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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Sódio,
ADH e água.

A natremia não é um marcador do sódio corporal — é um marcador da água livre. Quem manda nela é a osmolaridade, o ADH e a sede. Entender esse trio é entender quase toda hipo/hipernatremia da clínica.

Na⁺ normal
135–145
Posm
275–295
Sede · limiar
~295
ADH · limiar
~280
01 / Fisiologia

Água, sódio e osmolaridade.

O sódio é o cátion mais abundante do líquido extracelular (LEC) e é o principal determinante da osmolaridade plasmática. Mas atenção: o que o corpo regula não é o sódio — é a tonicidade (água livre). A natremia depende da relação entre Na corporal total e água corporal total.

★ Conceito-chave

Hiponatremia ≠ falta de sódio. Quase sempre é excesso de água livre.
Hipernatremia ≠ excesso de sódio. Quase sempre é déficit de água livre.

Compartimentos hídricos

A água corporal total (ACT) corresponde a ~60% do peso no homem e ~50% na mulher e idoso. Divide-se em:

1
Líquido intracelular (LIC) — ⅔ da ACT (~40% do peso)

Cátion principal: K⁺. Compartimento mais protegido — a água entra/sai conforme o gradiente osmótico.

2
Líquido extracelular (LEC) — ⅓ da ACT (~20% do peso)

Cátion principal: Na⁺. Subdivide-se em intersticial (~¾ do LEC) e intravascular (~¼, ou ~5% do peso = plasma).

3
Trocas entre compartimentos

A membrana celular é livremente permeável à água, mas restringe íons. Logo, alterações da osmolaridade do LEC deslocam água do LIC ⇄ LEC — princípio que explica edema cerebral em hiponatremia e desidratação celular em hipernatremia.

Osmolaridade plasmática — a fórmula

A osmolaridade efetiva (tonicidade) é estimada pela fórmula clássica. Decore-a:

Posm = 2 × [Na⁺] + glicose / 18 + ureia / 6

Glicose e ureia em mg/dL. Resultado em mOsm/kg. Valor normal: 275–295 mOsm/kg.

Por que multiplicar Na por 2?

Cada Na⁺ "arrasta" um ânion (Cl⁻ ou HCO₃⁻) para manter a neutralidade elétrica. Por isso, 1 mmol de NaCl gera ~2 mOsm de pressão osmótica.

Osmolaridade efetiva (tonicidade) — atalho

A ureia atravessa livremente as membranas, então não gera gradiente osmótico — é considerada um osmólito inefetivo. Em uremia, a ureia eleva a Posm medida mas não causa desvio de água.

Tonicidade2 × [Na⁺] + glicose / 18

Hiato osmolar (osmolar gap)

Diferença entre a Posm medida (osmômetro) e a calculada. Normal: < 10 mOsm/kg.

Hiato osmolar elevado → "osmólitos invisíveis"

  • Álcoois tóxicos: metanol, etilenoglicol, etanol, isopropanol
  • Manitol, glicina (RTU de próstata)
  • Pseudo-hiponatremia por hiperlipidemia/hiperproteinemia (osmolaridade normal com Na medido baixo pela técnica de chama)

Reabsorção de sódio ao longo do néfron

Quase todo o Na filtrado é reabsorvido. A regulação fina cabe ao néfron distal:

Segmento% Na reabsorvidoTransportadorPermeabilidade à água
TCP (proximal)65–70%NHE3 / Na⁺-glicose / Na⁺-aa / Na⁺/K⁺-ATPaseLivre — reabsorção isosmótica
Alça de Henle (ramo ascendente espesso)20–25%NKCC2 (Na⁺/K⁺/2Cl⁻)Impermeável — "segmento diluidor"
TCD (distal inicial)~5%NCC (Na⁺/Cl⁻) — alvo do tiazídicoImpermeável
Túbulo coletor cortical~3%ENaC (canal epitelial) — sensível à aldosteronaVariável (ADH-dependente)
Ducto coletor medular<1%ADH-dependente via AQP2
02 / Sede e ADH

Os dois guardiões da água.

A regulação da osmolaridade plasmática se apoia em dois mecanismos integrados: o centro da sede (controla a entrada de água) e o ADH (controla a saída de água pelos rins). Funcionam em paralelo, com limiares próximos.

O centro da sede

Localizado no hipotálamo anterior (junto aos osmorreceptores). Quando a Posm sobe 2–3% acima do basal (~295 mOsm/kg), gera o desejo consciente de beber água. É a primeira linha de defesa contra hipernatremia.

Estímulos:

  • Hipertonicidade — o mais potente
  • Hipovolemia (queda de PA / volume)
  • Angiotensina II circulante
  • Boca seca, sinais orofaríngeos

Por que idosos são vulneráveis?redução fisiológica da sensibilidade do osmorreceptor com a idade. Idoso desidratado pode não pedir água — daí o risco de hipernatremia em institucionalizados, demenciados e acamados.

ADH (vasopressina, AVP)

Peptídeo de 9 aminoácidos produzido nos núcleos supraóptico e paraventricular do hipotálamo e armazenado na neuro-hipófise. Tem dois grupos de receptores:

V1
Receptor V1 — músculo liso vascular

Vasoconstrição arteriolar (renal e sistêmica). Importante em hipovolemia grave. Ação acoplada à proteína Gq → IP3/DAG → Ca²⁺.

V2
Receptor V2 — célula principal do ducto coletor

Acoplado à proteína Gs → ↑ AMPc → fosforilação e inserção apical das aquaporinas-2 (AQP2) → célula fica permeável à água → reabsorção de água livre (a favor do gradiente medular). Também ↑ reabsorção de ureia no ducto coletor medular interno (via UT-A1/A3).

Estímulos para liberação de ADH

EstímuloReceptorSensibilidade
↑ Osmolaridade plasmáticaOsmorreceptores do hipotálamoDetecta variações de 1% — limiar ~280 mOsm/kg
↓ Volemia / PABarorreceptores (carótida, arco, AE)Precisa de queda de ≥ 10% da PA
Náusea, dor, estresseVias aferentes não-osmóticasPotente — explica SIADH pós-operatória
HipoglicemiaEstímulo direto
FármacosISRS, carbamazepina, ciclofosfamida, opioides, nicotina

Conflito hipovolemia × hiponatremia

Quando a volemia cai >10%, o estímulo barorreceptor vence o osmorreceptor: o corpo libera ADH mesmo com osmolaridade baixa, na tentativa de salvar volume. É por isso que a hipovolemia gera hiponatremia (preservar volume é prioridade sobre preservar tonicidade).

Cascata da concentração urinária

1
Osmorreceptor detecta ↑Posm

Mesmo > 1% acima do limiar.

2
Neuro-hipófise libera ADH

Pulsos a partir dos núcleos SO e PV.

3
V2 do ducto coletor → AQP2 apical

Em ~30–60 min, aquaporinas migram do citoplasma para a membrana luminal.

4
Água segue o gradiente medular

Gradiente construído pela alça de Henle + ureia (efeito multiplicador por contracorrente). Vasos retos preservam-no.

5
Urina concentrada, Posm cai

Posm urinária pode chegar a 1200 mOsm/kg. Feedback negativo desliga o ADH.

ANP — o contrapeso natriurético

O peptídeo natriurético atrial é liberado pelos átrios em resposta a distensão (sobrecarga de volume). Ele:

  • Aumenta a filtração glomerular (vasodilata arteríola aferente)
  • Inibe a reabsorção de Na no ducto coletor
  • Inibe o sistema renina-angiotensina-aldosterona
  • Inibe a liberação de ADH

Resultado: natriurese e diurese — protegendo contra hipervolemia. Existem também o BNP (ventrículos, marcador de IC) e o CNP (endotelial).

03 / Ureia

Ureia: muito mais que um marcador.

A ureia é o produto final do catabolismo proteico. É gerada no fígado pelo ciclo da ornitina (ureogênese), a partir do amônio (NH₄⁺) produzido na desaminação dos aminoácidos. Cada molécula de ureia "captura" 2 nitrogênios — é a estratégia mamífera de eliminar nitrogênio em forma hidrossolúvel e não-tóxica.

Função fisiológica — gradiente medular

Ureia não é só "lixo" — ela é reciclada no ducto coletor medular interno para construir o gradiente que permite concentrar a urina.

  • No TCP: ~50% da ureia filtrada é reabsorvida (paracelular, junto à água)
  • Na alça de Henle (ramo fino descendente): ureia é secretada de volta no túbulo (do interstício medular)
  • No ducto coletor medular interno: sob ação do ADH, transportadores UT-A1/A3 reabsorvem ureia para o interstício medular
  • Resultado: alta concentração de ureia na medula → contribui com ~50% do gradiente osmótico medular junto com NaCl

Sem ureia, sem urina concentrada. Por isso desnutridos graves (baixa ingesta proteica) e crianças pequenas têm limitação relativa para concentrar a urina.

Efeito multiplicador por contracorrente

Mecanismo da alça de Henle que cria o gradiente cortico-medular:

A
Ramo descendente — permeável à água, não ao soluto

Filtrado entra na alça e perde água para o interstício hipertônico → concentra-se.

B
Ramo ascendente espesso — impermeável à água, reabsorve soluto

Bomba NKCC2 (alvo dos diuréticos de alça) extrai Na⁺/K⁺/2Cl⁻ → interstício fica mais hipertônico, filtrado fica diluído (até ~100 mOsm/kg, o "segmento diluidor").

C
Efeito trocador — vasos retos

Capilares em U junto à alça permitem trocas passivas que preservam o gradiente sem "lavar" a medula.

Ureia como marcador clínico — armadilhas

A ureia plasmática (BUN no mundo anglo-saxão; valor normal ~20–40 mg/dL) é um marcador imperfeito de função renal — depende não só da filtração, mas de geração e reabsorção tubular.

Eleva a ureia sem alterar creatininaReduz a ureia
↑ Catabolismo proteico (sepse, queimadura, trauma)Desnutrição / dieta hipoproteica
Dieta hiperproteicaInsuficiência hepática (↓ ureogênese)
Hemorragia digestiva alta (proteína no TGI)Polidipsia primária / sobrecarga hídrica
Corticoides (catabolismo)Gestação
Hipovolemia (↑ reabsorção tubular passiva)SIADH (diluição)

Relação ureia/creatinina (BUN/Cr) — raciocínio por trás do número

Por que ureia e creatinina se comportam diferente na pré-renal

Creatinina: filtrada livremente pelo glomérulo e não reabsorvida pelo túbulo. Sua concentração no plasma reflete quase que exclusivamente a TFG — se a TFG cai, a Cr sobe linearmente. Não é afetada pela velocidade do fluxo tubular.

Ureia: filtrada livremente, mas reabsorvida passivamente junto à água no túbulo proximal. Quando o fluxo tubular está lento (desidratação, baixo débito cardíaco, hipovolemia), mais água — e portanto mais ureia — é reabsorvida. A ureia sobe além do que a queda de TFG justificaria.

Pré-renal: fluxo tubular lento → ureia reabsorvida a mais → BUN sobe desproporcional à Cr → razão > 20
>20
Razão > 20:1 — ureia sobe desproporcional à Cr

Pré-renal: hipovolemia (vômito, diarreia, queimaduras, hemorragia), IC descompensada, cirrose com ascite — qualquer estado de baixo fluxo renal. O túbulo reabsorve mais ureia passivamente → BUN sobe além do que a queda de TFG justifica.

Mas atenção — razão > 20 sem pré-renal: o que importa é a produção de ureia, não só a reabsorção. Se a produção está aumentada com rim normal, a razão também sobe:

  • Hemorragia digestiva alta — sangue no intestino é digerido como proteína → fígado fabrica ureia → BUN dispara com Cr estável. Clássico: paciente com HDA tem BUN/Cr > 30–40 sem estar desidratado
  • Hipercatabolismo — sepse grave, grandes queimaduras, corticoterapia em dose alta, pós-cirurgia → proteólise muscular → mais amônia → mais ureia
  • Dieta hiperproteica — mais substrato para o ciclo da ureia

10–20
Razão 10–20:1 — padrão normal, lesão intrínseca

O glomérulo está lesado (NTA, GN, NIA) — a TFG cai e ambas sobem proporcionalmente. Não há hiperreabsorção de ureia porque o fluxo tubular é normal (ou até aumentado em algumas situações). A razão se mantém na faixa fisiológica apesar dos valores absolutos elevados.

Macete: se a Cr dobrou e a ureia também dobrou → razão normal → problema está no néfron, não no volume.

<10
Razão < 10:1 — creatinina sobe desproporcional à ureia (ou ureia cai)

Duas situações bem distintas:

  • Rabdomiólise — músculo necrótico libera creatinina (e mioglobina) diretamente na corrente sanguínea em massa, independente da TFG. Cr dispara muito além do que a ureia sobe → razão cai. Urina marrom + CK >5.000 confirmam.
  • Insuficiência hepática grave — fígado não converte amônia em ureia (ciclo da ornitina falha) → ureia cai ou não sobe, mesmo com função renal comprometida. Cirrótico com ureia de 10 e Cr de 2,0 tem razão de 5 — não é "bom sinal", é fígado que não produz ureia.
  • Desnutrição grave / dieta hipoproteica — pouca proteína → pouca amônia → ureia baixa com Cr relativamente normal.
Resumo — o que a razão diz e o que não diz
Razão Pensar primeiro em Mas excluir
> 20 Pré-renal (hipovolemia, IC) HDA, hipercatabolismo, corticoide
10–20 Lesão renal intrínseca (NTA, GN)
< 10 Rabdomiólise, hepatopatia Desnutrição, dieta sem proteína

Síndrome urêmica — quando o rim falha além dos números

O conceito fundamental — ureia não é o vilão

É um erro comum achar que os sintomas urêmicos são causados pela ureia alta. A ureia é relativamente não-tóxica — tanto que se usa ureia oral como osmótico em hiponatremia. O que causa a síndrome urêmica é o acúmulo de dezenas de outras toxinas que o rim doente não consegue mais excretar, e para as quais não temos dosagem rotineira.

Principais toxinas urêmicas
  • p-cresol sulfato e indoxil sulfato — derivados do metabolismo intestinal de aminoácidos aromáticos; ligados à albumina, mal dialisados; fibrogênicos e endotelialmente tóxicos
  • PTH elevado — age como toxina urêmica: causa disfunção imune, osteodistrofia, calcificação vascular
  • β₂-microglobulina — deposita como amiloide em articulações em dialisados de longa data
  • Guanidinosuccinato — inibe agregação plaquetária (explica disfunção hemostática)
Por que a ureia é só o marcador

Porque ela é produzida em quantidade proporcional ao catabolismo proteico e excretada pelo rim — assim como as verdadeiras toxinas. Quando a ureia sobe muito, as toxinas também sobem. Mas a correlação não é perfeita: paciente desnutrido com DRC avançada pode ter ureia "normal" (pouca produção) e ainda ter síndrome urêmica pelas outras toxinas acumuladas.

A indicação de diálise é clínica — síndrome urêmica, não número de ureia.

🧠
Neuro
Encefalopatia urêmica — toxinas urêmicas (guanidinas, fenóis) inibem Na⁺/K⁺-ATPase neuronal e alteram neurotransmissão GABAérgica. Progressão: letargia → confusão → asterixe (flapping tremor ao estender os pulsos) → estupor → convulsões → coma. Asterixe é sinal clínico clássico — peça ao paciente para estender os braços e observe o tremor de asa de pássaro. Também presente em encefalopatia hepática e hipercápnica.
🩸
Hemato
Disfunção plaquetária urêmica — guanidinosuccinato e outros solutos urêmicos inibem a agregação plaquetária e a adesão ao subendotélio (↓ fator de von Willebrand funcional, ↓ glicoproteína Ib). Plaquetas em número normal, mas disfuncionais → sangramento com tempo de sangria prolongado. Risco de HDA, sangramento cirúrgico, hematoma subdural espontâneo. Tratamento agudo: DDAVP (libera vWF dos endoteliais), diálise, crioprecipitado, estrogênio conjugado.
Anemia — ↓ EPO renal (independente da disfunção plaquetária).
❤️
Pericárdio
Pericardite urêmica — inflamação do pericárdio por toxinas urêmicas (mecanismo não completamente elucidado, mas depósito de fibrina e mediadores inflamatórios). Apresentação: dor torácica pleurítica + atrito pericárdico à ausculta + alterações no ECG (supradesnivelamento difuso de ST em sela). Risco de tamponamento. É uma das indicações absolutas de diálise de urgência — não responde a AINEs como a pericardite comum.
🫃
GI
Anorexia e náusea — ureia salivar é convertida a amônia pela flora oral → hálito urêmico (cheiro de amônia / "urina"). A amônia irrita a mucosa gástrica diretamente. Também há gastroparesia urêmica (disfunção autonômica). Anorexia progressiva é um dos primeiros sintomas — o paciente para de comer e piora a desnutrição. Náusea matinal persistente sem outra causa em paciente com DRC = sinal de que a TFG está caindo para zona de diálise.
🧴
Cutâneo
Prurido urêmico — mecanismo multifatorial: deposição de cristais de ureia na pele, hiperfosfatemia (deposição de fosfato de cálcio dérmico), hiperparatireoidismo, proliferação de mastócitos e ativação de receptores opióides cutâneos. Intenso, difuso, noturno — piora muito a qualidade de vida. Tratamento: controle do fosfato, gabapentina, fototerapia UVB, diálise adequada. Uremic frost (cristais visíveis de ureia na pele) é raridade hoje — indica uremia extremamente avançada e não tratada.

Regra prática: a indicação de diálise é clínica, não numérica. Pericardite urêmica, encefalopatia, sangramento urêmico ou hipervolemia/hipercalemia/acidose refratárias são indicações absolutas — independente do valor da ureia. Um paciente assintomático com ureia de 300 pode aguardar; um com pericardite e ureia de 120 dialisa hoje.

04 / Hiponatremia

Hiponatremia — o excesso de água.

Definição: Na sérico < 135 mEq/L. É o distúrbio eletrolítico mais comum em pacientes hospitalizados (~15–30%). Quase sempre reflete ganho relativo de água livre — seja por ingesta excessiva, retenção renal (ADH inapropriado) ou perda de Na com reposição apenas de água.

? Se o paciente tem Na 120, ele tem pouco sódio no corpo? PenseFechar
Antes da resposta — raciocine

O laboratório te dá uma concentração (mEq/L). Concentração é razão: soluto / solvente. Se a concentração cai, pode ser por dois motivos completamente diferentes.

Resposta

Não necessariamente. Hiponatremia é desequilíbrio entre Na e água livre. Na maioria absoluta dos casos, o sódio total está normal ou até aumentado — o que está em excesso é a água. Pacientes com ICC e Na 125 frequentemente têm mais Na corporal que um saudável: só têm muito mais água ainda. O rim mensura tonicidade, não estoque.

Classificação por gravidade

CategoriaNa séricoRisco
Leve130–134 mEq/LAssintomática ou sintomas inespecíficos
Moderada125–129 mEq/LCefaleia, náusea, letargia
Grave< 125 mEq/LConvulsão, coma, herniação cerebral

Classificação por cronicidade

  • Aguda (< 48 h): alto risco de edema cerebral (cérebro ainda não fez adaptação osmótica). Pode-se corrigir mais rapidamente.
  • Crônica (> 48 h ou desconhecida): cérebro já extrudou osmólitos (Na, K, mio-inositol). Correção rápida é perigosa — risco de síndrome de desmielinização osmótica (antiga mielinólise pontina central).
  • Na dúvida → considere crônica e corrija devagar.
? Por que o cérebro hernia em hiponatremia aguda e desmieliniza se corrigirmos a crônica rápido demais? PenseFechar
Antes da resposta — visualize

O neurônio está dentro de uma caixa rígida (crânio). Sua membrana é permeável à água, não a íons. Se o LEC fica hipotônico, água entra no neurônio. Como o cérebro se defende? E o que ele "esquece de desfazer" se a hipotonia for crônica?

Resposta — dois tempos

Fase aguda (minutos a horas): sem tempo para adaptação, água invade o neurônio → edema cerebral → ↑ PIC → cefaleia, vômito, convulsão, herniação. É emergência.

Fase crônica (> 48 h): o cérebro extrudou osmólitos (Na, K, mio-inositol, taurina, glutamato) para igualar a tonicidade interna à do LEC. Agora ele "vive" hipotônico — mas em equilíbrio.

Se você corrige rápido: o LEC fica hipertônico em relação ao neurônio adaptado → água sai bruscamente → desidratação celular → desmielinização (especialmente pontina, oligodendrócitos são muito sensíveis). É a síndrome de desmielinização osmótica (ODS), antiga "mielinólise pontina central". Surge 2–6 dias depois com disartria, disfagia, tetraparesia, locked-in.

Regra de ouro: hiponatremia aguda mata por edema (corrigir rápido). Crônica mata por desmielinização (corrigir devagar). Na dúvida → considere crônica.

Passo 1 — Pseudo-hiponatremia? Osmolaridade plasmática

A primeira pergunta diante de Na baixo: qual a osmolaridade plasmática? Isso separa hiponatremia verdadeira (hipotônica) das mimetizadoras:

TipoPosmCausasConduta
Hipotônica (verdadeira)< 275SIADH, ICC, cirrose, diurético, polidipsia, hipotireoidismo, AddisonInvestigar volemia → tratar causa
Isotônica (pseudo)275–295Hiperlipidemia grave, hiperproteinemia (mieloma) — artefato laboratorialAvaliar com Na por íon-seletivo direto
Hipertônica> 295Hiperglicemia, manitol, glicina (RTU), contrastes hipertônicosTratar causa osmótica

Correção do Na na hiperglicemia

A glicose puxa água do LIC para o LEC, diluindo o Na. Para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100, soma-se ~1,6 mEq/L ao Na medido (alguns autores: 2,4 mEq/L acima de 400 mg/dL).

Na corrigido = Na medido + 1,6 × ((glicose − 100) / 100)
? Por que hiperglicemia causa hiponatremia mesmo com sódio corporal intacto? PenseFechar
Antes da resposta

Glicose é um soluto osmoticamente ativo que não entra livremente na célula (precisa de insulina/GLUT). Se você acumula glicose no LEC, o que acontece com a água do LIC?

Resposta

Glicose ↑ no LEC → ↑ tonicidade extracelular → água sai do LIC para o LEC (osmose) → o Na+ extracelular fica diluído nesse volume maior. O sódio corporal total não mudou — apenas a água migrou.

Por isso a osmolaridade está alta (hiponatremia hipertônica) e o cérebro não está em risco de edema. Tratar a glicemia faz a água voltar para a célula e o Na "sobe sozinho" — mais ou menos 1,6 mEq/L para cada 100 mg/dL de glicose acima de 100.

Armadilha clínica: nunca corrigir essa hiponatremia com salina hipertônica — você joga o paciente para hipernatremia depois que a glicose normalizar.

Passo 2 — Hiponatremia hipotônica: classificar pela volemia

Esta é a divisão clínica essencial. Use exame físico (mucosas, turgor, edema, PA, FC, JVP):

A) Hiponatremia hipovolêmica — perdeu Na E água, repôs só água

Mecanismo: hipovolemia → barorreceptor estimula ADH → retém água → dilui Na.

Avaliação chave: Na urinário (NaU):

  • NaU < 20 mEq/L → perdas extra-renais: vômito, diarreia, sudorese, terceiro espaço (pancreatite, queimadura, peritonite)
  • NaU > 20 mEq/L → perdas renais: diurético tiazídico, insuficiência adrenal (Addison — falta aldosterona), nefropatia perdedora de sal, cerebral salt wasting

Tratamento: SF 0,9% IV — repor volume restaura a perfusão, suprime ADH e a água livre é eliminada espontaneamente.

B) Hiponatremia euvolêmica — só ganhou água

Mecanismo: retenção pura de água livre. Volemia clinicamente normal, sem edema.

  • SIADH — secreção inapropriada de ADH. Causas: câncer de pulmão (small cell), pneumonia, TB, AVC, TCE, meningite, pós-operatório, fármacos (carbamazepina, ISRS, ciclofosfamida, opioides, antipsicóticos). Critérios de Bartter & Schwartz: Posm < 275, Uosm > 100, NaU > 30, euvolemia, função tireoidiana e adrenal normais.
  • Hipotireoidismo grave (mixedema) — ↓ DC + ADH não-osmótico.
  • Insuficiência adrenal — falta cortisol (cortisol normalmente inibe ADH).
  • Polidipsia primária / potomania — ingestão > 10 L/dia ou dieta hipoproteica ("beer potomania"). Uosm < 100 (máxima diluição).
  • Reset osmostat — gestação, doenças crônicas: o sistema "calibra" para Na ~130.
  • Pós-operatório — dor, náusea, opioides + SF hipotônica em excesso = mistura clássica.

Tratamento: restrição hídrica (800 mL/dia). Considerar tolvaptan (antagonista V2), demeclociclina, ureia oral em casos refratários. Tratar causa.

C) Hiponatremia hipervolêmica — edema + diluição

Mecanismo: aumento da água corporal total desproporcional ao Na total → diluição. O paciente tem excesso de Na corporal, mas excesso ainda maior de água.

  • ICC — ↓ volume circulante efetivo → SRAA + ADH ativos.
  • Cirrose — vasodilatação esplâncnica → ↓ volume efetivo → mesmo mecanismo.
  • Síndrome nefrótica — ↓ pressão oncótica → ↓ volume efetivo.
  • IRA / DRC avançada — incapacidade de excretar água livre.

Tratamento: restrição hídrica + restrição de Na + diurético de alça (furosemida — não tiazídico!). Tratar a doença de base.

Manifestações clínicas

Os sintomas dependem mais da velocidade de queda que do valor absoluto. O cérebro é o órgão crítico — edema cerebral leva ao quadro neurológico:

Náusea Cefaleia Letargia Confusão Cãibra muscular Convulsão Coma Herniação
? Como diferenciar SIADH de cerebral salt wasting, já que os dois cursam com NaU alto após neurocirurgia? PenseFechar
Pense antes

Em ambos, o paciente perde sódio na urina. Mas o mecanismo é oposto: em um, sobra água (retém); no outro, perde-se Na e água (depleção). O que muda no exame físico?

Resposta — A volemia decide

SIADH: ADH inapropriadamente alto → retém água → euvolêmico/levemente hipervolêmico, BUN baixo, ácido úrico baixo. Tratamento: restrição hídrica.

Cerebral salt wasting (CSW): liberação de BNP/peptídeo natriurético cerebral → natriurese primária → hipovolêmico, BUN alto, hematócrito alto. Tratamento: SF 0,9% + reposição de sal.

Erro fatal: tratar CSW como SIADH (restrição hídrica) → piora a hipovolemia → choque. Volemia clínica é o divisor de águas. Em dúvida, prove SF e veja o que acontece: se Na sobe → era CSW; se Na cai → era SIADH.

Tratamento — princípio da correção lenta

Limites de correção do Na — TRIPLA-CONFIRMADO

  • Máximo 8–10 mEq/L em 24 h (alguns guidelines: 10–12)
  • Máximo 18 mEq/L em 48 h
  • Velocidade ideal: ~0,5 mEq/L/h (não exceder 1 mEq/L/h mesmo em emergência prolongada)
  • Se houver risco alto (alcoólatra, desnutrido, hipocalemia, doença hepática, Na < 105): correção ainda mais cautelosa — 4–6 mEq/L/24 h

Sintomas neurológicos graves (convulsão, coma): bolus de NaCl 3% 100–150 mL IV em 10 min, pode repetir até 3×, alvo: elevar Na em 4–6 mEq/L rápido para reverter edema cerebral. Depois, freia.

Síndrome de desmielinização osmótica (mielinólise pontina central)

Complicação devastadora da correção excessivamente rápida da hiponatremia crônica. Após 2–6 dias da correção: disartria, disfagia, paraparesia, tetraparesia, "locked-in syndrome", alteração do nível de consciência.

Por quê? Em hiponatremia crônica, neurônios extrudem osmólitos intracelulares para evitar edema. Quando o Na sobe muito rápido, a água sai do neurônio mais rápido do que os osmólitos voltam — desidratação celular → desmielinização (especialmente da ponte e estruturas mielinizadas).

Resgate: se ultrapassou o limite, desfazer com SG 5% ± desmopressina para baixar o Na de volta.

Fórmula de Adrogué-Madias (estimativa)

Δ Na por 1 L de solução = (Na infundidoNa sérico) / (ACT + 1)

ACT = peso × 0,6 (♂) ou × 0,5 (♀ / idoso). Esta fórmula subestima a velocidade real em SIADH — sempre medir Na de 4 em 4 horas.

Soluções salinas — composição

  • SF 0,9% (salina isotônica): Na 154 mEq/L — uso em hipovolêmica
  • NaCl 3% (salina hipertônica): Na 513 mEq/L — emergência sintomática
  • SG 5%: Na 0 — repor água livre (hipernatremia)
  • SF 0,45%: Na 77 — solução de manutenção (não usar em emergência)
  • Ringer lactato: Na 130 — risco de piora se hiponatremia
05 / Hipernatremia

Hipernatremia — o déficit de água.

Definição: Na sérico > 145 mEq/L. Menos comum que hiponatremia, mas com mortalidade hospitalar elevada (15–20% em adultos hospitalizados). Quase sempre reflete perda de água livre > perda de Na, com defesa da sede inadequada (idoso, demenciado, criança, acesso restrito à água, alteração do nível de consciência).

★ Regra de ouro

Hipernatremia em paciente consciente com acesso à água é sempre uma "co-morbidade" — pense em diabetes insipidus, lesão hipotalâmica (adipsia primária) ou perdas catastróficas.

? Por que hipernatremia é quase sempre doença de quem não consegue beber? PenseFechar
Antes da resposta

O sistema sede–ADH é o defensor mais potente da tonicidade. Se Na sobe 1–2 mEq/L acima do basal, a sede dispara furiosa. Logo, para hipernatremia persistir, algo precisa estar quebrado. O quê?

Resposta

O acesso à água ou a percepção da sede. Em um adulto consciente, com sede normal e copo na mesa, é virtualmente impossível desenvolver hipernatremia significativa — o paciente bebe e o problema se autocorrige.

Por isso a maioria dos casos hospitalares é em: idoso institucionalizado, demenciado, lactente, paciente intubado/sedado, AVC com afasia, lesão hipotalâmica (adipsia primária — destruição do osmorreceptor da sede). DI sem hipernatremia significa que a sede ainda funciona; DI com hipernatremia significa que a sede falhou.

Implicação prática: diante de hipernatremia, a pergunta não é "por que perdeu água" — é "por que não bebeu". Investigue isso primeiro.

Mecanismos — três caminhos

1
Perda pura de água livre

Diabetes insipidus (central ou nefrogênico), perdas insensíveis (febre, taquipneia, queimadura), exposição a ambiente seco.

2
Perda hipotônica (água + Na, mas mais água)

Diurese osmótica (hiperglicemia, manitol, ureia pós-obstrução), diarreia osmótica, vômitos.

3
Ganho de sódio (raro)

Ingestão de água salgada (afogamento), iatrogenia (NaCl 3% excessivo, NaHCO₃ em PCR), hiperaldosteronismo primário (raramente eleva >150), ingestão acidental (sal em lactentes).

Diabetes insipidus (DI)

O DI é a incapacidade de concentrar a urina por falha do eixo ADH. Cursa com poliúria hipotônica (> 3 L/dia, Uosm < 300, geralmente < 100) e polidipsia compensatória — se a sede funciona e há acesso à água, o Na pode estar normal. Hipernatremia surge quando a sede falha.

DI Central (neurogênico)

↓ Produção de ADH no hipotálamo / neuro-hipófise.

  • Causas: trauma (TCE, neurocirurgia), tumor (craniofaringioma, metástase), AVC hipofisário, encefalite, sarcoidose, histiocitose, idiopático/autoimune
  • RM: ausência do "bright spot" da neuro-hipófise em T1
  • Teste do DDAVP: Uosm sobe > 50% após desmopressina IM/IN
  • Tratamento: desmopressina (DDAVP) IN 10–40 µg/dia OU VO 0,1–0,4 mg, 2–3 ×/dia

DI Nefrogênico

Rim não responde ao ADH (defeito V2 ou AQP2).

  • Causas adquiridas (comuns): lítio (clássico), hipercalcemia, hipocalemia crônica, demeclociclina, anfotericina, doença tubulointersticial, gestação tardia (vasopressinase placentária)
  • Congênito (raro): mutação V2 (ligada ao X) ou AQP2
  • Teste do DDAVP: Uosm NÃO sobe (< 10% ou < 50 mOsm/kg)
  • Tratamento: remover o agente (lítio), corrigir distúrbios eletrolíticos, dieta hipossódica + tiazídico (paradoxalmente reduz a poliúria por induzir leve hipovolemia → ↑ reabsorção proximal), AINE como adjuvante
? Por que diurético tiazídico trata o DI nefrogênico — não é paradoxal? PenseFechar
Antes da resposta

DI nefrogênico = rim não responde ao ADH no túbulo coletor → não consegue concentrar urina → poliúria. Como um diurético — droga que aumenta diurese — poderia reduzir essa poliúria?

Resposta — depleção volumétrica controlada

Tiazídico age no túbulo contornado distal (NCC). Sua natriurese leve induz contração volêmica discreta → ativa o SRAA → ↑ reabsorção proximal de Na e água. Resultado: menos fluido chega ao coletor (onde o defeito está) → poliúria diminui.

Ou seja, você "contorna" o segmento doente reduzindo a entrega proximal de água. Dieta hipossódica potencializa o efeito (mais ativação proximal). AINE como adjuvante reduz prostaglandinas locais que antagonizam o pouco ADH residual.

Insight: nem todo "diurético" piora poliúria. Em DI nefrogênico, ele é tratamento de primeira linha. A fisiologia é contraintuitiva mas elegante.

Diagnóstico diferencial — teste de privação hídrica

Quando há dúvida entre DI central, DI nefrogênico e polidipsia primária:

  1. Privar de líquidos sob supervisão (até 8 h ou queda de 3% do peso)
  2. Medir Uosm a cada hora
  3. Se Uosm > 600 mOsm/kg → polidipsia primária (rim responde, era sobrecarga)
  4. Se Uosm permanece baixa (< 300) → administrar DDAVP 2 µg SC
  5. Uosm sobe > 50% após DDAVP → DI central
  6. Uosm não sobe (< 10%) → DI nefrogênico

Manifestações clínicas

Sintomas refletem desidratação celular cerebral (a água sai do neurônio). Sede intensa é o primeiro sinal — sua ausência (idoso, criança, lesão hipotalâmica) é o que torna o quadro perigoso:

Sede intensa Boca seca Fraqueza Irritabilidade Letargia Mioclonia / espasticidade Convulsão Coma Hemorragia intracraniana

Tratamento — cálculo do déficit de água livre

Antes de repor, calcule o déficit:

Déficit de água (L) = ACT × ((Na sérico / 140) 1)

ACT = peso × 0,6 (♂ adulto) / 0,5 (♀ adulto / idoso ♂) / 0,45 (idoso ♀).

Exemplo

Homem 70 kg, Na 160 mEq/L:
ACT = 70 × 0,6 = 42 L
Déficit = 42 × ((160/140) − 1) = 42 × 0,143 = ~6 L de água livre

Some ~1,5 L/dia de perdas insensíveis. Reponha em 48–72 h com SG 5% ou SF 0,45% (na proporção ½ água livre cada litro).

? Paciente hipernatrêmico e hipotenso — o que entra primeiro: SF 0,9% ou SG 5%? PenseFechar
Antes da resposta

O paciente tem dois problemas: tonicidade alta (precisa de água livre) e volemia baixa (precisa de volume). Qual é a prioridade vital — restaurar perfusão ou tonicidade?

Resposta — ABC primeiro

SF 0,9% primeiro até estabilizar hemodinâmica. SF tem Na 154 mEq/L — abaixo do Na do paciente hipernatrêmico (digamos 165) — portanto ainda é hipotônico em relação a ele, e parte do volume infundido vira água livre.

Restaurada perfusão e PA, você muda para SG 5% (ou SF 0,45%) para corrigir lentamente a tonicidade. Nunca corrija > 10 mEq/L em 24 h, sob pena de edema cerebral por reentrada brusca de água nos neurônios que acumularam osmólitos idiogênicos.

Princípio: em qualquer distúrbio, circulação antes de tonicidade. Cérebro tolera Na 165 por horas; não tolera choque.

Velocidade de correção

Limites — TRIPLA-CONFIRMADO

  • Máximo 10 mEq/L em 24 h (alguns: 12). Velocidade ideal ≤ 0,5 mEq/L/h.
  • Em hipernatremia aguda (< 24 h) pode-se corrigir mais rápido — 1 mEq/L/h até o limite.
  • Reposição preferencial via oral / SNG com água livre, se possível.
  • Solução IV de escolha: SG 5% (água livre); alternativas: SF 0,45% ou SG 5% + 0,2% NaCl.
  • Tratar simultaneamente a causa (controlar glicemia, suspender lítio, DDAVP para DI central, repor volume com SF se hipovolemia franca antes de partir para água livre).

Por que corrigir devagar?

Em hipernatremia crônica, o cérebro acumulou osmólitos idiogênicos (mio-inositol, taurina, glutamato) para evitar desidratar. Se você joga água livre rápido, o cérebro incha antes de extruir esses solutos → edema cerebral, convulsões, herniação.

06 / Interativo

Calculadoras à beira-leito.

Quatro ferramentas que você vai usar de verdade na enfermaria. Toque, digite e veja o resultado raciocinado — não só o número.

Calculadora · 01
Na corrigido pela glicemia

A glicose puxa água do LIC e dilui o Na medido. Calcule o Na "real" antes de tratar como hiponatremia verdadeira.

Na corrigido mEq/L
Interpretação Insira os valores.
Calculadora · 02
Adrogué-Madias — Δ Na por 1 L de solução

Estima quanto o Na sérico muda ao infundir 1 L da solução escolhida. Sempre subestima em SIADH — monitore Na a cada 4 h.

Δ Na por 1 L mEq/L
Volume p/ corrigir 1 mEq/L
Calculadora · 03
Déficit de água livre (hipernatremia)

Quanto de água livre o paciente precisa receber para voltar a Na 140. Reponha em 48–72 h + somar perdas insensíveis (~1,5 L/dia).

Déficit estimado litros
Reposição sugerida
Mapa clínico · interativo
Onde está o seu paciente?

Deslize para qualquer Na entre 105 e 175. O quadro clínico e a conduta atualizam em tempo real.

135 mEq/L
105120135145160175
Status clínico
Normal
Assintomático.
Conduta: nenhuma.
07 / Socrático

Pergunte. Pause. Responda.

As perguntas que separam quem decora dos limites de correção de quem entende por que existem. Tente formular sua resposta antes de abrir.

? Por que cerveja em excesso ("beer potomania") causa hiponatremia mesmo bebendo menos que um polidípsico psicogênico? PenseFechar
Pense antes

Para excretar água livre, o rim precisa de solutos para excretar com ela. Cada osmol "carrega" um volume de água. Cerveja é praticamente só carboidrato e álcool — quase sem proteína (ureia) ou sódio. O que isso faz com a capacidade máxima de excreção de água livre?

Resposta

A urina máxima diluída tem Uosm mínima ~50 mOsm/kg. Se você ingere ~250 mOsm/dia (dieta normal traz ~600–900), pode excretar no máximo 250/50 = 5 L/dia. Cerveja fornece ~50 mOsm/dia → teto cai para 1 L/dia. Qualquer ingesta acima disso causa hiponatremia, mesmo modesta.

Mesma lógica vale para idosos com dieta "chá e torrada": pouco soluto, teto de excreção baixo, hiponatremia fácil. Tratamento: restrição hídrica + reintrodução de proteína e sal — a hiponatremia se corrige sozinha (cuidado para não corrigir rápido demais!).

? Por que tiazídico causa hiponatremia, mas furosemida raramente causa? PenseFechar
Pense antes

Para diluir urina (excretar água livre), o rim precisa de um gradiente medular intacto. Onde cada diurético age e o que cada um faz com esse gradiente?

Resposta

Furosemida bloqueia o NKCC2 na alça espessa ascendente — o lugar onde se constrói o gradiente medular. Sem gradiente, o rim não concentra nem dilui bem → poliúria, mas com Uosm ~ Posm. Não retém água livre.

Tiazídico bloqueia o NCC no túbulo distal, mantendo o gradiente medular intacto. A urina pode ainda ser bem concentrada via ADH no coletor. Resultado: preservada capacidade de reter água livre, mas perde Na → hipovolemia → estímulo não-osmótico de ADH → hiponatremia, especialmente em idosas.

Aplicação: hiponatremia em idosa magra usando HCTZ → suspender tiazídico é diagnóstico e tratamento.

? SF 0,9% pode piorar hiponatremia? Em que cenário? PenseFechar
Pense antes

SF 0,9% tem Na 154 mEq/L. Se o paciente tem Na 130, parece que infundir SF deveria aumentar o Na. Mas o rim do paciente é uma "caixa-preta" que reage ao volume infundido. O que o rim faz com 1 L de SF 0,9% num paciente com SIADH (Uosm 600)?

Resposta — paradoxo da urina hipertônica

Em SIADH, ADH alto → urina hipertônica (ex.: Uosm 600). 1 L de SF 0,9% traz 154 mEq de Na. O rim do SIADH excreta esses 154 mEq num volume menor que 1 L (talvez 500 mL, porque Uosm > Posm). Sobra água livre retida → Na cai ainda mais.

Regra: se Uosm > 2× Na infundido por litro, qualquer cristaloide cuja [Na] seja menor que a Uosm/2 vai piorar a hiponatremia. Em SIADH, só funciona NaCl 3% (513 mEq/L) ou restrição hídrica. "Nunca dê SF a um SIADH."

? Por que idosos são especialmente vulneráveis a ambas — hipo e hipernatremia? PenseFechar
Pense antes

Três sistemas precisam funcionar para manter Na 140: rim (diluir e concentrar), eixo ADH (osmorreceptor + neuro-hipófise) e sede (osmorreceptor + comportamento). O que envelhece em cada um?

Resposta — triplo déficit

Rim envelhecido: ↓ TFG, ↓ resposta ao ADH, ↓ capacidade de diluir e concentrar urina máxima. Margem fisiológica menor.

Sede atenuada: osmorreceptor hipotalâmico envelhecido — limiar da sede sobe. O idoso só "sente sede" com Na 150, quando o jovem já beberia em Na 142.

Comportamento: menos mobilidade, mais medo de urinar à noite/em público, demência, polifarmácia (tiazídico, ISRS, opioides). Tudo conspira.

Por isso o idoso é o "campeão" de ambos os polos. Em qualquer paciente > 70 anos com confusão aguda, peça Na imediatamente.

? Por que o ácido úrico ajuda a diferenciar SIADH de outras causas? PenseFechar
Pense antes

Ácido úrico é reabsorvido no túbulo proximal sob influência do estado volêmico — quando há hipovolemia, o proximal reabsorve mais (Na e ácido úrico) para preservar volume. SIADH é euvolêmico/levemente hipervolêmico. Logo?

Resposta

Em SIADH, a leve expansão volêmica suprime a reabsorção proximal → ácido úrico BAIXO (< 4 mg/dL). Em hipovolemia (vômito, diurético, CSW), ácido úrico está NORMAL ou ALTO.

Ácido úrico baixo + Na baixo + euvolemia clínica = SIADH com ~90% de chance. Após correção, o ácido úrico normaliza — se permanece baixo, pense em ainda SIADH ativa. Pearl: mesmo raciocínio com BUN — baixo em SIADH (expansão), alto em hipovolemia.

? Se o Na corrigiu rápido demais sem querer, o que fazer para "desfazer"? PenseFechar
Pense antes

Você infundiu salina hipertônica e horas depois o Na subiu 12 mEq/L em vez de 6. O cérebro adaptado não vai ter tempo de "re-acumular" osmólitos. Como evitar a desmielinização que vai aparecer em 2–6 dias?

Resposta — re-baixar o Na

Sim, você desfaz. Conduta:

1. Pare imediatamente qualquer salina.
2. Infunda SG 5% (água livre) — geralmente 3–6 mL/kg/h.
3. Considere DDAVP 2–4 µg SC/IV (paradoxal — você está induzindo retenção de água livre para diluir de novo).
4. Meta: trazer Na de volta a uma elevação ≤ 8 mEq/L em relação ao inicial nas primeiras 24 h.

Essa estratégia (chamada "DDAVP clamp") é hoje recomendada como primeira linha em muitos serviços já desde o início, justamente para não correr o risco de overcorrection: você dá DDAVP profilático + NaCl 3% controlado.

? Em hipernatremia, por que SG 5% (sem Na nenhum) e não simplesmente "água destilada IV"? PenseFechar
Pense antes

O que aconteceria com hemácias se você injetasse 500 mL de H₂O destilada IV?

Resposta

Hemólise maciça. Água destilada é hipotônica em relação ao plasma (osmolaridade ≈ 0). Em contato com a hemácia, a água invade e a célula explode. Resultado: hipercalemia, hemoglobinúria, IRA, óbito.

O SG 5% tem osmolaridade ~278 mOsm/L (igual ao plasma) — é isotônico fora da veia. Uma vez metabolizada a glicose pelas células (via insulina), sobra água livre distribuída no corpo. Mesmo efeito de água destilada, sem destruir hemácia. O 5% de glicose é apenas um veículo osmótico.

? Como o ADH sabe se deve responder à osmolaridade ou à volemia quando elas dão sinais opostos? PenseFechar
Pense antes

Paciente com ICC descompensada: Na 128 (hipotônico → deveria suprimir ADH) e volume circulante efetivo baixo (→ deveria estimular ADH). Quem vence?

Resposta — volemia sempre vence

O estímulo não-osmótico (barorreceptor → hipovolemia ou ↓ volume efetivo) tem prioridade evolutiva sobre o osmótico. Em uma escala de 0–10:

↓ 1% de osmolaridade → leve supressão de ADH.
↓ 10% de volume → ADH dispara para máximo (10–20× normal), mesmo com hiponatremia.

É por isso que ICC, cirrose e síndrome nefrótica geram hiponatremia hipervolêmica: o corpo "lê" volume efetivo baixo e retém água, ignorando a tonicidade. Tratar só com restrição hídrica — repor volume melhora o sinal hemodinâmico e o ADH desliga sozinho.

08 / Quiz

Aplique. Decida.

Seis casos da enfermaria. Escolha. Clique para revelar a resposta com o raciocínio completo.

Caso · 01
Mulher 78a, demenciada, levada por filha por "confusão crescente há 3 dias". Exame: PA 100/60, FC 102, mucosas secas, axilas secas. Lab: Na 162, K 4,4, ureia 92, Cr 1,4 (basal 1,0), glicemia 110. Uosm 720 mOsm/kg. Qual a melhor conduta inicial?
Caso · 02
Homem 62a, tabagista 60 maços/ano, internado com Na 118, Uosm 480, NaU 65, euvolêmico ao exame, sem edema. TSH e cortisol matinal normais. Diurese 0,8 mL/kg/h. Qual a hipótese mais provável?
Caso · 03
Mulher 24a, internada com convulsão pós-maratona. Na 119, glicemia 95, sem comorbidades. Qual a conduta imediata?
Caso · 04
Homem 45a, transtorno bipolar em uso de lítio há 10 anos, refere poliúria (~5 L/dia) e sede. Na 148. Após privação hídrica 8 h: Uosm 280. Após DDAVP IM: Uosm sobe para 295 (8% de incremento). Diagnóstico?
Caso · 05
Diabético tipo 1 chega com CAD: glicemia 720, Na 126, K 5,4, pH 7,15. Qual o Na corrigido (fator 1,6) e a interpretação correta?
Caso · 06
Paciente alcoolista com Na inicial 105 recebe NaCl 3%. Em 8 h, Na sobe para 118 (Δ 13 mEq/L). Próxima conduta?
09 / Framework

Os cinco passos diante de um Na alterado.

Quando você abrir o exame e ver Na 122 ou Na 158, não comece pelo tratamento. Comece por esta sequência. Cinco perguntas — sempre as mesmas — e a conduta cai sozinha.

1
Confirme — é Na real?

Pseudo-hiponatremia (hiperlipidemia, paraproteinemia, hiperglicemia). Calcule o Na corrigido se glicemia > 200. Se Posm não bate com Na, suspeite.

2
Avalie velocidade — agudo ou crônico?

< 48 h ou cronologia desconhecida? Sintomas? Aguda + sintomática = emergência. Crônica = corrigir devagar, sob pena de ODS / edema cerebral.

3
Classifique pela volemia

Exame físico: PA, FC, mucosas, turgor, JVP, edema. Hipo / eu / hipervolêmico — cada um tem um tratamento diferente.

4
Confirme com NaU e Uosm

NaU < 20 vs > 20 separa perda renal de extra-renal. Uosm diz se o rim está concentrando (ADH ativo) ou diluindo. É a impressão digital do mecanismo.

5
Trate respeitando limites — e meça a cada 4 h

≤ 8–10 mEq/L em 24 h sempre. Em emergência: bolus de salina hipertônica (hipo) ou estabilizar volemia (hiper). Reavalie. Frequente. Erra-se por ansiedade de corrigir rápido.

10 / Resumo

Para guardar. Para sempre.

Se esquecer todo o resto, lembre destes seis princípios. Eles cobrem 95% das decisões de plantão.

01

Sódio é marcador de água, não de sódio.

Hiponatremia ≠ falta de Na. Hipernatremia ≠ excesso de Na. O denominador é a água livre. Sempre.

02

Volemia decide o tratamento.

Hipovolêmica → SF. Euvolêmica → restrição. Hipervolêmica → restrição + diurético de alça. Errar a volemia é errar a conduta.

03

≤ 8–10 mEq/L em 24 h.

O número mais importante deste site. Vale para hipo e para hiper. Ultrapassou? Desfaça com SG 5% + DDAVP.

04

Aguda mata por edema, crônica por desmielinização.

Aguda sintomática → bolus de NaCl 3%. Crônica → devagar. Na dúvida da cronologia, considere crônica.

05

Hipernatremia é doença da sede falha.

Idoso, demenciado, intubado, hipotalâmico. Pergunta-chave: por que não bebeu?

06

Meça Na de 4/4 h durante correção.

Fórmulas (Adrogué-Madias) estimam — não predizem. Em SIADH, sempre subestimam. O laboratório é seu copiloto.