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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Função
renal.

Da diurese ao sedimento, da tira reagente à eTFG. Aprender a ler o rim a partir do exame mais barato e poderoso da medicina interna: o exame qualitativo de urina.

TFG normal
≥90
Proteinúria
<150 mg/d
Densidade
>1015
pH urinário
~5–6
01 / Conceitos

A linguagem do néfron.

Antes de qualquer exame, o vocabulário. Confundir polaciúria com poliúria, ou nictúria com noctúria, muda o raciocínio inteiro. Cada termo é uma porta de entrada para uma hipótese diagnóstica diferente.

Oligúria
Diurese inferior a 400 mL/dia — volume incapaz de excretar a carga diária de solutos. Sinal precoce de injúria renal aguda.
< 400 mL/24h
Anúria
Volume urinário < 100 mL/dia. Pensar em obstrução bilateral, choque, necrose cortical, oclusão vascular maior.
< 100 mL/24h
Poliúria
Volume urinário > 2.500 mL/dia (ou > 3 L). Diabetes mellitus, diabetes insipidus, polidipsia psicogênica, pós-obstrução.
> 2.500 mL/24h
Disúria
Micção dolorosa, com queimor ou desconforto uretral/suprapúbico. Marca de ITU baixa, uretrite, prostatite.
Urgência
Necessidade súbita e imperiosa de urinar. Pode acompanhar cistite, bexiga hiperativa, obstrução baixa.
Polaciúria
Aumento da frequência miccional (intervalo < 2 h) sem aumento do volume total. Sintoma irritativo vesical.
Nictúria
Inversão do padrão: urina mais à noite do que durante o dia. ICC, IR, apneia do sono, hipertrofia prostática.
Noctúria
Necessidade de acordar para urinar uma ou mais vezes à noite. Conceito independente da nictúria — mais ligado à carga noturna de solutos/água.
Retenção urinária
Incapacidade de esvaziar a bexiga. Bexiga distendida palpável na região suprapúbica = globo vesical.
Incontinência urinária
Eliminação involuntária de urina. Classifica-se em esforço, urgência, mista, transbordamento ou funcional.

Por que isso importa

A diurese é o sinal vital silencioso: um paciente que cai de 80 mL/h para 20 mL/h está dizendo, antes da creatinina, que algo errado ocorreu. Em UTI, a oligúria precede em horas a elevação da creatinina sérica — porque a creatinina sobe só depois que o rim já está claramente lesado.

Pegadinha clássica

Polaciúria sem poliúria — paciente vai ao banheiro 20 vezes ao dia, mas o volume total é normal ou até baixo. É um sintoma de irritação vesical (cistite, cálculo, tumor de bexiga) e não de diurese excessiva. Já poliúria com polaciúria + sede intensa: pensar em diabetes mellitus ou insipidus.

02 / Exame qualitativo de urina

O EQU, decifrado.

O EQU é o exame complementar mais importante do paciente com doença renal — e o mais subutilizado. Coleta padrão: jato médio da primeira urina da manhã (a mais concentrada). O primeiro jato é descartado pelo risco de contaminação por uretra e genitália externa. Lembrar que é um exame contaminável — não há técnica de assepsia formal.

A estrutura do laudo

  • Análise físico-química: cor, aspecto/turvação, odor, densidade, pH
  • Análise química (tira reagente): proteína, glicose, cetonas, bilirrubina, urobilinogênio, hemoglobina, esterase leucocitária, nitrito
  • Sedimentoscopia (microscopia): hemácias, leucócitos, células epiteliais, bactérias, cristais, cilindros, muco, fungos

Características físicas

Cor — o primeiro sinal

A cor da urina varia entre amarelo-claro, amarelo-escuro e âmbar, refletindo a concentração de urocromo. Alterações podem indicar patologia, medicamentos (rifampicina → laranja) ou alimentos (beterraba, ruibarbo → avermelhada).

Cristalina
Muito diluída · poliúria
Amarelo-claro
Normal hidratado
Amarelo-escuro
Concentrada · 1ª da manhã
Âmbar
Desidratação
Laranja
Rifampicina · fenazopiridina
Coca-cola
Bilirrubina · mioglobina · GNDA
Avermelhada
Hematúria · beterraba
Porfírica
Porfiria · escurece à luz

Turvação

A turvação reflete alta concentração de componentes em suspensão — células, cristais, bactérias, piúria, lipidúria, contraste. Urina turva não é sinônimo de infecção: cristais de fosfato em urina alcalina também turvam.

Odor

O odor pode mudar por ingestão de alimentos (aspargos), uso de medicações ou condições patológicas. Odor fétido sugere infecção; odor de "maple syrup" aponta doença da urina em xarope de bordo; odor frutado sugere cetose.

Características químicas (tira reagente)

O EQU decoder abaixo é interativo: toque em cada cartão para ver o que o valor significa fisiopatologicamente.

Densidade
> 1015
Toque · capacidade de concentrar

Reflete a osmolaridade da urina. Valor esperado > 1015 em amostra da manhã. Urina diluída persistente (≤ 1010 — "isostenúria") em paciente normo-hidratado sugere perda da capacidade de concentração: doença tubulointersticial, doença renal crônica, diabetes insipidus.

pH
~5 a 6
Toque · excreção de H⁺

O pH urinário reflete a excreção diária efetiva de H⁺. Valor esperado < 6. Urina persistentemente alcalina (≥ 7) em paciente acidótico sugere acidose tubular renal. Urina alcalina + infecção é pista de Proteus/Klebsiella (urease+) e fator de risco para cálculo de estruvita.

Proteína
Negativo
Toque · barreira glomerular

Adulto saudável perde < 150 mg/d de proteína total e < 30 mg/d de albumina. A tira é semi-quantitativa e detecta principalmente albumina (escala 0–4 cruzes). Pode haver falso-negativo na proteinúria de Bence-Jones (cadeias leves no mieloma) — a tira não detecta. Suspeitou? Peça proteinúria de 24 h ou relação proteína/creatinina em amostra isolada.

Glicose
Negativo
Toque · TCP / SGLT2

Glicose é completamente filtrada no glomérulo e reabsorvida no túbulo contorcido proximal (SGLT2). Glicosúria aparece quando: 1) a glicemia ultrapassa o limiar tubular (~180 mg/dL — diabetes mellitus); 2) há tubulopatia proximal (síndrome de Fanconi, em que o limiar despenca); 3) uso de inibidores de SGLT2 (dapaglifozina, empaglifozina).

Cetonas
Negativo
Toque · oxidação de gorduras

Presença de cetonas (acetoacetato, beta-hidroxibutirato) na urina indica oxidação de gorduras como fonte energética. Causas: cetoacidose diabética, jejum prolongado, cetoacidose alcoólica, dietas cetogênicas, vômitos prolongados, doenças metabólicas.

Bilirrubina
Negativo
Toque · colestase

Apenas a bilirrubina direta (conjugada) é hidrossolúvel e excretada na urina. Sua presença acompanha icterícia colestática e a urina assume cor de "coca-cola" ou "chá-mate". Bilirrubina indireta (não conjugada) nunca aparece na urina porque está ligada à albumina.

Urobilinogênio
Negativo / traços
Toque · ciclo entero-hepático

Formado no intestino (bactérias degradam bilirrubina direta), absorvido para o sangue e filtrado. Aumenta em hemólise e hepatopatia. Bilirrubina+ SEM urobilinogênio: pensar em obstrução biliar completa — não chega bile ao intestino, logo não forma urobilinogênio.

Esterase leucocitária
Negativo
Toque · piúria

Enzima liberada por neutrófilos — marca piúria. Tem boa sensibilidade (~80%) e especificidade (~95%) para ITU. Pode estar positiva em outras condições inflamatórias (nefrite intersticial, glomerulonefrites).

Nitrito
Negativo
Toque · Gram-negativo

Detecta bactérias capazes de converter nitrato em nitrito — em geral Gram-negativas entéricas (E. coli, Klebsiella, Proteus). Muito específico (95–98%), pouco sensível (~50%). Falso-negativo: bactéria sem nitrato redutase (Staph saprophyticus, Enterococcus), urina muito recente (sem tempo para reação), dieta pobre em nitrato.

Hemoglobina
Negativo
Toque · NÃO = hematúria

A tira é positiva por presença de hemoglobina livre ou hemácias lisadas. Cuidado: hemoglobina+ não comprova hematúria. Pode haver hemoglobinúria sem hematúria em hemólise intravascular ou mioglobinúria (rabdomiólise — a tira não distingue Hb de Mb). Confirmar com sedimento: hemácias presentes = hematúria; ausentes = pigmentúria.

Sedimentoscopia

A microscopia é onde mora a especificidade do EQU. Tira reagente sugere; sedimento confirma e localiza.

Hemácias
< 2
por campo (CGA)
Leucócitos
< 5
por campo (CGA)
Cél. epiteliais
Raras
descamação fisiológica
Bactérias
Ausentes
em jato médio recente
Cilindros
Hialinos
raros, fisiológicos
Cristais
Variável
dependem do pH

Hemácias — isomórficas ou dismórficas?

A pergunta que você deve fazer: esta hemácia entrou no sistema urinário pelo glomérulo — ou por baixo (ureter, bexiga, uretra)?

A forma da hemácia conta essa história. Para atravessar a barreira glomerular, a hemácia precisa forçar passagem por fendas de filtragem muito menores que ela — e essa torção física, somada ao choque osmótico do filtrado tubular, a deforma de forma irreversível. Se ela chega à urina por sangramento no ureter ou bexiga, sai intacta, redonda, como saiu do vaso.

🔴
Dismórficas
Via glomerular

O que são: hemácias deformadas, estreladas, com projeções irregulares — especialmente os acantócitos (células G1: formato de "cogumelo" ou "vírgula" com vesícula). São cicatriz morfológica da passagem forçada pela membrana basal glomerular e pelos pedicelos dos podócitos.

Limiar diagnóstico
  • > 5% de acantócitos no total de hemácias = forte evidência glomerular
  • > 80% dismórficas no total = glomerular (critério menos específico)
  • Acantócito isolado vale mais que percentual alto de "dismórficas genéricas"
Pensar em: Glomerulonefrites (IgA, lúpica, membranoproliferativa, ANCA+), síndrome nefrítica, vasculites renais.
→ Próximo passo: checar proteínas, cilindros hemáticos, complemento, ANCA, anti-DNA.
🔵
Isomórficas
Via excretora

O que são: hemácias redondas, com tamanho e forma normais — idênticas às do sangue periférico. Entraram no sistema urinário por ruptura de um vaso abaixo do rim (ureter, pelve renal, bexiga, próstata, uretra) — nunca passaram pelo filtro, então não foram deformadas.

Pistas associadas
  • Hematúria macroscópica comum (muito sangue)
  • Sem cilindros hemáticos (cilindro se forma só no túbulo)
  • Sem proteinúria significativa — barreira glomerular intacta
  • Dor lombar, disúria, sintomas obstrutivos
Pensar em: Nefrolitíase, neoplasia urotelial (bexiga, rim, ureter), ITU, hipertrofia prostática benigna, trauma, cistos renais rompidos.
→ Próximo passo: US ou TC de vias urinárias, urocultura, cistoscopia se hematúria indolor sem causa.
Raciocínio clínico passo a passo
1
Confirmar que é hematúria de verdade Tira positiva para hemoglobina não é suficiente. Hemoglobinúria (hemólise intravascular) e mioglobinúria (rabdomiólise) também positivam a tira. Só o sedimento confirma: hemácias visíveis ao microscópio = hematúria. Tira+ sem hemácias no sedimento = pigmentúria — investigar CK, LDH, haptoglobina.
2
Quantificar: é hematúria significativa? Referência: > 5 hemácias/campo de alta potência (HPF) em 2 de 3 amostras = hematúria significativa. Hematúria macroscópica (urina visivelmente avermelhada) dispensa contagem — já é patológica por definição.
3
Olhar a morfologia — isomórfica ou dismórfica? Aqui está a bifurcação diagnóstica fundamental. Hemácia redonda = excretora. Hemácia distorcida / acantócito (>5%) = glomerular. Se não tiver microscopia com contraste de fase, usar o contexto clínico (proteínas, cilindros, HAS) para inferir.
4
Buscar o cilindro hemático — prova definitiva Se houver cilindro hemático no sedimento: fim da discussão. Origem obrigatoriamente glomerular — a hemácia só fica presa na matriz de Tamm-Horsfall se passou pelo glomérulo e percorreu o túbulo. Patognomônico de síndrome nefrítica. Buscar ativamente no sedimento.
5
Integrar com o quadro clínico e outros achados do EQU Dismórficas + proteinúria 2–3+ + HAS + edema = síndrome nefrítica → nefrologia urgente.
Isomórficas + hematúria macroscópica indolor, sem proteinúria, em >40 anos = neoplasia urotelial até provar o contrário → cistoscopia.

Regra prática para a prova (e para a beira do leito):

  • Acantócitos > 5% ou cilindro hemático presente = glomerular, sem mais discussão
  • Hematúria macroscópica + isomórficas + sem proteinúria = via excretora até prova em contrário
  • Hematúria indolor, sem causa óbvia, em adulto >40 anos = neoplasia urotelial excluída por cistoscopia
  • Tira "hemoglobina+" com sedimento limpo = não é hematúria — é pigmentúria; pedir CK e LDH

Leucócitos — leucocitúria não é sinônimo de ITU

O raciocínio certo: leucócito na urina = inflamação em algum ponto do trato urinário ou do rim. Pode ser infecção, pode ser imunomediado, pode ser fisiológico. ITU é apenas uma das causas — e não a mais sofisticada.

Fisiológico — não tratar

Até 5 leucócitos/campo (HPF) é normal. Acima disso = leucocitúria patológica ("piúria").

Origem: células descamadas de mucosa urotelial + leucócitos residentes do interstício renal. Sem inflamação ativa.

Infeccioso — tratar com antibiótico

ITU típica: leucocitúria + bacteriúria + sintomas (disúria, urgência, frequência). Os 3 precisam estar juntos.

Sem sintomas = bacteriúria assintomática (ver abaixo). Bactérias sozinhas sem leucócitos = provável contaminação.

Imunomediado — não responde a antibiótico

Nefrite intersticial aguda (NIA): reação imune no interstício renal — medicamentos (AINEs, antibióticos, IBPs), lúpus, sarcoidose.

Glomerulonefrites: leucócitos inflamatórios no glomérulo chegam ao filtrado. Costumam acompanhar hematúria dismórfica.

⚠ Piúria estéril — leucocitúria + urocultura negativa

Situação importante: há leucócitos na urina, mas a cultura não cresce nada. O que fazer? Não repetir o antibiótico — investigar causa não-bacteriana.

CausaPista clínicaPróximo passo
NIA medicamentosaInício após novo fármaco (IBP, AINE, β-lactâmico); eosinófilos na urina; IRASuspender o fármaco; biópsia renal se dúvida
Tuberculose urináriaHematúria microscópica + piúria + sem bactérias comuns; PPD+; história de TBUrocultura para BAAR (3 amostras matinais)
Clamídia / uretriteJovem sexualmente ativo; disúria; corrimento uretral; cultura comum negativaPCR/NAAT para C. trachomatis
LitíaseDor lombar ou em cólica; hematúria isomórfica associadaUS ou TC de vias urinárias
Neoplasia urotelialHematúria indolor; adulto >40 anos; tabagistaCistoscopia + citologia urinária
Lúpus / vasculiteLeucocitúria + hematúria + proteinúria; sinais sistêmicosANA, anti-DNA, complemento, ANCA
Eosinófilos na urina — pedir eosinofilúria (coloração de Hansel) se suspeita de NIA medicamentosa. Presença de >1% eosinófilos nas células urinárias aponta fortemente para NIA. Não é achado do EQU padrão — precisa ser solicitado.

Bactérias — contaminação vs infecção

A armadilha mais comum do EQU: bactérias presentes no sedimento são reportadas, e o médico prescreve antibiótico sem mais investigar. Na maioria das vezes é contaminação.

?
Por que há tanta contaminação? A urina sai pela uretra, que nunca é estéril — especialmente em mulheres (flora perineal próxima). O frasco de coleta, a manipulação, o tempo até processar: tudo contamina. Uma amostra de jato médio não cateterizada tem até 30% de chance de ter bactérias por contaminação.
Quando suspeitar de ITU verdadeira — os 3 critérios
  1. Bactérias visíveis em amostra de jato médio (não cateter, não frasco aberto há horas)
  2. Leucocitúria significativa (>5/campo) — leucócito responde à infecção bacteriana real
  3. Sintomas — disúria, urgência, frequência, dor suprapúbica, febre (na pielonefrite)

Diagnóstico de ITU é clínico-laboratorial — os 3 somados. Sem sintoma, mesmo com bactéria + leucócito = investigar, não tratar (ver abaixo).

!
Bacteriúria assintomática — quando tratar, quando ignorar
Tratar
  • Gestante — risco de pielonefrite + parto prematuro
  • Pré-procedimento urológico invasivo (biópsia transretal, ressecção transuretral)
Não tratar
  • Idoso assintomático (inclusive institucionalizado)
  • Diabético assintomático
  • Cateter vesical de longa data
  • Pré-operatório não urológico

Cristais — a armadilha da superinterpretação

Conceito central: cristal ≠ cálculo. Um paciente com nefrolitíase por oxalato de cálcio pode não ter nenhum cristal no EQU no momento. E um paciente com oxalato de cálcio no EQU pode nunca ter cálculo. A cristalização depende do pH, temperatura e concentração da urina na hora da coleta — variáveis do momento, não da doença.

CristalMorfologiapH urinárioSignificado
Oxalato de cálcioEnvelope (octaedro) ou halterQualquer🟡 Comum, pode ser normal. Em excesso: hiperoxalúria, etileno-glicol
Ácido úricoAmarelo-alaranjado, losangos ou barrisÁcido (<5,5)🟡 Normal em pH ácido. Em grande quantidade: síndrome de lise tumoral, gota
Fosfato de cálcioPrismas incolores ou amorfosAlcalino🟡 Normal em pH alcalino; urina após refeição
Fosfato triplo (estruvita)"Tampa de caixão" (coffin-lid)Alcalino🔴 Infecção por bactéria urease+ (Proteus, Klebsiella) → cálculo coraliforme
CistinaHexagonais, incolores ("honeycomb")Ácido🔴 Diagnóstico: cistinúria (distúrbio genético de transporte tubular). Cálculos recorrentes na infância
Ácido úrico abundanteAglomerados amarelo-ferrugemMuito ácido🔴 Síndrome de lise tumoral (quimioterapia), gota grave, doenças mieloproliferativas
Tirosina / LeucinaAgulhas finas amareladas (tir.) / esferas oleosas (leu.)Ácido🔴 Insuficiência hepática grave (metabolismo de aminoácidos comprometido)
SulfonamidasFeixes de agulhas, "gavetes de trigo"Ácido🔴 Precipitação de sulfa — suspender e hidratar; risco de obstrução tubular
Regra prática: cristais comuns (oxalato, fosfato, urato) em quantidade moderada em urina concentrada = ignorar. Cristais patológicos (cistina, tirosina, sulfa, estruvita) = investigar sempre — são diagnósticos de doenças específicas ou complicações.

Cilindros — a biópsia do néfron

Como cilindros se formam — o mecanismo importa

Células do túbulo distal e coletor secretam continuamente a proteína de Tamm-Horsfall (uromodulina) no lúmen tubular. Quando o fluxo urinário é lento (desidratação, baixo débito urinário) ou a concentração de proteínas/células no lúmen está alta, essa proteína gelifica e molda o formato do túbulo — nasce o cilindro.

A lógica do diagnóstico reverso: o que ficou preso dentro do cilindro era o que estava no lúmen tubular naquele momento. Então você pode trabalhar para trás: abre o cilindro mentalmente e pergunta "o que está dentro?" → isso diz o que estava acontecendo no néfron → isso diz a síndrome.

O QUE ESTÁ DENTRO → O QUE HAVIA NO LÚMEN → O QUE ESTAVA ACONTECENDO → DIAGNÓSTICO
Hialino
transparente
Dentro: só Tamm-Horsfall, sem células. Mecanismo: fluxo lento + proteína concentrada. Diagnóstico: pode ser fisiológico (exercício intenso, febre, desidratação) — e sozinho não significa nada. Em quantidade, acompanhando proteinúria 2–3+: síndrome nefrótica ou nefrite crônica. Se só hialino isolado no EQU: provável normal.
Hemático
laranja/vermelho
Dentro: hemácias. Mecanismo: hemácias passaram pelo glomérulo (lesão da barreira) → caíram no lúmen tubular → ficaram presas no gel de Tamm-Horsfall. A hemácia só chega ao lúmen tubular se passou pelo glomérulo — logo, cilindro hemático = origem obrigatoriamente glomerular. Patognomônico de síndrome nefrítica. Se você acha um, encaminhe para nefrologia — não é achado trivial.
Leucocitário
amarelado
Dentro: leucócitos (PMN ou mononucleares). Mecanismo: inflamação no interstício renal/túbulo → leucócitos migram para o lúmen → são capturados no cilindro. Importância diagnóstica: distingue piúria de origem renal (leucócito veio do rim, desceu com o fluxo) de piúria de origem baixa (bexiga, uretra). Leucocitúria isolada sem cilindro = pode ser bexiga. Leucocitúria com cilindro leucocitário = pielonefrite ou NIA até prova em contrário.
Granuloso
"mud-brown"
Dentro: debris celulares granulares (restos de células tubulares necróticas). Mecanismo: células tubulares morrem (necrose tubular aguda) → se fragmentam em grânulos → ficam presos no cilindro. A cor marrom-barro ("muddy brown") é típica e vem da hemoglobina degradada + lipídios celulares oxidados. Marcador clássico de NTA — você verá isso em todo paciente com IRA isquêmica ou nefrotóxica. Cilindro granuloso + contexto de choque ou contraste iodado = NTA confirmada.
Epitelial
células tubulares
Dentro: células tubulares renais íntegras (não fragmentadas). Mecanismo: células tubulares descamam em bloco (lesão menos grave que NTA franca) e ficam presas no cilindro. Atenção: célula epitelial livre no sedimento é fisiológica — o rim descama células normalmente. O que não é fisiológico é a célula tubular presa dentro de um cilindro. Associado a granulosos = confirma NTA. Em contexto de transplante: rejeição tubular aguda.
Graxo
cruz de malta
Dentro: gotículas lipídicas ("corpúsculos ovais graxos") que cruzam a barreira glomerular quando ela está gravemente permeável. Macetes visuais: sob luz polarizada aparecem como "cruz de malta" (birrefringência lipídica). Só a gordura passa pelo glomérulo quando há proteinúria maciça — porque a lipoproteína se perde junto com a albumina. Marcador de síndrome nefrótica. Urina espumosa + cilindros graxos com cruz de malta = síndrome nefrótica até biópsia.
Céreo
"cera derretida"
Dentro: matriz densa, brilhante, homogênea — sem conteúdo celular identificável. Mecanismo: o cilindro ficou tanto tempo no lúmen tubular (fluxo cronicamente lento = DRC) que os detritos internos se degradaram completamente, restando só a matriz gelificada envelhecida. A aparência de "cera derretida" vem da rigidez e alta refratilidade da proteína envelhecida. Marcador de DRC avançada — cronicamente poucos néfrons, fluxo muito lento.
Largo
"broad cast"
O que é: qualquer cilindro com diâmetro anormalmente grande (2–6× o diâmetro normal). Mecanismo: néfrons remanescentes em DRC avançada sofrem hipertrofia compensatória — os túbulos ficam dilatados, e os cilindros formados neles são proporcionalmente largos. Praticamente patognomônico de insuficiência renal crônica avançada — indica pouquíssimos néfrons funcionantes. Quando você vê um cilindro muito largo, o rim está em falência.
Mapa diagnóstico — cilindro → síndrome → conduta
CilindroSíndromeContexto típicoConduta imediata
HemáticoSíndrome nefríticaHematúria + proteinúria + HAS + edemaNefrologia urgente · ANCA, anti-DNA, complemento
Graxo (cruz de malta)Síndrome nefróticaProteinúria maciça + edema + hipoalbuminemiaNefrologia · biópsia renal
Hialino isoladoFisiológico / proteinúria leveDesidratação, febre, esforço físicoAvaliar contexto; se isolado: tranquilizar
Granuloso "mud-brown"NTAIRA em pós-choque, pós-contraste, aminoglicosídeoSuporte · evitar nefrotóxicos · monitorar débito urinário
EpitelialNTA / lesão tubularAssociado a granulosos em IRAIdem NTA; em transplante: biópsia
LeucocitárioPielonefrite / NIAFebre + dor lombar + piúria OU IRA após fármacoPielonefrite: antibiótico. NIA: suspender causador ± corticoide
Céreo / LargoDRC avançadaTFG cronicamente baixa, rins pequenosConfirmar DRC; planejar TRS se G4–G5
03 / Proteinúria

Quantificar a perda.

Em condições normais, o adulto perde menos de 150 mg de proteína e menos de 30 mg de albumina por dia. Perdas persistentes acima desses valores sugerem aumento da permeabilidade glomerular ou defeito de reabsorção tubular — não há proteinúria fisiológica significativa.

Tira reagente — semi-quantitativa

A tira detecta principalmente albumina e fornece uma escala de 0 a 4 cruzes. É uma estimativa grosseira da concentração — não da carga total — então urina diluída pode subestimar e urina muito concentrada pode superestimar.

Neg
< 10 mg/dL
normal
1+
~30 mg/dL
leve
2+
~100 mg/dL
moderada
3+
~300 mg/dL
acentuada
4+
≥ 1.000 mg/dL
maciça / nefrótica

Por que confirmar com método quantitativo?

A tira só identifica albumina — perde cadeias leves (Bence-Jones) do mieloma múltiplo, perde proteinúria tubular (β2-microglobulina). E concentra/dilui pelo grau de hidratação. Sempre que houver tira positiva persistente, confirmar com proteinúria de 24 h ou relação proteína/creatinina.

Proteinúria de 24 horas — padrão-ouro

A coleta de urina em 24 horas é o método de referência para quantificar a perda proteica. Permite separar:

  • Normal: proteínas totais < 150–250 mg/24h; albumina < 30 mg/24h
  • Microalbuminúria (albuminúria moderadamente aumentada): 30–300 mg/24h — marcador precoce de nefropatia diabética/hipertensiva
  • Proteinúria não nefrótica: 150 mg – 3,5 g/24h
  • Proteinúria nefrótica (maciça): > 3,5 g/24h em adulto (em criança, > 50 mg/kg/24h ou > 40 mg/m²/h)

Limitação: coleta operador-dependente, sujeita a erro (esquecer micção, descartar primeira urina vs incluir). Conferir com a creatininúria de 24h: adulto excreta ~15–20 mg/kg de creatinina/dia.

Relação proteína/creatinina (RPC) em amostra isolada

Estima a proteinúria de 24 h sem precisar coletar 24 horas. Funciona porque a excreção de creatinina é razoavelmente constante e ~1 g/dia em adulto médio: a razão proteína (mg) / creatinina (mg) em uma amostra ≈ proteinúria em g/24 h.

  • Normal: < 0,15 mg/mg ou < 150 mg/g
  • Proteinúria significativa: > 0,5 mg/mg
  • Proteinúria nefrótica: > 3,5 mg/mg

Para albuminúria, o equivalente é a relação albumina/creatinina (RAC) — usada em rastreio de nefropatia diabética: RAC > 30 mg/g já indica albuminúria patológica.

Glomerular, tubular ou de transbordamento?

Antes: como o rim impede a proteinúria normalmente

A barreira glomerular funciona como um filtro de duas camadas:

1ª barreira — Tamanho

Proteínas grandes não passam pelo poro glomerular. A albumina (67 kDa) está no limite — é grande demais para cruzar livremente. Proteínas menores (<25 kDa, como β₂-microglobulina) passam normalmente pelo filtro.

2ª barreira — Carga elétrica

A membrana basal glomerular é negativamente carregada. A albumina também é negativa → repulsão eletrostática. Doenças que destroem essa carga (ex: DLM) permitem que albumina passe mesmo sem romper fisicamente os poros.

E as proteínas pequenas que passam? O túbulo proximal as reabsorve quase completamente — por endocitose mediada por receptores (megalina/cubilina). Por isso a urina normal tem <150 mg/d de proteína, sendo a maior parte Tamm-Horsfall tubular, não albumina filtrada.

Com esse mapa, os 3 mecanismos de proteinúria ficam intuitivos — cada um quebra um elo diferente dessa cadeia:

G
Glomerular — "a cerca quebrou"
Barreira danificada · túbulo normal

O que acontece: a membrana basal glomerular ou os podócitos estão lesados. A barreira de tamanho e/ou de carga está rompida. Albumina — que normalmente não passaria — começa a cruzar em grandes quantidades.

Por que albumina? Porque é a proteína mais abundante no plasma (35–50 g/L). Qualquer pequena abertura na barreira → enorme quantidade de albumina filtrada → tubulo não consegue reabsorver tudo → proteinúria maciça.

Características clínicas:
  • Proteína dominante: albumina (tira reagente detecta bem)
  • Magnitude: pode ser >3,5 g/d (síndrome nefrótica)
  • Acompanhantes: hematúria dismórfica (se nefrítica), cilindros graxos (nefrótica), edema, HAS
  • Tira reagente: 2+ a 4+ (detecta albumina)
  • Exemplos: nefropatia diabética, GESF, DLM, GN membranosa, lúpus
DIAGNÓSTICO PELA TIRA: detectável · RAC > 300 mg/g = A3 · pede biópsia renal
T
Tubular — "a lixeira proximal quebrou"
Barreira intacta · túbulo danificado

O que acontece: a barreira glomerular está intacta. Proteínas pequenas (β₂-microglobulina, retinol-binding protein, α₁-microglobulina) continuam passando normalmente pelo filtro — como sempre fizeram. O problema é que o túbulo proximal está lesado e não consegue mais reabsorvê-las.

Por que proteínas pequenas? Porque são as únicas que cruzam o filtro intacto normalmente. Albumina continua bloqueada — passa muito pouca. Por isso a proteinúria tubular é de baixo peso molecular e a tira (que detecta albumina) pode ser falsamente negativa ou apenas 1+.

Características clínicas:
  • Proteína dominante: β₂-microglobulina, RBP, α₁-microglobulina (tira não detecta bem)
  • Magnitude: usualmente <2 g/d — raramente causa síndrome nefrótica
  • Acompanhantes: glicosúria sem hiperglicemia, aminoacidúria, fosfatúria (síndrome de Fanconi completa)
  • Tira reagente: subestima — 24h é bem maior que a tira sugere
  • Exemplos: NTA, NIA, síndrome de Fanconi, nefrotóxicos (aminoglicosídeo, cisplatina, tenofovir)
MACETE: tira reagente subestima proteinúria tubular. Tira 1+ com 24h mostrando 1,5 g = padrão tubular.
Ov
Transbordamento — "o rim está bem, mas é muita proteína"
Barreira intacta · túbulo intacto · superprodução no sangue

O que acontece: o rim é completamente normal. O problema está no sangue: há uma proteína pequena (filtrável) sendo produzida em quantidade tão grande que o rim, mesmo reabsorvendo no máximo de sua capacidade, não consegue processar tudo. O excesso "transborda" para a urina.

Analogia: imagine uma torneira normal com um balde de capacidade fixa. Se você aumentar demais o fluxo, o balde transborda — não é falha do balde, é excesso de entrada.

As 3 situações clínicas:
  • Mieloma múltiplo → cadeias leves (Bence-Jones): plasmócitos malignos produzem cadeias κ ou λ livres em massa. São pequenas (~22 kDa), filtram normalmente, saturam a reabsorção. Tira NEGATIVA — a tira não detecta cadeias leves, só albumina.
  • Rabdomiólise → mioglobina: músculo necrótico libera mioglobina (~17 kDa) em massa → filtra no glomérulo → transborda. Urina marrom-avermelhada. Tira positiva para "sangue" sem hemácias no sedimento = mioglobinúria.
  • Hemólise intravascular → hemoglobina: hemácias lisadas liberam Hb livre no plasma → filtra → transborda. Idem acima (tira+, sedimento sem hemácias).
⚠ Armadilha clínica — Bence-Jones: paciente com mieloma pode ter proteinúria de 24h de 4–8 g/d, tira reagente negativa ou traço, e albumina sérica normal. A tira não enxerga cadeias leves. Se suspeitar de mieloma: pedir eletroforese de proteínas urinárias e imunofixação urinária (detectam κ e λ livres). Nunca excluir mieloma pela tira negativa.
Comparação rápida — o que olhar no laudo
CaracterísticaGlomerularTubularTransbordamento
Barreira glomerular❌ Quebrada✅ Intacta✅ Intacta
Túbulo proximal✅ Normal❌ Lesado✅ Normal (saturado)
Proteína dominanteAlbumina (alto PM)β₂-micro, RBP (baixo PM)Cadeias leves, mio/hemoglobina
MagnitudePode ser >3,5 g/dGeralmente <2 g/dVariável (mieloma: intensa)
Tira reagentePositiva (detecta albumina)Subestima (não vê baixo PM)Negativa (Bence-Jones) ou + (mio/Hb)
RAC / albuminúriaAltaBaixa ou normalBaixa (salvo Hb)
ExemplosDM, GESF, DLM, lúpusNTA, Fanconi, aminoglicosídeoMieloma, rabdomiólise, hemólise
Próximo passoNefrologia + biópsiaTratar causa tubular; 24hEletroforese + imunofixação (mieloma); CK (rabdo)

Síndrome nefrótica — os 5 elementos

  1. Proteinúria maciça (> 3,5 g/24h ou RPC > 3,5)
  2. Hipoalbuminemia (< 3,0 g/dL)
  3. Edema (queda da pressão oncótica)
  4. Hiperlipidemia / lipidúria (corpúsculos graxos em cruz de malta)
  5. Hipercoagulabilidade (perda urinária de antitrombina III)

Proteinúria ortostática (postural)

Em crianças e adolescentes, proteinúria detectada em amostra do dia desaparece na 1ª urina da manhã. É benigna, não progride. Diagnostica-se com EQU em duas amostras: matinal (negativa) e pós-deambulação (positiva).

04 / Provas de função renal

Medir o que o rim filtra.

Creatinina sérica — o marcador endógeno

A creatinina é um produto do metabolismo muscular (degradação da fosfocreatina). É completamente filtrada no glomérulo, pouco secretada no túbulo proximal e não reabsorvida. Por ser endógena, não precisa ser infundida — é o marcador prático para estimar a função renal.

Cr normal (♀)
0,5–1,1
mg/dL
Cr normal (♂)
0,7–1,2
mg/dL
Idoso/sarcopênico
↓ massa
Cr falsamente baixa
Atleta / dieta proteica
↑ Cr
sem ↓ função real

Por que a creatinina ENGANA

  • Massa muscular: idosos, mulheres, amputados, sarcopênicos, cirróticos têm Cr basal baixa — uma Cr de 1,2 que pareceria "normal" pode significar TFG < 60 nesses pacientes
  • Atletas, dieta hiperproteica, ingestão de carne cozida: Cr falsamente alta sem perda de função
  • Drogas que bloqueiam a secreção tubular (trimetoprim, cimetidina): elevam Cr sem reduzir TFG verdadeira
  • Cinética lenta: em IRA, a Cr leva 24–48 h para refletir a queda real de TFG — oligúria precede a elevação

Por isso, sempre que possível, usa-se a TFG estimada (eTFG) em vez da creatinina pura.

Depuração (clearance) de creatinina — por que NÃO é o padrão-ouro

A depuração de creatinina (urina de 24h) superestima a TFG verdadeira em ~10–20% porque parte da creatinina urinária é secretada pelo túbulo proximal, não filtrada. Quando a TFG cai, essa fração secretada aumenta, distorcendo o resultado. Padrão-ouro real é a depuração de inulina (filtração pura, sem secreção/reabsorção), usado em pesquisa. Alternativas: iotalamato, EDTA-Cr-51, iohexol.

TFG estimada (eTFG) — as fórmulas

A TFG = (taxa média de filtração por néfron) × (número de néfrons). Como não pode ser medida diretamente na prática, é estimada a partir da Cr sérica corrigida para variáveis como idade, sexo, raça e peso.

Cockcroft-Gault (1976) — clearance de creatinina estimado

ClCr (mL/min) = [(140 − idade) × peso] / (72 × Cr) · × 0,85 se ♀

Estima o clearance de creatinina (não a TFG ajustada para superfície corporal). É a equação clássica usada para ajuste de dose de medicamentos e bulas — por isso ainda é exigida nos serviços de farmácia hospitalar. Não é corrigida para 1,73 m².

MDRD (1999) — Modification of Diet in Renal Disease

Equação derivada de pacientes com doença renal crônica. Estima a TFG em mL/min/1,73 m². Melhor para eTFG < 60; subestima a função em pacientes com TFG normal/alta.

CKD-EPI (2009/2021) — a mais usada hoje

A equação atualmente recomendada pela KDIGO. Mais acurada que a MDRD em eTFG > 60 mL/min/1,73 m² e mantém boa performance abaixo de 60. A versão de 2021 removeu o coeficiente racial.

EquaçãoVariáveisUnidadeIndicação
Cockcroft-Gaultidade, peso, sexo, CrmL/minAjuste de dose de fármacos
MDRD (4-var)idade, sexo, raça, CrmL/min/1,73m²eTFG < 60 / DRC estabelecida
CKD-EPIidade, sexo, Cr (± raça antes de 2021)mL/min/1,73m²Recomendação atual (todas as faixas)
CKD-EPI com cistatina Cidade, sexo, Cr, cistatina CmL/min/1,73m²Quando creatinina é pouco confiável

Quando a eTFG NÃO serve

  • Injúria renal aguda — Cr ainda não atingiu novo estado de equilíbrio; a fórmula assume steady-state
  • Massa muscular extrema (amputado, paraplégico, fisiculturista, criança, sarcopenia importante)
  • Gestantes — fórmulas não validadas
  • Cirrose — baixa produção de creatinina superestima TFG
  • Edemaciado / anasarca — volume de distribuição alterado

Calculadora interativa — Cockcroft-Gault

Calcule o clearance de creatinina e veja o estágio KDIGO equivalente. Os valores atualizam em tempo real.

Calculadora de Cockcroft-Gault
CLEARANCE DE CREATININA · mL/min
ClCr = [(140 − idade) × peso (kg)] / (72 × Cr) · multiplicar por 0,85 se sexo feminino
Clearance estimado
mL/min

Estágios da DRC (KDIGO)

EstágioeTFG (mL/min/1,73m²)Descrição
G1≥ 90Normal ou alta · só DRC se houver marcador de lesão (proteinúria, alteração estrutural)
G260 – 89Levemente diminuída · idem G1
G3a45 – 59Leve a moderadamente diminuída
G3b30 – 44Moderada a severamente diminuída
G415 – 29Severamente diminuída · preparar TRS
G5< 15Falência renal · diálise ou transplante

Definição de DRC (KDIGO)

Alterações persistentes por ≥ 3 meses que indiquem dano renal estrutural ou funcional, com implicações para a saúde:

  • eTFG < 60 mL/min/1,73 m², OU
  • Marcadores de lesão renal: albuminúria (RAC ≥ 30 mg/g), alterações no sedimento (hematúria persistente, cilindrúria patológica), alterações tubulares (acidose tubular renal), alteração estrutural (rim único, doença policística), histologia anormal, transplantado renal

Ureia — útil, mas tampouco perfeita

A cadeia completa — de onde vem e por onde sai
1
Produção no fígado Proteínas da dieta ou do catabolismo muscular são quebradas em aminoácidos → desaminação libera amônia (NH₃), que é tóxica → o fígado a converte em ureia pelo ciclo da ureia. A ureia vai para o sangue.

Implicação: se o fígado falha (cirrose) → ureia baixa, mas amônia alta. Não confunda ureia normal/baixa com rim funcionando bem em hepatopata.

2
Filtração glomerular livre Ureia é uma molécula pequena, não ligada a proteínas → passa livremente pelo glomérulo. A TFG determina quanto é filtrado.
3
Reabsorção tubular variável — o problema central No túbulo proximal, a ureia é reabsorvida de forma passiva, junto com a água. Quanto mais água reabsorvida (desidratação, ADH alto, baixo débito), mais ureia é arrastada de volta para o sangue. Isso não acontece com a creatinina — ela não é reabsorvida.

Essa diferença de comportamento entre ureia e creatinina é a base da razão BUN/Creatinina.

Razão ureia/creatinina — por que funciona como rastreio de pré-renal
Doença renal intrínseca (NTA, GN…)

O glomérulo filtra menos → ambas sobem proporcionalmente, porque nenhuma está sendo reabsorvida a mais. Razão BUN/Cr permanece 10–20 (normal).

BUN ↑ + Cr ↑ na mesma proporção = o problema está no néfron.

Pré-renal (desidratação, choque, baixo débito)

TFG cai → ambas sobem. Mas o fluxo tubular está lento → mais ureia é reabsorvida passivamente junto com a água. Creatinina não é reabsorvida → sobe menos. Razão BUN/Cr > 20.

BUN sobe desproporcional à Cr = o túbulo está "roubando" ureia de volta.

Razão BUN/Cr (ureia mg/dL ÷ Cr mg/dL)InterpretaçãoPensar em
< 10Ureia baixa para a creatinina↓ Produção: hepatopatia grave, desnutrição, dieta hipoproteica, gestação (hemodiluição + ↑TFG)
10 – 20✅ Razão normalDoença renal intrínseca (NTA, GN, NIA) — rim lesado, mas sem hiperreabsorção de ureia
> 20⚠ Ureia alta para a creatininaPré-renal (desidratação, ICC, cirrose, choque) OU ↑ produção de ureia (ver abaixo)
⚠ Armadilha: BUN/Cr > 20 não significa necessariamente pré-renal

A razão sobe quando a produção de ureia está aumentada — mesmo que o rim seja completamente normal e o paciente esteja bem hidratado. Antes de concluir "pré-renal", excluir:

  • Sangramento digestivo alto — sangue no intestino é digerido como proteína → fígado fabrica mais ureia → BUN sobe rapidamente enquanto Cr fica estável. É o exemplo clássico: BUN/Cr > 20 com hidratação normal.
  • Dieta hiperproteica — excesso de aminoácidos → mais ciclo da ureia → BUN alto, rim e hidratação normais.
  • Catabolismo aumentado — sepse grave, grandes queimaduras, corticosteroides em dose alta, pós-cirurgia → proteólise muscular acelerada → amônia → ureia.
  • Febre alta / jejum prolongado — catabolismo endógeno elevado.
Quando a ureia está baixa — o fígado como denominador
  • Hepatopatia grave / cirrose — fígado não converte amônia em ureia eficientemente. Ureia sérica baixa é sinal indireto de insuficiência hepática grave. Amônia sobe, ureia cai.
  • Desnutrição / dieta hipoproteica — pouca proteína → pouca amônia → pouca ureia sintetizada.
  • Gestação — TFG fisiologicamente aumentada (+50%) + hemodiluição. Ureia e creatinina são fisiologicamente menores na grávida. Creatinina "normal" de 0,9 pode representar TFG reduzida em gestante.
  • Anasarca / hipervolemia — dilui a ureia sérica sem refletir melhora real da função renal.

Cistatina C — quando a creatinina mente

Proteína produzida por todas as células nucleadas em taxa constante, livremente filtrada, completamente reabsorvida e metabolizada no túbulo proximal (não retorna ao sangue). Independe da massa muscular, sexo, idade e dieta. Indicações práticas:

É mais cara e nem sempre disponível, mas ganha espaço (KDIGO 2024 sugere usar eTFG-cistatina sempre que possível para confirmar DRC).

Padrão-ouro real

A inulina é a substância de referência para medir a TFG verdadeira: livremente filtrada, não secretada, não reabsorvida, não metabolizada. Requer infusão contínua e coletas seriadas — só viável em pesquisa. Alternativas mais práticas usadas em medicina nuclear: iotalamato, EDTA-Cr⁵¹, iohexol.

05 / Pérolas socráticas

Pense antes de responder.

Seis perguntas que separam quem decora o EQU de quem entende o rim. Tente formular sua resposta antes de abrir a explicação.

?
Como diferenciar proteinúria glomerular de tubular?
Pense primeiro

O glomérulo é o filtro; o túbulo é a reabsorção. Qual proteína passa em cada cenário, e em que magnitude?

Resposta

Glomerular: a barreira de filtração está rota — passam proteínas grandes, especialmente albumina (67 kDa). Pode chegar a perdas maciças (> 3,5 g/d). Acompanha hematúria dismórfica, cilindros hemáticos ou graxos. Tira reagente fortemente positiva (3+ a 4+).

Tubular: a barreira está íntegra; o que falha é a reabsorção proximal de proteínas de baixo PM (β2-microglobulina, retinol-binding, α1-microglobulina). Albuminúria pequena, total geralmente < 2 g/d. Tira pode ser apenas levemente positiva — porque ela detecta principalmente albumina.

Transbordamento: o glomérulo está normal, mas há superprodução de proteína filtrável (Bence-Jones no mieloma, mioglobina na rabdomiólise, hemoglobina na hemólise). A tira é tipicamente negativa em Bence-Jones — confirmar com eletroforese de proteínas urinárias / imunofixação.

Como confirmar laboratorialmente: eletroforese de proteínas urinárias (separa por PM) + dosagem de β2-microglobulina urinária + RAC + RPC.

?
Quando suspeitar de azotemia pré-renal pelo exame de urina?
Pense primeiro

O rim "está com fome de volume" — funciona bem, mas chega pouco sangue. Como ele se comporta? Concentra ou dilui? Retém Na ou perde Na?

Resposta

Na pré-renal, o rim preservado funcionalmente reage à hipoperfusão concentrando ávidamente urina e retendo sódio:

  • Densidade alta (> 1020) — capacidade de concentração mantida
  • Osmolaridade urinária alta (> 500 mOsm/kg)
  • Sódio urinário baixo (< 20 mEq/L)
  • Fração de excreção de sódio (FENa) < 1% (cuidado se uso de diurético — usar FEUreia < 35%)
  • Sedimento limpo ou cilindros hialinos apenas
  • Razão ureia/Cr > 40 (BUN/Cr > 20) — porque a ureia é mais reabsorvida quando o fluxo tubular é lento

Já na NTA (renal): densidade baixa (~1010, isostenúria), Na urinário > 40, FENa > 2%, cilindros granulosos "mud-brown" e epiteliais.

?
O que significa cada tipo de cilindro?
Pense primeiro

O cilindro é a "impressão digital" do túbulo. O que está dentro dele é o que estava no lúmen tubular quando se formou. Reverse-engineer: hemácias dentro → de onde vieram?

Resposta
  • Hialino: só matriz Tamm-Horsfall — proteinúria leve, fisiológico (febre, exercício, desidratação)
  • Hemático: hemácias no lúmen → vieram do glomérulo → síndrome nefrítica
  • Leucocitário: leucócitos no lúmen → inflamação do parênquima → pielonefrite ou NIA
  • Granuloso ("mud-brown"): restos celulares degenerados → NTA
  • Epitelial: células tubulares destacadas → lesão tubular aguda
  • Graxo / corpúsculos em cruz de malta: lipidúria → síndrome nefrótica
  • Céreo / largo: formados em néfrons dilatados, fluxo lento → DRC avançada

Mnemonic: "O cilindro nomeia a síndrome".

?
Por que hemoglobina positiva na tira NÃO é o mesmo que hematúria?
Pense primeiro

A reação química da tira detecta uma atividade pseudoperoxidásica — o que tem isso? Hemácia íntegra, hemoglobina livre... e o que mais?

Resposta

A tira reage com a atividade pseudoperoxidásica do grupo heme. Três coisas dão positivo:

  1. Hematúria verdadeira — hemácias íntegras no sedimento
  2. Hemoglobinúria — hemólise intravascular (transfusão, malária, AHAI, púrpura)
  3. Mioglobinúria — rabdomiólise (a tira não distingue Hb de Mb!)

Por isso, sempre confirmar com sedimento: hemácias visíveis = hematúria. Sem hemácias mas com tira+ = pigmentúria — pedir CK (rabdo), bilirrubina/LDH/haptoglobina (hemólise).

A regra prática: "hematúria é diagnóstico do sedimento, não da tira".

?
Por que a creatinina de uma senhora idosa de 1,1 mg/dL pode esconder DRC?
Pense primeiro

De onde vem a creatinina? Quem produz menos? E o "valor normal" do laboratório foi feito para quem?

Resposta

A creatinina é o produto da degradação muscular. Uma mulher idosa de 60 kg, baixa massa muscular, produz muito menos creatinina por dia que um homem jovem de 80 kg. Para que sua Cr esteja em 1,1 mg/dL, é preciso que o rim filtre muito menos do que filtraria a do homem com mesma Cr.

Aplicando Cockcroft-Gault: mulher de 75 anos, 60 kg, Cr 1,1 → ClCr ≈ 30 mL/min (DRC G3b!). Já um homem de 30 anos, 80 kg, mesma Cr 1,1 → ClCr ≈ 110 mL/min (normal).

Lição: nunca interprete Cr isolada. Em idoso, mulher, amputado, cirrótico, paraplégico: sempre calcule eTFG ou peça cistatina C.

?
Tira: glicose 4+, paciente com glicemia 95 mg/dL. O que pensar?
Pense primeiro

Glicosúria = ultrapassou o limiar tubular (~180 mg/dL) OU o limiar desabou. Glicemia normal + glicosúria importante → o que falhou?

Resposta

Glicosúria sem hiperglicemia aponta para defeito de reabsorção tubular proximal. Hipóteses:

  • Síndrome de Fanconi — glicosúria + aminoacidúria + fosfatúria + bicarbonatúria + uricosúria (acidose tubular tipo II). Causas: mieloma, doenças genéticas (cistinose), nefrotoxicidade (tenofovir, ifosfamida, cisplatina, metais pesados)
  • Glicosúria renal isolada (defeito do SGLT2) — benigna
  • Uso de inibidores de SGLT2 (dapaglifozina, empaglifozina) — esperado, não patológico
  • Gravidez — limiar tubular cai fisiologicamente; glicosúria leve sem hiperglicemia pode ser normal

Conduta inicial: confirmar com glicemia em jejum e HbA1c (descartar DM); revisar lista de medicamentos; pedir gasometria + íons + fosfato + ácido úrico se suspeita de Fanconi.

06 / Quiz interativo

Teste o raciocínio.

Sete questões. Toque na alternativa correta para receber a explicação. Tente justificar mentalmente antes de clicar.

Mulher, 28 anos, edema, urina espumosa há 1 mês. EQU: proteína 4+, hemácias 0–1, cilindros graxos com cruz de malta. Albumina sérica 2,4 g/dL. Qual o achado MAIS sugestivo da síndrome em questão?
Homem 75 anos, 60 kg, Cr 1,3 mg/dL. Vai iniciar enoxaparina profilática. Qual a melhor maneira de avaliar a função renal para ajuste de dose?
Paciente com nefropatia diabética em rastreamento de progressão. Qual o melhor marcador na urina para detectar lesão precoce?
Mulher 40 anos, dor lombar súbita, hematúria macroscópica. EQU: hemácias 50–60/campo, isomórficas, sem cilindros, leucócitos 2/campo. A topografia da hematúria sugere:
Em qual situação a eTFG por creatinina é MENOS confiável?
Paciente em uso de cefalosporina há 7 dias inicia febre, rash, eosinofilia. Cr sobe de 0,9 para 2,2. EQU mostra leucocitúria estéril e cilindros leucocitários. Diagnóstico mais provável:
Paciente com mieloma múltiplo apresenta IRA. EQU: proteína 1+, hemácias raras. Urina de 24h: proteinúria 6 g/24h. Qual a explicação mais provável da discrepância tira × 24h?
07 / Take-home

Para levar.

01

Vocabulário primeiro

Não confunda polaciúria (frequência) com poliúria (volume), nictúria (inversão) com noctúria (acordar para urinar). Cada termo tem fisiopatologia diferente.

02

EQU é jato médio matinal

Primeira urina da manhã (mais concentrada), jato médio, em pote estéril. Examinar em até 1–2 h ou refrigerar — bactéria multiplica fora do paciente.

03

Tira ≠ sedimento

Tira é química, semiquantitativa, sujeita a falsos. Sedimento é a confirmação morfológica. Hemoglobina+ não é hematúria sem hemácias no sedimento.

04

Densidade conta a história tubular

Densidade alta com oligúria = pré-renal (rim funcional). Isostenúria (~1010) persistente = perda de capacidade de concentração — DRC ou tubulopatia.

05

Hemácias isomórficas × dismórficas

Isomórficas: via excretora (litíase, ITU, tumor). Dismórficas (acantócitos) ou cilindros hemáticos: glomerular — síndrome nefrítica.

06

O cilindro nomeia a síndrome

Hialino (proteinúria leve) · Hemático (nefrítica) · Leucocitário (pielo/NIA) · Granuloso/epitelial (NTA) · Graxo (nefrótica) · Céreo/largo (DRC avançada).

07

Tira não vê Bence-Jones

Mieloma com IRA + tira negativa + 24h positiva = pensar em cadeias leves. Confirmar com eletroforese / imunofixação urinária.

08

Quantificar: RPC ≈ 24 h

Relação proteína/creatinina em amostra isolada substitui bem a urina de 24 h. RPC > 3,5 mg/mg ou > 3.500 mg/g = proteinúria nefrótica.

09

RAC para diabético/hipertenso

Rastreio de nefropatia: relação albumina/creatinina. RAC ≥ 30 mg/g já indica albuminúria patológica — controle estrito de glicemia e PA, IECA/BRA.

10

Cr sozinha mente

Idoso, mulher, sarcopênico, amputado, cirrótico: Cr "normal" pode esconder DRC importante. Sempre calcular eTFG (CKD-EPI) ou usar cistatina C.

11

CKD-EPI é o atual; Cockcroft é o do farmacêutico

CKD-EPI 2021 — fórmula recomendada pela KDIGO. Cockcroft-Gault — para ajuste de dose de fármacos (validação histórica das bulas).

12

eTFG não serve em IRA

Fórmulas pressupõem steady-state. Em injúria renal aguda use critérios dinâmicos KDIGO: ↑ Cr ≥ 0,3 mg/dL em 48 h, ou ≥ 1,5× basal, ou oligúria < 0,5 mL/kg/h por 6 h.

08 / Framework

Pense em 5 passos.

Toda vez que um exame de urina cair na sua mão, percorra estes cinco passos. Eles transformam uma folha de papel em um diagnóstico nefrológico.

1
Passo 1 · Quantificar a diurese
Quanto e de que cor?
Volume diário e aspecto macroscópico — o paciente está oligúrico, anúrico ou poliúrico? A cor é normal?
NORMAL
Diurese 800–2.500 mL/24h, amarelo-claro/escuro, sem espuma persistente, sem coca-cola.
ALERTA
Oligúria (< 400 mL) · anúria (< 100 mL) · poliúria (> 2.500 mL) · urina espumosa · cor coca-cola · hematúria macroscópica.
Toque para aprofundarRecolher
Sinais de alerta na história / volume
  • Oligúria aguda + creatinina subindo → IRA. Avaliar pré-renal vs. renal vs. pós-renal
  • Anúria súbita → pensar obstrução bilateral, oclusão vascular, necrose cortical
  • Poliúria + polidipsia → diabetes mellitus, diabetes insipidus, hipercalcemia
  • Urina cor de coca-cola → hematúria glomerular, bilirrubinúria, mioglobinúria/hemoglobinúria
  • Urina espumosa persistente → suspeitar proteinúria importante
O que pedir junto
  • Creatinina sérica e ureia (com basal, se houver)
  • Eletrólitos (Na, K, Ca, P)
  • Gasometria (acidose? bicarbonato?)
2
Passo 2 · Ler o EQU
Físico, químico, sedimento.
Lê-se nessa ordem: cor/aspecto → tira reagente → microscopia. Cada parte dialoga com a próxima.
CONFIRMATÓRIO
Tira+ é hipótese; sedimento confirma. Hemoglobina+ na tira pede hemácias no sedimento para dizer "hematúria".
DESCRITIVO
Densidade + pH descrevem o estado tubular. Glicose / cetona / bilirrubina dão contexto sistêmico (DM, jejum, colestase).
Toque para aprofundarRecolher
Padrões clássicos de EQU
  • Nefrítica: hematúria dismórfica + cilindros hemáticos + proteinúria moderada + HAS
  • Nefrótica: proteinúria 3+/4+ + cilindros graxos + lipidúria + hipoalbuminemia + edema
  • NTA: isostenúria + cilindros granulosos "mud-brown" e epiteliais + Na urinário alto
  • Pré-renal: densidade alta + Na urinário baixo + cilindros hialinos + ureia/Cr alta
  • NIA: leucocitúria estéril + cilindros leucocitários + eosinofilúria + droga + rash + febre
  • ITU baixa: piúria + bacteriúria + nitrito+ + esterase+ (sem cilindros)
  • Pielonefrite: piúria + bacteriúria + cilindros leucocitários + febre / Giordano
3
Passo 3 · Definir proteinúria
Qualitativa → quantitativa.
Se há proteinúria positiva na tira (em ≥ 2 amostras), confirme e quantifique. Magnitude muda diagnóstico, conduta e prognóstico.
QUANTIFICAR
Proteinúria 24 h (padrão-ouro) OU RPC em amostra isolada (g/g ≈ g/24h). RAC para rastreio em DM/HAS.
CARACTERIZAR
Padrão glomerular (predomínio albumina, magnitude alta) × tubular (baixo PM, magnitude baixa) × transbordamento (Bence-Jones, mio/hemoglobinúria).
Toque para aprofundarRecolher
Pontos de corte que você precisa decorar
  • Normal: < 150 mg proteína/24 h · < 30 mg albumina/24 h
  • Albuminúria patológica: RAC ≥ 30 mg/g (antiga "microalbuminúria") — marcador precoce de nefropatia diabética
  • Proteinúria significativa: RPC > 0,5 mg/mg ou > 500 mg/g
  • Faixa nefrótica: > 3,5 g/24h, RPC > 3,5 mg/mg, RAC > 2.200 mg/g
Quando o quantitativo não bate com o qualitativo
  • Tira negativa, 24h positiva → suspeitar Bence-Jones (mieloma) — pedir eletroforese e imunofixação urinária
  • Tira positiva isolada, sem repetição, jovem hígido → considerar proteinúria ortostática (avaliar com 1ª amostra da manhã)
  • Tira positiva intermitente em febre/exercício → proteinúria funcional benigna
4
Passo 4 · Estimar a TFG
Cr nunca lida sozinha.
Sempre que pedir creatinina, calcule a eTFG. Use CKD-EPI como padrão; Cockcroft-Gault para ajustar dose; cistatina C quando a Cr engana.
PADRÃO
CKD-EPI 2021 — todos os pacientes em ambulatório. Estagiar pela KDIGO (G1–G5) + albuminúria (A1–A3).
EXCEÇÕES
Cockcroft-Gault para bulas / ajuste de dose. Cistatina C em idoso sarcopênico, amputado, cirrótico, oncológico. Não usar fórmulas em IRA.
Toque para aprofundarRecolher
KDIGO — estágios de TFG
  • G1: ≥ 90 (só DRC se houver marcador de lesão)
  • G2: 60–89 (idem)
  • G3a: 45–59 — moderada leve
  • G3b: 30–44 — moderada severa
  • G4: 15–29 — preparar TRS
  • G5: < 15 — diálise / transplante
KDIGO — categorias de albuminúria
  • A1: RAC < 30 mg/g · normal/leve
  • A2: RAC 30–300 mg/g · moderadamente aumentada
  • A3: RAC > 300 mg/g · severamente aumentada
Critério de DRC (≥ 3 meses)

eTFG < 60 OU marcador de dano renal (albuminúria, sedimento patológico, alteração estrutural, histológica, eletrolítica de origem tubular, ou transplante renal).

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Passo 5 · Correlacionar com a clínica
O paciente, não só o papel.
Um EQU isolado não diagnostica nada. Cruze com história, exame, comorbidades, medicamentos, contexto agudo × crônico.
PADRÃO BATE
EQU + clínica fecham síndrome (nefrítica, nefrótica, NTA, pielo, NIA, pré-renal). Defina conduta direcionada.
PADRÃO NÃO BATE
Discrepância? Pense achados confundidores (Bence-Jones, hemoglobinúria, ortostática, exercício), erro técnico ou doença múltipla.
Toque para aprofundarRecolher
Quando pedir além do EQU
  • Urocultura — toda suspeita de ITU complicada, pielonefrite, ITU em gestante, recorrente, falha terapêutica
  • Proteinúria 24h / RPC / RAC — tira positiva persistente; rastreio em DM e HAS
  • Eletroforese de proteínas urinárias + imunofixação — suspeita de mieloma, gamopatia monoclonal, tira-24h discrepante
  • Sódio urinário, ureia urinária, FENa, FEUreia — diferenciar pré-renal de NTA na IRA
  • US ou TC de rins/vias urinárias — hematúria, dor lombar, suspeita de obstrução, DRC avançada
  • Cistatina C / eTFG cruzada — quando a creatinina é pouco confiável
  • Biópsia renal — síndrome nefrótica em adulto, GN rapidamente progressiva, IRA sem causa clara, DRC com etiologia indefinida
Mensagem final

O EQU é a primeira porta. Ele raramente diagnostica sozinho, mas quase nunca está calado — toda doença renal deixa rastro nele. Aprenda a lê-lo, e você lerá o rim.

Leitura completa do rim

Cinco passos, do copo de urina ao estadiamento KDIGO. Se você passar por todos antes de fechar a hipótese, dificilmente erra o caminho — mesmo nos casos atípicos.