; sintomas urêmicos geralmente com ureia > 150–200 mg/dL
Cistatina C↑ precoceMelhor marcador de TFG que creatinina; não depende de massa muscular; detecta G2 com mais sensibilidade
Albuminúria / proteinúria↑ A2–A3Primeiro biomarcador de lesão glomerular. A2 = microalbuminúria (30–300 mg/g); A3 = macroalbuminúria (>300). CRITÉRIO DIAGNÓSTICO de DRC
Potássio (K⁺)↑ (hipercalemia)Excreção renal comprometida em G4–G5; agravada por IECA/BRA, acidose, dieta
Fósforo↑ (hiperfosfatemia)Excreção tubular insuficiente; FGF-23 tenta compensar mas eleva-se toxicamente
Cálcio total/ionizado↓ (hipocalcemia)↓ calcitriol → ↓ absorção intestinal; piorada por hiperfosfatemia (quela Ca²⁺)
PTH intacto↑↑ (HPT 2º)Hipocalcemia + hiperfosfatemia estimulam paratireoides. PTH > 9× o limite superior em G5
FGF-23↑↑↑ precoce (G2–G3)Biomarcador mais precoce do DMO-DRC; níveis muito altos → HVE e mortalidade CV
25-OH vitamina D↓ (deficiência)Hidrólise hepática preservada, mas 1-α-hidroxilação renal falha → calcitriol ↓↓
Hemoglobina / Ht↓ (anemia normo/normo)↓ EPO renal (peritubular); reticulócitos normais ou ↓; ferro sérico pode ser baixo (deficiência absoluta ou funcional)
Bicarbonato / gasometriaHCO₃⁻ ↓ (acidose met.)AG normal em G3–G4 (acidose tubular); AG alargado em G5 (retenção de ácidos orgânicos)
Albumina sérica↓ (hipoalbuminemia)Perda urinária + catabolismo urêmico + inflamação (PCR ↑); forte preditor de mortalidade
Urinálise + sedimentoVer abaixoProteinúria ± hematúria microscópica (glomerular). Cilindros céreos/granulosos em DRC avançada = fibrose. Densidade urinária fixa (~1.010) = perda de concentração

Sedimento urinário — o que procurar

  • Proteinúria — sempre quantificar (RAC na 1ª urina do dia)
  • Hematúria microscópica — se glomerular, hemácias dismórficas + acantócitos (>5%)
  • Cilindros granulosos/céreos — refletem fibrose avançada ("bile de néfrons moribundos")
  • Cilindros hemáticos — nefrite ativa (IgA, lúpica, ANCA)
  • Densidade fixa 1.010 — isostenúria = perda total de concentração (G4–G5)

Armadilhas laboratoriais

  • Creatinina normal ≠ TFG normal — paciente sarcopênico (idoso, cirrótico) pode ter TFG 40 com Cr 0.8
  • Hipercalemia mascarada — hemólise na coleta falsamente eleva K⁺
  • Anemia "mascarada" — hemoconcentração (desidratação) pode normalizar Hb
  • Fosfatemia normal em G3 — não exclui DMO; FGF-23 já está alto (compensa)
  • Proteinúria na urinalise ≠ albuminúria — usar RAC (proteínas tubulares não são albumina)

Achados de imagem

A ultrassonografia renal é o exame de imagem de escolha na DRC — barata, sem contraste, disponível, e fornece as informações essenciais. O achado clássico é a redução bilateral do tamanho renal com aumento da ecogenicidade cortical.

USG Renal

Exame de 1ª linha — toque para expandir

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  • Rins pequenos bilaterais (< 9 cm eixo longitudinal) — principal achado de DRC irreversível
  • Cortical hiperecogênica — fibrose = mais interfaces acústicas = mais ecos (graus I–III)
  • Perda da diferenciação córtico-medular — rim fibrótico perde o contraste entre cortical e medular
  • Córtex adelgaçado (< 7 mm) — correlaciona com número de néfrons remanescentes
  • Contornos irregulares / cicatrizes — nefropatia por refluxo, pielonefrite crônica, litíase
  • EXCEÇÕES que mantêm rins de tamanho normal/aumentado: DM (hiperfiltração), Doença policística (cistos volumosos), Amiloidose, HIV-AN

TC / Ecocardiograma / RX

Exames complementares — toque para expandir

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  • TC abdome s/ contraste: calcificações vasculares renais/aorta (DMO avançada); cistos simples; avalia obstrução e tamanho sem risco de contraste
  • Ecocardiograma: HVE (DTVe > 12mm, hipertensão + anemia); disfunção diastólica; derrame pericárdico urêmico; função sistólica (complicação de DCV)
  • RX de mãos/punhos: erosões subperiósteas radiais (reabsorção subperiosteal — sinal patognomônico de HPT 2º); calcificações de partes moles
  • Cintilografia óssea: osteodistrofia renal — captação aumentada em osso trabecular, calcificações metastáticas
  • RM renal: evitar gadolínio em TFG < 30 (risco de fibrose nefrogênica sistêmica)

Insight clínico: A hiperfiltração compensatória explica por que pacientes com DRC inicial podem ter TFG aparentemente normal ou até elevada — a albuminúria é o primeiro biomarcador de lesão, não a queda da TFG. Rastrear proteinúria precocemente é rastrear o mecanismo de progressão em ação.

06 / Manifestações Clínicas

O que o paciente sente e tem.

A DRC é classicamente silenciosa até G4 — a maioria dos sintomas aparece quando a TFG cai abaixo de 30 mL/min. Mas as consequências sistêmicas já se instalam antes, detectáveis pelos exames. O rim faz muito além de filtrar: regula pressão, ativa vitamina D, produz eritropoietina, controla ácido-base e eletrólitos. Quando falha, tudo sai do lugar.

Manifestações por sistema

SistemaManifestaçãoEstágio típico / Mecanismo
CardiovascularHipertensão arterial resistenteG2–G5: retenção de Na⁺/H₂O + ativação SRAA + endotelina
HVE e ICCG3–G5: sobrecarga de volume + cardiomiopatia urêmica + anemia
Calcificação vascular medialG4–G5: DMO-DRC, produto Ca×P elevado
Pericardite urêmicaG5: atrito pericárdico, dor pleurítica, derrame — indicação urgente de diálise
HematológicoAnemia normocítica normocrômicaG3a+: ↓ EPO peritubular, ferropenia funcional
Disfunção plaquetáriaG4–G5: toxinas urêmicas inibem agregação; sangramento com plaquetas normais
Tendência trombótica (paradoxo)Síndrome nefrótica concomitante: hipercoagulabilidade por perda de anticoagulantes
NeurológicoNeuropatia periféricaG4–G5: desmielinização por toxinas urêmicas; queimação, parestesias, "síndrome das pernas inquietas"
Encefalopatia urêmicaG5: confusão, sonolência, asterixe (flapping), convulsões — urgência dialítica
Disfunção autonômicaG4+: hipotensão ortostática, disfunção erétil, gastroparesia
Distúrbio cognitivoG3b+: déficit de atenção/memória; piora com anemia e HAS não controlada
GastrointestinalAnorexia, náusea, vômitosG4–G5: ureia convertida a amônia pela flora intestinal → mucosa gástrica
Gosto metálico / hálito urêmicoG5: amônia exalada; pacientes relatam "gosto de ferrugem"
Hemorragia digestivaG5: angiodisplasia + disfunção plaquetária; sangramento sem lesão estrutural óbvia
DermatológicoPrurido urêmicoG4–G5: deposição de cristais de ureia, hiperfosfatemia, hiperparatireoidismo
PalidezG3+: anemia normocítica
Uremic frostG5 grave: cristais de ureia na pele (achado tardio e raro no mundo moderno)
MusculoesqueléticoFraqueza muscular / miopatia urêmicaG4–G5: catabolismo, acidose metabólica, desnutrição
Osteodistrofia renalG3b+: dor óssea, fraturas patológicas, deformidades (HPT 2º / osteomalácia)
Calcificações extra-ósseasG4–G5: produto Ca×P > 55 → calcifilaxia (necrose isquêmica cutânea grave)
Endócrino / MetabólicoResistência insulínicaG3+: toxinas urêmicas prejudicam sinalização da insulina
Dislipidemia aterogênicaG2+: ↑ triglicerídeos, ↓ HDL, LDL modificado por oxidação
ImunológicoImunodeficiência adquiridaG3+: disfunção de neutrófilos e linfócitos T; maior risco infeccioso
Resposta vacinal subótimaG3+: vacinar HBV (dose dupla), pneumo, influenza, COVID precocemente

Síndrome urêmica — quando vira emergência

A síndrome urêmica é o conjunto de sintomas que indica falência renal com acúmulo crítico de toxinas. É indicação absoluta de início de diálise — mesmo que a TFG ainda seja > 10 mL/min.

Indicações absolutas de diálise

  • Pericardite urêmica
  • Encefalopatia urêmica (asterixe, convulsões)
  • Sangramento urêmico refratário
  • Hipercalemia refratária ao tratamento clínico
  • Acidose metabólica grave refratária (pH < 7.1)
  • Hipervolemia refratária a diuréticos

Sinais de alerta (G5 sintomático)

  • Asterixe (flapping tremor) ao examinar as mãos
  • Odor amoniacal do hálito
  • Confusão e sonolência progressiva
  • Náusea matinal persistente + anorexia total
  • Atrito pericárdico ao auscultar
  • TFG < 10 mL/min assintomático: planejar acesso

Cardiovasculares — a maior causa de morte

Mais pacientes com DRC morrem de doença cardiovascular do que de uremia. A DRC é um equivalente coronariano. Há:

  • Hipertensão arterial: retenção de sódio, ativação do SRAA, hipersecreção de endotelina
  • Insuficiência cardíaca: sobrecarga de volume + cardiomiopatia urêmica + HVE
  • Doença coronariana acelerada: dislipidemia, inflamação crônica, calcificação
  • Calcificação vascular: média (medial — distúrbio mineral-ósseo) e íntima (aterosclerose acelerada)
  • Arritmias: hipercalemia, fibrose miocárdica

Anemia da DRC

Anemia normocítica normocrômica — o rim doente não produz eritropoietina (EPO) em quantidade adequada. Contribui também a ferropenia funcional e absoluta, e o efeito inibitório da uremia na medula.

1
Queda da EPO renalCélulas peritubulares produzem menos EPO conforme a TFG cai (geralmente a partir de G3a).
2
↓ Eritropoiese medularSem EPO, a medula não estimula adequadamente a linhagem eritroide.
3
Anemia normo/normoPacientes ficam fatigados, com queda de qualidade de vida e mais risco CV.
4
TratamentoReposição de ferro IV (para saturação > 20–30% e ferritina > 100–500) + EPO recombinante (alfaepoetina, darbepoetina) se Hb < 10 g/dL. Alvo Hb 10–11,5 g/dL — não normalizar (aumenta eventos CV).

Distúrbio mineral-ósseo da DRC (DRC-DMO)

Conjunto de alterações de fósforo, cálcio, PTH, vitamina D, FGF-23 e do tecido ósseo. É uma cascata:

1
HiperfosfatemiaRim não excreta fósforo adequadamente — fósforo sérico sobe.
2
↑ FGF-23Osso responde aumentando FGF-23, que aumenta excreção de fósforo (compensa) mas inibe a 1-α-hidroxilase renal.
3
↓ Calcitriol (1,25-OH₂-D)Sem 1-α-hidroxilase eficiente, a forma ativa de vitamina D cai.
4
HipocalcemiaSem calcitriol, há menos absorção intestinal de cálcio. Cálcio sérico cai.
5
↑ PTH (hiperparatireoidismo secundário)Hipocalcemia e hiperfosfatemia estimulam as paratireoides → PTH alto.
6
Osteíte fibrosa cística + calcificação extra-ósseaPTH alto reabsorve osso (osteodistrofia) e o cálcio liberado se deposita em vasos e tecidos moles → calcificação vascular acelerada.

Tratamento

  • Restrição dietética de fósforo (carnes processadas, refrigerantes, queijos curados, aditivos)
  • Quelantes de fósforo: carbonato de cálcio (com refeição), sevelamer (sem cálcio — preferido se calcificação), lantânio
  • Análogos de vitamina D: calcitriol, paricalcitol — para suprimir PTH
  • Calcimiméticos: cinacalcete — em hiperparatireoidismo refratário
  • Paratireoidectomia se hiperparatireoidismo terciário refratário

Acidose metabólica

O rim doente não excreta H+ adequadamente nem regenera bicarbonato. Resultado: acidose metabólica com ânion-gap normal nos estágios iniciais e com ânion-gap alargado em estágios avançados (acúmulo de ácidos orgânicos).

Consequências: catabolismo muscular, perda óssea (osso tampona acidose), progressão acelerada da DRC.

Tratamento: bicarbonato de sódio VO para manter HCO₃⁻ sérico > 22 mEq/L.

Hipercalemia

O rim doente perde capacidade de excretar K+. Risco aumenta com uso de IECA/BRA (que reduzem aldosterona) e dieta rica em K+. Pode ser letal (arritmias).

Tratamento crônico:

  • Restrição dietética (banana, laranja, batata, feijão, tomate)
  • Diuréticos de alça (em geral)
  • Resinas (poliestireno sulfonato de cálcio/sódio) — para episódios agudos ou crônicos
  • Novos quelantes: patiromer, zircônio (mais bem tolerados que resinas)
  • Correção da acidose (bicarbonato puxa K+ para dentro da célula)

Outras manifestações

Hipoalbuminemia e desnutrição

Causada por anorexia urêmica, restrição proteica excessiva, perdas urinárias (proteinúria) e inflamação crônica. Marcador prognóstico independente. Avaliar com SGA, ingestão calórica/proteica, antropometria.

Disfunção plaquetária urêmica

Toxinas urêmicas (guanidinosuccínico, fenol) inibem agregação plaquetária. Plaquetas em número normal, mas disfuncionais. Risco de sangramento gastrointestinal e cirúrgico. Tratamento: diálise, DDAVP, transfusão de plaquetas, estrogênios em casos extremos.

Manifestações urêmicas tardias (G5)

Prurido urêmico, pericardite urêmica (atrito, derrame), encefalopatia urêmica (asterixis, sonolência, convulsões), neuropatia periférica (síndrome das pernas inquietas, parestesias).

Imunodepressão e infecções

DRC é estado de imunodeficiência adquirida. Maior risco de infecção, resposta vacinal subótima. Vacinar para HBV (com doses dobradas), pneumococo, gripe anual, COVID.

07 / Tratamento

Nefroproteção é tratamento.

O objetivo é retardar a progressão da DRC e tratar fatores que aceleram a perda de função. Quanto mais cedo se intervém, melhor. Os pilares são:

1. Controle pressórico

Alvo: PA < 130/80 mmHg em todo paciente com DRC, e < 120/80 em portadores de DRC + proteinúria significativa (conforme estudos como SPRINT).

IECA ou BRA são os fármacos de primeira linha porque reduzem a proteinúria e retardam a progressão. Não combinar IECA + BRA (sem benefício, mais hipercalemia/IRA).

2. Bloqueio do SRAA (IECA/BRA)

Enalapril
10–40 mg/dia VO
IECA clássico. Vigiar creatinina (aumento < 30% é aceitável) e K+ nas 1ªs 2 semanas.
Losartana
50–100 mg/dia VO
BRA. Indicado se IECA causa tosse. Sem efeito de bradicinina.
Ramipril
5–10 mg/dia VO
IECA com forte evidência em DRC e DCV.
Valsartana
80–320 mg/dia VO
BRA alternativo. Suspender se hipercalemia > 5,5 refratária.

3. iSGLT2 — a virada nefroprotetora

Os inibidores de SGLT2 — dapagliflozina, empagliflozina — mostraram benefício independente do diabetes. Reduzem hiperfiltração glomerular, proteinúria e progressão da DRC em estudos como DAPA-CKD e EMPA-KIDNEY.

  • Indicação: DRC com TFG ≥ 20 mL/min (até 25) e albuminúria ou diabetes
  • Cuidados: queda transitória da TFG no início (esperada, "dip" benéfico), risco de cetoacidose euglicêmica (alertar paciente — suspender em jejum prolongado/cirurgia), infecções genitais

4. Antagonistas do receptor mineralocorticoide (ARM)

Os ARMs bloqueiam o receptor de aldosterona (mineralocorticoide) no rim e no coração, reduzindo retenção de sódio/água, inflamação e fibrose renal — independente do bloqueio do SRAA já feito com IECA/BRA.

Finerenona (Kerendia®) — ARM não esteroidal

  • Indicação aprovada: DRC + DM2 com albuminúria (A2–A3), TFG ≥ 25 mL/min, K⁺ ≤ 5,0 mEq/L
  • Dose: 10 mg/dia → 20 mg/dia após 4 semanas se K⁺ < 4,8
  • FIDELIO-DKD: ↓ 18% desfecho renal composto (falência renal, queda ≥50% TFG, morte renal)
  • FIGARO-DKD: ↓ 13% eventos cardiovasculares maiores (MACE)
  • Vantagens vs. espiron.: seletivo (sem ação androgênica/progestacional) → sem ginecomastia, menos hipercalemia por dose/dose
  • Mecanismo extra: efeito anti-inflamatório e antifibrótico renal e miocárdico direto

Espironolactona / Eplerenona — ARMs esteroidais

  • Uso em DRC: off-label para redução adicional de proteinúria em DRC não-diabética
  • Espironolactona: 25–50 mg/dia — antagonista não seletivo; ação androgênica → ginecomastia, disfunção erétil em ♂
  • Eplerenona: mais seletiva que espironolactona, menos efeitos androgênicos
  • Risco principal: hipercalemia — especialmente em combinação com IECA/BRA (monitorar K⁺ em 1–2 semanas)
  • Contraindicação: TFG < 30 mL/min (acúmulo, risco de hipercalemia grave); K⁺ > 5,0 na entrada

Atenção hipercalemia: Antes de iniciar qualquer ARM, confirmar K⁺ ≤ 5,0 mEq/L. Revisar K⁺ em 4 semanas. Se K⁺ subir para 5,5–5,9: reduzir dose. Se K⁺ ≥ 6,0 ou sintomático: suspender. A tríade IECA + ARM + TFG baixa é o contexto de maior risco.

Finerenona
10–20 mg/dia VO
ARM não esteroidal. Aprovado ANVISA para DRC + DM2. K⁺ ≤ 5,0 e TFG ≥ 25 para iniciar. Sem ginecomastia.
Espironolactona
25–50 mg/dia VO
ARM esteroidal clássico. Reduz proteinúria. Cuidado com K⁺. Efeito androgênico (ginecomastia). Evitar TFG < 30.
Eplerenona
25–50 mg/dia VO
ARM esteroidal mais seletivo. Menos ginecomastia. Mesmo cuidado com K⁺ e TFG.

5. Controle glicêmico em DM

Alvo HbA1c geralmente 6,5–7,5%, individualizado. Em DRC avançada (G4–G5), evitar HbA1c < 6,5% (risco de hipoglicemia). Preferir agentes com benefício renal e CV: iSGLT2 e agonistas de GLP-1. Cuidado com metformina abaixo de TFG 30 (suspender).

6. Outras medidas

Estatina

Iniciar em todo paciente com DRC ≥ G3, independente do LDL — alta carga de risco CV. Não iniciar em pacientes já em diálise sem indicação CV específica.

Restrição proteica moderada

0,6–0,8 g/kg/dia em estágios avançados (G4–G5 pré-diálise) — reduz uremia e atrasa diálise. Evitar dieta muito restritiva (desnutrição).

Vacinação

HBV (com doses reforçadas — 40 µg em 4 doses), pneumococo (PCV13 + PPV23), gripe anual, COVID, herpes zóster ≥ 50 anos.

Evitar nefrotóxicos

AINEs, contraste iodado (hidratar profilaticamente), aminoglicosídeos, lítio. Ajustar doses de TODAS as drogas para a TFG.

Tabagismo + álcool

Cessação. Tabagismo é fator independente de progressão da DRC.

Encaminhamento precoce

Nefrologista a partir de TFG ~ 30 mL/min (G4) — ou antes se causa incerta, proteinúria nefrótica, declínio rápido, hipercalemia refratária. Acesso vascular planejado a partir de TFG ~ 20.

08 / Indicação de TRS

Quando substituir.

A terapia de substituição renal (TRS) é iniciada quando o rim falha em manter a homeostase apesar do tratamento clínico otimizado. Não é a TFG isolada que indica — é o quadro clínico.

Indicações absolutas — não pode esperar

  • Hipercalemia refratária (K+ > 6,5 ou alterações em ECG, apesar de medidas)
  • Acidose metabólica refratária (pH < 7,2 apesar de bicarbonato)
  • Hipervolemia / edema pulmonar refratário a diuréticos
  • Síndrome urêmica: pericardite, encefalopatia, neuropatia urêmica
  • Sangramento por uremia
  • Intoxicações exógenas dialisáveis (lítio, salicilato, metanol, etilenoglicol)

Indicações relativas — em paciente com TFG geralmente entre 5–10

  • Anorexia urêmica, perda de peso, fadiga incapacitante
  • Náuseas, vômitos persistentes
  • Prurido refratário
  • Declínio cognitivo
  • Comprometimento do estado nutricional

Paciente assintomático com TFG 6 mL/min pode aguardar com manejo otimizado. Paciente sintomático com TFG 12 mL/min pode precisar iniciar. Individualizar.

As três modalidades de TRS

Toque cada cartão para expandir.

Hemodiálise

3x/semana, ~4h, centro de diálise.

  • Princípio: sangue passa por dialisador externo — difusão + ultrafiltração contra dialisado
  • Acesso: FAV (preferida), prótese, cateter tunelizado, cateter temporário
  • Frequência: 3 sessões de 3,5–4h por semana
  • Vantagens: remoção rápida e eficaz; supervisão profissional
  • Desvantagens: dependência de centro, hipotensão intradialítica, picos de uremia, perda óssea, doença CV

Diálise peritoneal

Domiciliar, contínua, usando peritônio.

  • Princípio: infusão de solução de glicose na cavidade peritoneal → difusão de toxinas via peritônio
  • Acesso: cateter peritoneal (Tenckhoff)
  • Modalidades: CAPD (4 trocas manuais/dia) ou APD (cicladora noturna)
  • Vantagens: domiciliar, autonomia, mais "gentil" hemodinamicamente, preserva função renal residual mais tempo
  • Desvantagens: peritonite (principal complicação), falência da membrana após anos, hérnia, ganho de peso (carga de glicose)

Transplante renal

Tratamento definitivo (melhor opção).

  • Princípio: implante de rim de doador (vivo ou falecido) na fossa ilíaca
  • Vantagens: melhor sobrevida e qualidade de vida; restaura funções endócrinas do rim
  • Desvantagens: imunossupressão crônica (infecção, neoplasia), rejeição, escassez de doadores, complicações cirúrgicas
  • Indicação: melhor tratamento da DRC G5 para a maioria dos candidatos elegíveis

Comparador — modalidades de TRS

CaracterísticaHemodiáliseDiálise peritonealTransplante
Sobrevida em 5 anos~40-50%~40-50%~80-90%
Qualidade de vidaModeradaModerada-boaBoa-excelente
LocalCentro de diáliseDomicílioCirurgia + domicílio
Frequência3x/semanaDiária (contínua)Único evento + acompanhamento
AcessoFAV / cateterCateter peritonealNão precisa
Função residualCai rapidamentePreservada mais tempoSubstituída pelo enxerto
Principal complicaçãoInfecção do acesso, hipotensãoPeritoniteRejeição, imunossupressão
CustoAlto contínuoMédio contínuoAlto inicial, baixo manutenção
09 / Hemodiálise

Hemodiálise.

Modalidade mais comum no Brasil. O sangue do paciente é bombeado por um circuito extracorpóreo, passa pelo dialisador (membrana semipermeável), onde ocorrem dois processos físicos:

  • Difusão: solutos atravessam a membrana a favor de gradiente de concentração (sangue → dialisado), removendo ureia, creatinina, K+, fósforo
  • Ultrafiltração (convecção): pressão transmembrana puxa água do sangue → remoção de volume

Acessos vasculares — do pior ao melhor

1
Cateter duplo-lúmen de inserção rápidaVeia jugular interna direita preferencialmente, ou femoral. Para emergência ou aguardo de FAV. Alto risco de infecção e trombose.
2
Cateter tunelizado de longa permanênciaInserido em jugular interna direita, tunelizado sob a pele. Para uso de meses. Menor taxa de infecção que cateter agudo, mas ainda maior que FAV.
3
Prótese arteriovenosa (PTFE)Tubo de PTFE conectando artéria e veia, geralmente em antebraço. Útil quando não há vasos próprios. Menor durabilidade e mais complicações que FAV.
4
Fístula arteriovenosa (FAV) nativa — PADRÃO-OUROAnastomose direta entre artéria e veia (radiocefálica ou braquiocefálica). Requer 4–12 semanas de maturação antes do uso. Menor taxa de infecção e trombose. Maior durabilidade. "FAV first" sempre que possível.

Complicações da HD

Hipotensão intradialítica

Complicação mais comum. Causada por remoção rápida de volume e queda da resistência vascular. Conduta: parar UF, posição de Trendelenburg, salina 100–200 mL, reavaliar peso seco.

Cãibras musculares

Por desequilíbrio osmótico e remoção rápida. Reduzir taxa de UF, considerar quinino noturno.

Síndrome do desequilíbrio

Em primeiras sessões, com ureia muito alta. Cefaleia, náusea, convulsão. Prevenir com sessões curtas e gradativas.

Infecção do acesso

Especialmente em cateter — bacteremia por S. aureus é a mais grave. Hemocultura, ATB empírico (vancomicina + cobertura Gram-), considerar retirada do cateter.

Trombose do acesso

Especialmente em FAV/prótese. Perda de frêmito/sopro. Encaminhamento urgente para tentativa de desobstrução.

Outras

Prurido, hipoalbuminemia, doença CV, perda óssea acelerada, amiloidose por β2-microglobulina, anemia.

10 / Diálise peritoneal

Diálise peritoneal.

Usa a membrana peritoneal do próprio paciente como filtro. Uma solução de diálise (geralmente com glicose hipertônica como agente osmótico) é infundida na cavidade peritoneal através de um cateter tunelizado (Tenckhoff). Toxinas e água passam do sangue → peritônio → solução, que é drenada após algumas horas.

Modalidades

CAPD (Diálise peritoneal ambulatorial contínua)

4 trocas manuais por dia (geralmente 2L cada, com permanência de ~6h diurnas e 8h noturna). Paciente faz em casa, no trabalho, em viagem. Boa autonomia.

APD (Diálise peritoneal automatizada)

Uma cicladora conectada à noite faz várias trocas automáticas enquanto o paciente dorme. Dia livre. Maior conforto, mas dependência de equipamento.

Vantagens × Desvantagens

Vantagens

  • Modalidade domiciliar — autonomia
  • Mais gentil hemodinamicamente (sem hipotensão intradialítica)
  • Preserva função renal residual por mais tempo
  • Sem necessidade de acesso vascular
  • Dieta menos restritiva (controle contínuo de K+ e fósforo)
  • Preserva a vida social/profissional

Desvantagens

  • Peritonite — principal complicação (turvação do líquido, dor, febre)
  • Falência da membrana peritoneal após 5–10 anos
  • Hérnias abdominais (pressão crônica)
  • Ganho de peso (absorção de glicose do dialisado)
  • Hipertrigliceridemia
  • Requer disciplina, treinamento e ambiente adequado
  • Não é boa opção em pós-operatório abdominal extenso, hérnias incoercíveis, obesidade extrema

Peritonite — sempre lembrar

Líquido peritoneal turvo + dor abdominal ± febre = suspeitar. Análise do líquido peritoneal: leucocitos > 100/mm³ com > 50% PMN → diagnóstico de peritonite. Cobertura empírica intraperitoneal com vancomicina + cefalosporina de 3ª geração. Manter cateter se possível.

11 / Transplante

Transplante renal.

O melhor tratamento da DRC em estágio terminal para a maioria dos pacientes elegíveis. Restaura função renal, melhora sobrevida e qualidade de vida significativamente. O rim transplantado vai geralmente para a fossa ilíaca, com anastomoses aos vasos ilíacos e bexiga.

Doadores

Doador vivo (preferência)

Melhores resultados — maior sobrevida do enxerto (10–15 anos em média), melhor compatibilidade, cirurgia eletiva. Doador vivo relacionado (familiar) ou não relacionado (cônjuge, amigo, doação cruzada). Avaliação rigorosa do doador.

Doador falecido

Doador em morte encefálica (preferido) ou em parada cardíaca. Sobrevida do enxerto ~10 anos. Espera em fila do SUS pode ser longa. Compatibilidade HLA limitada pela disponibilidade.

Compatibilidade

  • ABO — compatibilidade sanguínea obrigatória (existem protocolos de incompatibilidade ABO com dessensibilização)
  • HLA — quanto mais matches, melhor (sobretudo HLA-DR). HLA totalmente compatível tem melhor sobrevida
  • Cross-match negativo — teste em que se procura anticorpos anti-doador no soro do receptor. Cross-match positivo = contraindicação absoluta (risco de rejeição hiperaguda)
  • PRA (anticorpos reativos a painel) — pacientes hiperimunizados têm maior dificuldade de encontrar doador

Imunossupressão

Indução (no momento do transplante)

  • Basiliximabe (anti-IL-2R) — em pacientes de baixo risco imunológico
  • Timoglobulina (anti-timocítica) — em alto risco imunológico (re-transplante, PRA alto)

Manutenção (terapia tripla padrão)

  • Inibidor de calcineurina: tacrolimus (preferido) ou ciclosporina
  • Antimetabólito: micofenolato mofetil (preferido) ou azatioprina
  • Corticoide: prednisona em dose baixa (algumas protocolos de retirada precoce)

Complicações

Rejeição hiperaguda

Minutos a horas. Catastrófica.

  • Causa: anticorpos pré-formados anti-doador (HLA, ABO)
  • Mecanismo: ativação imediata do complemento e trombose vascular
  • Apresentação: rim escurece no centro cirúrgico, anúria imediata
  • Tratamento: nefrectomia do enxerto — irreversível
  • Prevenção: cross-match obrigatório

Rejeição aguda

Dias a meses pós-transplante.

  • Causa: resposta imune celular (linfócito T) e/ou humoral (anticorpos novos)
  • Apresentação: ↑ creatinina, oligúria, febre, dor no enxerto
  • Diagnóstico: biópsia (classificação de Banff)
  • Tratamento: pulso de corticoide (rejeição celular); plasmaférese + imunoglobulina + rituximabe (rejeição humoral)
  • Prognóstico: geralmente reversível se tratada

Rejeição crônica

Meses a anos. Insidiosa.

  • Causa: resposta imune crônica + fatores não imunes (HAS, nefrotoxicidade, infecções)
  • Apresentação: declínio lento e progressivo da função, proteinúria, HAS
  • Histologia: fibrose intersticial, atrofia tubular, glomerulopatia do transplante
  • Tratamento: otimizar imunossupressão; pouco reversível
  • Desfecho: volta para diálise ou retransplante

Infecções oportunistas

Imunossupressão crônica.

  • CMV: mais comum, profilaxia com valganciclovir nos 3–6 primeiros meses
  • Vírus BK (poliomavírus): nefropatia BK no enxerto, monitorizar viremia
  • Pneumocystis jirovecii: profilaxia com SMX-TMP por 6–12 meses
  • EBV: risco de PTLD (linfoma pós-transplante)
  • HSV, VZV, candidíase: mais comuns
  • Tuberculose: rastreio pré-transplante

Neoplasias

Risco aumentado de 3–100x.

  • Câncer de pele (não-melanoma) — o mais comum; fotoproteção rigorosa
  • PTLD (post-transplant lymphoproliferative disorder) — associado a EBV
  • Sarcoma de Kaposi — HHV-8
  • Câncer de cérvix — HPV; rastreio anual
  • Risco geral de tumores sólidos aumentado pela imunossupressão

Nefrotoxicidade

Calcineurínicos.

  • Tacrolimus e ciclosporina: causam vasoconstrição da arteríola aferente
  • Aguda: ↑ creatinina com nível elevado da droga — ajustar dose
  • Crônica: fibrose intersticial irreversível ao longo dos anos
  • Manejo: monitorar níveis séricos, minimização da dose

Contraindicações ao transplante

  • Neoplasia ativa (exceto cutâneas não-melanoma localizadas)
  • Infecção ativa não controlada (HIV não controlado, TB ativa)
  • Doença cardiovascular grave sem possibilidade de tratamento
  • Baixa expectativa de vida (geralmente < 2 anos)
  • Não-adesão ao tratamento ou impossibilidade psicossocial de manter imunossupressão
  • Dependência ativa de álcool/drogas

A boa notícia

Sobrevida do paciente transplantado em 5 anos chega a ~90%, com qualidade de vida muito superior à diálise. O transplante preemptivo (antes mesmo de iniciar diálise) tem os melhores resultados — sempre avaliar candidatura à medida que o paciente se aproxima da TFG ~ 20 mL/min.

12 / Perguntas socráticas

Pense antes.

Pare, formule sua resposta mentalmente, e só depois revele. Cada pergunta cobre um mecanismo essencial.

?
Por que IECA reduz proteinúria E retarda a progressão da DRC?
Pense

O que acontece na arteríola eferente quando se bloqueia a angiotensina II?

Resposta

A angiotensina II provoca vasoconstrição preferencial da arteríola eferente — isso aumenta a pressão intraglomerular para sustentar a TFG, mas ao custo de hiperfiltração e proteinúria.

Ao bloquear o SRAA com IECA ou BRA:

  • Dilata a arteríola eferente → cai a pressão intraglomerular → cai a hiperfiltração
  • ↓ Proteinúria em ~30-50% em DRC proteinúrica
  • ↓ Fibrose intersticial (a proteinúria é em si um agente nefrotóxico — toxinas tubulares e ativação inflamatória)
  • ↓ Progressão para diálise (estudos clássicos: RENAAL, IDNT em diabéticos; AASK em hipertensos)

Atenção: nas 1ªs 2 semanas, espera-se aumento de ~20-30% da creatinina (perda da hiperfiltração). Aumento > 30% ou hipercalemia significativa exige reavaliação.

?
Como funcionam os iSGLT2 na proteção renal — independente do DM?
Pense

SGLT2 está no túbulo proximal. Se você bloqueia a reabsorção de Na+ e glicose ali, o que chega à mácula densa?

Resposta

Os inibidores de SGLT2 bloqueiam a reabsorção de glicose e sódio no túbulo contornado proximal. Isso aumenta a entrega de Na+ à mácula densa, no aparelho justaglomerular.

  • A mácula densa percebe "muito Na+ chegando" e ativa o feedback tubuloglomerular
  • Resultado: vasoconstrição da arteríola aferente
  • ↓ Pressão intraglomerular → ↓ Hiperfiltração
  • ↓ Proteinúria + ↓ progressão da DRC

Por isso o efeito ocorre mesmo em não-diabéticos — o benefício é hemodinâmico, não glicêmico. Há também redução da pré-carga (efeito natriurético leve, ajuda em IC) e benefício cardiovascular.

"Dip" inicial da TFG: queda de 3–5 mL/min nas primeiras semanas é esperada e benéfica — reflete o restabelecimento da pressão glomerular fisiológica.

Estudos: DAPA-CKD (dapagliflozina) e EMPA-KIDNEY (empagliflozina) mostraram redução de progressão em DRC com ou sem diabetes.

?
Quando devo indicar acesso vascular para HD?
Pense

Quanto tempo demora para uma FAV "amadurecer" e ficar utilizável? E quanto demora para você precisar dela quando o paciente está em G4–G5?

Resposta

A FAV nativa precisa de 4 a 12 semanas de maturação para ser puncionável (idealmente 3 meses). A prótese pode ser usada em ~2 semanas, mas tem mais complicações.

Por isso, o planejamento ideal é:

  • Encaminhamento ao nefrologista quando TFG ≤ 30 (G4)
  • Discussão de modalidade de TRS com paciente e família a partir de G4
  • Confecção da FAV quando TFG ~ 15–20 mL/min ou em < 6 meses da expectativa de diálise
  • Preservar veias do membro não dominante: não puncionar antebraço para coletas/acessos, alertar enfermagem

Cateter de longa permanência é "Plano B" — mas paciente que inicia diálise com cateter tem maior mortalidade que aquele que inicia com FAV. Iniciar diálise por cateter é considerado um marcador de cuidado tardio.

?
Por que FAV é melhor que cateter?
Resposta

A FAV é melhor em quase todos os desfechos:

  • Menor taxa de infecção (cateter tem ~ 1–3 infecções/1000 dias; FAV ~ 0,1)
  • Menor mortalidade — bacteremia por cateter é uma das principais causas evitáveis de morte em HD
  • Maior durabilidade — uma FAV bem feita dura 5–10+ anos; cateter raramente passa de 2 anos
  • Melhor fluxo sanguíneo — diálise mais eficiente
  • Sem necessidade de troca/manipulação central

O preço é o tempo de maturação e a necessidade de planejamento antecipado. Daí o lema "FAV first".

?
Diferença entre rejeição hiperaguda, aguda e crônica?
Resposta

Três entidades com timing, mecanismo e prognóstico distintos:

  • Hiperaguda (minutos a horas):
    • Anticorpos pré-formados (ABO, anti-HLA) → ativação do complemento e trombose
    • Apresentação: rim necrosa ainda no centro cirúrgico (escurece, anúria imediata)
    • Tratamento: nefrectomia do enxerto. Irreversível.
    • Hoje, rara — cross-match obrigatório a previne.
  • Aguda (dias a 6 meses, principalmente nos 1ºs 3 meses):
    • Celular (linfócito T contra antígenos do doador) ou humoral (anticorpos novos)
    • Apresentação: ↑ creatinina, oligúria, febre, dor no enxerto
    • Diagnóstico: biópsia do enxerto (classificação de Banff)
    • Tratamento: pulso de corticoide (celular); plasmaférese + imunoglobulina ± rituximabe (humoral)
    • Geralmente reversível se tratada precoce.
  • Crônica (meses a anos):
    • Imune + não-imune (HAS, nefrotoxicidade, infecções subclínicas)
    • Declínio lento da função, proteinúria progressiva
    • Histologia: fibrose intersticial, atrofia tubular, glomerulopatia do transplante
    • Pouco reversível; otimizar imunossupressão, controlar PA, tratar comorbidades
    • Desfecho final: volta à diálise ou retransplante.
?
Por que o paciente com DRC tem anemia?
Pense

Onde é produzida a eritropoietina? O que acontece quando esse tecido é destruído pela fibrose crônica?

Resposta

A eritropoietina (EPO) é produzida pelas células peritubulares do córtex renal, em resposta à hipoxia. Na DRC, conforme o parênquima renal é destruído por fibrose, essas células diminuem e a produção de EPO cai.

  • Mecanismo principal: ↓ EPO renal → ↓ estímulo medular para eritropoiese
  • Mecanismos coadjuvantes:
    • ↓ Vida útil das hemácias (toxinas urêmicas)
    • Deficiência de ferro (perda gastrointestinal, hemodiálise, inflamação)
    • Inflamação crônica → hepcidina alta → "ferropenia funcional"
    • Deficiência de folato e B12 ocasional

Características da anemia: normocítica, normocrômica, hipoproliferativa (reticulócitos baixos).

Tratamento: primeiro repor ferro IV (mais eficaz que oral em DRC) — manter ferritina entre 100–500 e saturação > 20–30%. Depois, se Hb < 10, iniciar EPO recombinante. Alvo: Hb 10–11,5 g/dL. Não normalizar (Hb > 13 aumenta eventos CV — estudos CHOIR, TREAT).

?
Como funciona o DRC-DMO (distúrbio mineral-ósseo)?
Pense

Comece pelo fósforo. O rim doente não consegue eliminá-lo. O que vem em sequência?

Resposta

A cascata começa simples e fica complexa:

  1. Hiperfosfatemia — rim doente retém fosfato
  2. ↑ FGF-23 — osso responde produzindo este "hormônio fosfatúrico"; ele faria o rim excretar mais fosfato, mas também inibe a 1-α-hidroxilase renal
  3. ↓ Calcitriol (1,25-OH₂-D) — a forma ativa da vitamina D cai
  4. ↓ Absorção intestinal de Ca²⁺ → hipocalcemia
  5. Hiperparatireoidismo secundário — paratireoides percebem hipocalcemia + hiperfosfatemia + baixo calcitriol e secretam PTH elevado
  6. PTH alto crônico:
    • Reabsorve osso → osteíte fibrosa cística (lesão clássica)
    • Libera Ca²⁺ + fósforo, mas em ambiente hiperfosfatêmico o cálcio se deposita em tecidos moles
    • Calcificação vascular — média e íntima → doença CV acelerada
  7. Fase final: hiperparatireoidismo terciário — paratireoides ficam autônomas (cálcio alto, PTH alto). Pode exigir paratireoidectomia.

Tratamento integrado:

  • Controle do fósforo: dieta + quelantes (carbonato de cálcio, sevelamer, lantânio)
  • Suplementação de calcitriol/paricalcitol
  • Calcimiméticos (cinacalcete) — em PTH muito alto refratário
  • Paratireoidectomia em terciário grave
13 / Quiz

Teste seu raciocínio.

Escolha a alternativa correta — sem espiar. Cada questão tem feedback didático completo.

Q1. Mulher de 58 anos, diabética há 15 anos, com TFG 50 mL/min/1,73m² e albuminúria 250 mg/g. Qual é o estágio KDIGO?
Q2. Paciente com DRC G3b, PA 145/90, albuminúria 600 mg/g, diabético tipo 2. Qual conduta tem maior evidência de retardar a progressão renal?
Q3. Paciente em hemodiálise há 2 anos. Apresenta Hb 8,5 g/dL, ferritina 80, saturação de transferrina 15%. Qual a primeira conduta?
Q4. Paciente em diálise peritoneal há 1 ano traz líquido peritoneal turvo, com dor abdominal e febre. Qual a primeira conduta?
Q5. Paciente transplantado renal há 5 dias apresenta ↑ creatinina, oligúria e dor no enxerto. Qual a melhor conduta investigativa?
Q6. Qual é o principal mecanismo do distúrbio mineral-ósseo (DRC-DMO)?
Q7. Paciente DRC G4 com TFG 22 mL/min, assintomático. Qual deve ser o planejamento PRIORITÁRIO?
Q8. Paciente transplantado há 2 anos, em uso de tacrolimus + micofenolato + prednisona. Qual infecção oportunista tem profilaxia rotineira?
14 / Resumo

Take-home messages.

01

3 meses + dano = DRC

Cronicidade (≥ 3 meses) é o critério-chave. Distingue de IRA reversível. TFG < 60 OU marcadores de dano persistentes.

02

G + A — sempre os dois

Classifique como "G3a A2" — TFG e albuminúria juntas dão o prognóstico real. Albuminúria isolada já indica DRC mesmo com TFG normal.

03

DM e HAS lideram

Juntas, ~65% da DRC mundial. Procure ativamente em todo diabético e hipertenso: TFG + albuminúria pelo menos anuais.

04

IECA / BRA são pilar

Reduzem proteinúria e retardam progressão. Aumento de creatinina até 30% é aceitável; hipercalemia requer reavaliação.

05

iSGLT2 mudou o jogo

Benefício renal mesmo sem DM (DAPA-CKD, EMPA-KIDNEY). Indicar em TFG ≥ 20 com albuminúria. Aceitar o "dip" inicial.

06

DCV mata mais que uremia

Maioria dos pacientes com DRC morre de evento CV. Estatina, controle de PA, parar tabagismo são tão importantes quanto nefroproteção.

07

Anemia: ferro IV primeiro

Saturação > 20–30%, ferritina > 100. Só depois EPO. Alvo Hb 10–11,5 — não normalizar.

08

DRC-DMO começa no fósforo

Cascata: fósforo retido → FGF-23 → ↓ calcitriol → hipocalcemia → ↑ PTH → osteíte + calcificação vascular.

09

Planeje a TRS cedo

Nefrologista em G4. Modalidade discutida em G4. FAV em TFG ~ 20. Cateter é "Plano B" — não plano A.

10

Indicação de TRS é clínica

Hipercalemia/acidose/volume refratários, síndrome urêmica. TFG isolada não indica — é o conjunto.

11

FAV first, sempre

Maior durabilidade, menor infecção e mortalidade que cateter. Maturação 4–12 semanas — planeje cedo.

12

Transplante é o melhor

Sobrevida ~90% em 5 anos, qualidade de vida superior. Avalie candidatura preemptivamente. Doador vivo > falecido.

15 / Framework

Pense em 5 passos.

Toda vez que se deparar com um paciente com possível DRC — em prova ou em plantão — passe por estes 5 nós de raciocínio. Toque em cada cartão para aprofundar.

1
Passo 1 · Cronicidade
É crônico ou agudo?
A alteração da TFG ou os marcadores de dano persistem por ≥ 3 meses?
NÃO
Pode ser IRA. Investigue causas reversíveis (pré-renal, renal, pós-renal). Repita exames em 3 meses para definir cronicidade.
SIM
DRC confirmada. Avance para classificação G+A e busca etiológica.
Toque para aprofundarRecolher
Por que confirmar cronicidade primeiro?

Porque o paradigma do tratamento muda completamente entre IRA e DRC. Em IRA, focamos em reverter a causa, suportar o paciente e aguardar recuperação. Em DRC, é nefroproteção contínua, manejo de complicações sistêmicas e planejamento de longo prazo.

Pistas que ajudam a definir cronicidade
  • Comparativo com exames antigos (creatinina prévia há > 3 meses já alterada)
  • Imagem: rins reduzidos simetricamente (< 9 cm) — exceto DM, amiloidose, mieloma, rim policístico onde podem estar normais ou aumentados
  • Anemia normo/normo, hiperfosfatemia, hipocalcemia, ↑ PTH — complicações que se desenvolvem em meses/anos
  • Albuminúria persistente em ≥ 2 amostras com intervalo > 3 meses
2
Passo 2 · Estágio
Qual o G + A?
Pelo TFG (G1–G5) E pela albuminúria (A1–A3), em que zona da matriz KDIGO o paciente cai?
G1–G2 / A1
Baixo risco. Vigilância anual, controle de fatores de risco.
G3+ ou A2+
Risco moderado a muito alto. Nefroproteção formal, seguimento mais frequente, encaminhamento à nefrologia conforme estágio.
Toque para aprofundarRecolher
Frequência de seguimento conforme estágio
  • G1–G2 A1: anual (basta vigilância)
  • G3a A1 ou G1–G2 A2: a cada 6 meses
  • G3b ou A3: a cada 3–4 meses
  • G4: a cada 2–3 meses + nefrologista
  • G5: mensal ou conforme programação de TRS
Albuminúria — como medir
  • Relação albumina/creatinina em amostra isolada (preferida — barato, prático)
  • Confirmar persistência em 2 de 3 amostras com intervalo > 3 meses
  • Em diabéticos: rastreio anual após 5 anos de DM tipo 1 ou ao diagnóstico de DM 2
3
Passo 3 · Causa
Qual a etiologia?
É diabética? Hipertensiva? Glomerular? Estrutural? Há algo específico a tratar?
CAUSA CLARA
DM, HAS, ou alteração estrutural identificada. Tratamento direcionado à etiologia + medidas nefroprotetoras gerais.
SUSPEITA GLOMERULAR
Sedimento ativo, proteinúria nefrótica, queda rápida. Encaminhar urgente para biópsia renal — pode haver doença tratável (vasculite, GN, lúpus).
Toque para aprofundarRecolher
Quando investigar mais a fundo?
  • Quadro atípico (sem DM/HAS de longa data)
  • Proteinúria nefrótica (≥ 3,5 g/dia)
  • Hematúria glomerular (cilindros hemáticos, dismorfismo)
  • Queda rápida da TFG (> 5 mL/min/ano)
  • Sinais sistêmicos: rash, púrpura, artrite, hemoptise, febre
  • Sorologias autoimunes alteradas (ANA, ANCA, anti-MBG, complementos)
Investigação básica em todo DRC
  • EAS + sedimento urinário
  • Relação albumina/creatinina
  • US de rins e vias urinárias
  • Glicemia/HbA1c, perfil lipídico
  • Hemograma, eletrólitos, cálcio, fósforo, PTH, vitamina D
  • Sorologias: HBV, HCV, HIV (também necessárias para diálise/transplante)
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Passo 4 · Nefroproteção
Tratar fatores progressivos.
PA, glicemia, proteinúria, dislipidemia, tabagismo — todos otimizados?
PILARES
IECA/BRA + iSGLT2 + estatina + PA < 130/80 + parar tabaco. Faz mais pela função renal a longo prazo do que qualquer outra coisa.
EVITAR
AINEs, contrastes, aminoglicosídeos, lítio. E ajustar dose de todas as drogas para a TFG.
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Pilares com maior evidência (IA)
  • Controle pressórico com alvo < 130/80 (SPRINT estende a < 120 em alto risco CV)
  • Bloqueio do SRAA (IECA ou BRA) — pilar em DRC proteinúrica
  • iSGLT2 — dapa/empa em DRC com TFG ≥ 20 e albuminúria
  • Controle glicêmico em diabético (HbA1c 6,5–7,5%)
  • Estatina em todo paciente com DRC ≥ G3
Não esqueça das medidas "não-farmacológicas"
  • Restrição moderada de proteína (0,6–0,8 g/kg/dia em G4–G5)
  • Restrição de sódio (< 2 g/dia)
  • Vacinação (HBV doses dobradas, pneumococo, gripe anual, COVID)
  • Cessação do tabagismo e álcool
  • Atividade física conforme tolerada
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Passo 5 · Complicações + TRS
Manejar e preparar.
Há complicações ativas? Já está na hora de planejar a substituição renal?
MANEJAR JÁ
Anemia, DRC-DMO, acidose, hipercalemia, DCV. Cada complicação tem manejo específico — não esperar virar emergência.
PREPARAR TRS
G4: nefrologista + escolha de modalidade. TFG ~ 20: FAV planejada / cateter peritoneal / avaliação de transplante preemptivo.
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Indicações absolutas de início de TRS
  • Hipercalemia refratária
  • Acidose metabólica grave refratária
  • Hipervolemia refratária / edema pulmonar
  • Síndrome urêmica (pericardite, encefalopatia, neuropatia)
  • Sangramento por uremia
  • Sintomas refratários: anorexia, vômito, prurido, perda de peso
Escolha da modalidade — fatores
  • Hemodiálise: preferência do paciente, sem suporte domiciliar, função residual mínima
  • Diálise peritoneal: domicílio com condições, autonomia, preservar função residual
  • Transplante: candidato elegível — avaliar precocemente, preferência por doador vivo, preemptivo se possível
Sempre individualizar

A "melhor" modalidade é a que melhor se adapta ao perfil clínico, social e à preferência do paciente. Discussão multidisciplinar com nefrologista, enfermeiro, assistente social, nutricionista e psicólogo.

Manejo estruturado da DRC

Cinco passos, da definição à preparação para TRS. Se você passa por todos eles antes de decidir, dificilmente erra a conduta — mesmo nos casos atípicos.