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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Glomerulopatias
nefro/nefrítico.

Da barreira de filtração à biópsia. Distinguir síndrome nefrótica de síndrome nefrítica é o primeiro passo — e cada causa exige raciocínio fisiopatológico próprio. Pensar antes de tratar.

Proteinúria
>3,5 g/24h
Albumina
<3 g/dL
Hematúria
dismórfica
Queda TFG
nefrítica
01 / Anatomia

O glomérulo.

O glomérulo é um tufo de capilares fenestrados envolvido pela cápsula de Bowman. Compreender a barreira de filtração glomerular é compreender por que perdemos proteínas (nefrótica) ou hemácias (nefrítica). A lesão da membrana de filtração é a marca de toda glomerulopatia, e seu registro é a proteinúria e/ou a hematúria glomerular.

Forças de Starling no glomérulo

  • Pressão hidrostática capilar — empurra a filtração
  • Pressão oncótica capilar — retém o plasma
  • Pressão hidrostática do espaço de Bowman — opõe-se à filtração
  • Pressão oncótica do espaço de Bowman — geralmente desprezível (normalmente sem proteína)
  • Permeabilidade da membrana de filtração — fator-chave alterado nas glomerulopatias

Camadas da barreira de filtração

1
Endotélio capilar fenestrado

Poros (fenestrações) ~70–100 nm. Primeiro filtro — barra elementos celulares e a maioria das proteínas plasmáticas. Coberto por glicocálice rico em cargas negativas.

2
Membrana basal glomerular (MBG)

Trilaminar (lâmina rara interna + densa + rara externa). Rica em colágeno IV (cadeias α3α4α5 — alvo no Goodpasture), laminina e heparan-sulfato. Atua como filtro seletivo por tamanho e por carga (cargas negativas repelem albumina).

3
Podócitos com pedicelos e fendas de filtração

Células epiteliais viscerais da cápsula de Bowman, com prolongamentos primários e secundários (pedicelos) que se interdigitam. As fendas de filtração entre pedicelos vizinhos têm o diafragma de fenda (slit-diaphragm) — proteínas como nefrina e podocina são essenciais. Filtro final por tamanho.

4
Célula mesangial

No interstício entre alças capilares. Função estrutural, contrátil e fagocítica. Alterações mesangiais explicam quadros como nefropatia por IgA e nefropatia diabética.

A barreira em camadas

Luz capilar Sangue · plasma · células
Endotélio fenestrado Fenestras ~70–100 nm · glicocálice (–)
Membrana basal glomerular Colágeno IV α3α4α5 · laminina · heparan-sulfato (–)
Podócitos + fendas Pedicelos · nefrina · podocina · slit-diaphragm
Espaço de Bowman Filtrado glomerular · vai ao TCP

Por que isto importa clinicamente?

  • Dano predominante a podócitos / MBG → perda da seletividade por carga e tamanho → PROTEINÚRIA MACIÇA → síndrome nefrótica
  • Dano inflamatório com proliferação + ruptura da MBG → hemácias e cilindros hemáticos no filtrado → HEMATÚRIA DISMÓRFICA + queda da TFG → síndrome nefrítica
  • Os podócitos não se regeneram — toda perda é permanente. Daí a urgência terapêutica.

Como diferenciar a proteinúria glomerular?

  • História: "espuma na urina" persistente, que não some após a descarga — pista clínica
  • Quantificação: proteinúria de 24h ou relação proteína/creatinina (P/Cr) em amostra isolada (P/Cr > 3,5 ≈ nefrótica)
  • Maciça: proteinúria > 3,5 g/dia OU albumina sérica < 3 g/dL

Hematúria glomerular vs não-glomerular

CaracterísticaGlomerularNão-glomerular
Cor"Coca-cola", chá escuroVermelha, com coágulos
HemáciasDismórficas (acantócitos)Eumórficas (isomórficas)
Cilindros hemáticosPresentes (patognomônico)Ausentes
Proteinúria associadaFrequente, significativaMínima
OrigemGlomérulo (nefrítica, AUA, IgA)Trato urinário (cálculo, tumor, ITU)
02 / Síndromes

Nefrótica vs nefrítica.

Diante de qualquer paciente com alteração urinária, a primeira pergunta é: qual síndrome? Nefrótica e nefrítica são síndromes clínicas — não doenças. Refletem o tipo de lesão glomerular e direcionam toda a investigação subsequente.

Contraste fisiopatológico

Síndrome Nefrótica

Dano podocitário · perda de proteína.

  • Proteinúria maciça > 3,5 g/24h (P/Cr > 3,5)
  • Hipoalbuminemia < 3 g/dL
  • Edema (frequentemente periorbitário e em MMII, anasarca em casos graves)
  • Dislipidemia (síntese hepática compensatória de proteínas, inclusive lipoproteínas)
  • Lipidúria (cilindros graxos, "corpos ovais gordurosos")
  • Hipercoagulabilidade (perda de antitrombina III, ↑ fibrinogênio)
  • Imunodeficiência (perda de IgG, complemento)
  • Mecanismo: dano podocitário (perda do slit-diaphragm) com aumento de permeabilidade glomerular a proteínas
  • Complicações: trombose de veia renal (TVR), TEP, infecções (perda IgG), perda progressiva de função renal
  • Sedimento urinário: "inativo" — pouca hematúria, sem cilindros hemáticos; cilindros graxos e hialinos

Síndrome Nefrítica

Inflamação glomerular · queda da TFG.

  • Hematúria DISMÓRFICA (acantócitos) + cilindros hemáticos
  • HAS (retenção hidrossalina + ativação RAA)
  • Oligúria e/ou queda da TFG
  • Edema (geralmente menos volumoso que nefrótica)
  • Proteinúria sub-nefrótica (~1–3 g/24h)
  • Leucocitúria (estéril) possível
  • Mecanismo: inflamação glomerular com proliferação celular (mesangial/endotelial/epitelial) + ruptura da MBG
  • Padrão histológico: proliferativo · crescentes (GNRP) · imunocomplexos
  • Apresentação grave: GNRP (glomerulonefrite rapidamente progressiva) — perda de função em semanas
  • Sedimento urinário: "ativo" — hemácias dismórficas, cilindros hemáticos, ± leucocitários

Fisiopatologia do edema na nefrótica

Dois mecanismos coexistem:

  1. "Underfill" clássico: hipoalbuminemia → ↓ pressão oncótica plasmática → escape de fluido ao interstício → hipovolemia relativa → ativação do SRAA → retenção de Na/H₂O → edema.
  2. "Overfill" (atualmente mais aceito como principal): proteinúria → filtrado contém plasminogênio → ativação tubular de plasmina → ativação direta dos canais ENaC no ducto coletor → retenção primária de Na/H₂O → edema.

Por isso o paciente nefrótico pode estar euvolêmico ou até hipervolêmico apesar da hipoalbuminemia.

Alterações urinárias assintomáticas (AUA)

Hematúria glomerular e/ou proteinúria sem sintomas clínicos. Apenas alterações laboratoriais. Achado comum, p. ex., em jovens com IgA inicial, doença de membrana basal fina, GESF leve. Requer seguimento e avaliação progressiva.

Tabela-síntese

AspectoNefróticaNefrítica
Proteinúria> 3,5 g/24h1–3 g/24h (sub-nefrótica)
HematúriaAusente/discretaDismórfica + cilindros hemáticos
Albumina< 3 g/dLPouco alterada
HASVariávelMarcante
TFGGeralmente preservadaQueda aguda/subaguda
EdemaImportante (periorbitário, anasarca)Discreto a moderado
DislipidemiaSimNão
Lesão histológicaPodocitopatia / espessamento MBGProliferação · crescentes · ruptura MBG
SedimentoInativo (cilindros graxos)Ativo (hemáticos, leucocitários)
03 / Etiologia

Causas da nefrótica.

Diante de síndrome nefrótica, pergunte sempre: primária ou secundária? A causa mais comum em adultos no mundo real é a nefropatia diabética — não esqueça do óbvio antes de pensar em zebras.

Glomerulopatias primárias

Pediátrica

Doença por lesão mínima (DLM)

  • Quem? Criança (causa #1 de nefrótica em crianças, ~85% dos casos <10 anos). Pode ocorrer no adulto.
  • Padrão: Síndrome nefrótica pura, súbita; podocitopatia.
  • Microscopia óptica: normal. Microscopia eletrônica: fusão difusa dos pedicelos.
  • IF: negativa (sem imunocomplexos).
  • Tratamento: corticoide responsiva (90% das crianças). Recidivas frequentes.
  • Anticorpo emergente: antinefrina (publicado nos últimos anos).
  • Associações: AINE, linfoma de Hodgkin (raro, em adultos).
Adulto / Negro

Glomeruloesclerose segmentar e focal (GESF)

  • Quem? Adulto, mais prevalente em pacientes negros (associação com variantes do gene APOL1).
  • Padrão: Síndrome nefrótica, frequentemente com hematúria e HAS. Pode ter componente "misto".
  • Histologia: esclerose focal (alguns glomérulos) e segmentar (parte do tufo).
  • Subtipos:
    • Primária — antinefrina; fator circulante de permeabilidade.
    • Secundária — HAS, obesidade, DM, redução de massa renal (rim único, refluxo, oligonefronia).
    • Genética — mutações em nefrina, podocina, NPHS1/NPHS2, APOL1.
    • Associada a vírus / drogas — HIV (forma colapsante), pamidronato, heroína IV, interferon.
  • Prognóstico: 50% evoluem para DRC em 5–10 anos.
  • Recorrência pós-transplante: ~30–50% nas formas primárias — clássico de prova.
  • Tratamento: IECA/BRA + corticoide; calcineurínicos (ciclosporina) ou rituximabe em refratários.
Adulto · Anti-PLA2R

Glomerulonefrite membranosa (GNM)

  • Quem? Adulto (40–60 anos), homem caucasiano. Causa #1 de nefrótica primária no adulto.
  • Padrão: Síndrome nefrótica insidiosa. Maior risco de trombose entre todas as glomerulopatias (especialmente TVR).
  • Histologia: espessamento difuso da MBG; "spikes" à coloração com prata; depósitos subepiteliais à microscopia eletrônica.
  • IF: IgG e C3 granular ao longo da MBG.
  • Primária (~70%): autoanticorpo anti-PLA2R (receptor de fosfolipase A2 tipo M). Anti-THSD7A em pequena fração.
  • Secundária (~30%): rastrear neoplasias (cólon, mama, pulmão, melanoma), hepatite B, LES (classe V), drogas (ouro, penicilamina, AINE), sífilis.
  • Evolução: regra dos terços — 1/3 remite, 1/3 persiste, 1/3 progride.
  • Tratamento: antiproteinúrico universal; imunossupressão (esquema Ponticelli — corticoide + ciclofosfamida alternados; ou rituximabe).
Mista · C3 ↓

Glomerulonefrite membranoproliferativa (GNMP)

  • Quem? Adolescente/adulto. Padrão raro no Brasil, frequentemente secundário.
  • Padrão clínico: pode ser nefrítico, nefrótico ou misto — variável.
  • Histologia: inflamação + hipercelularidade mesangial; espessamento da MBG com aparência em "duplo contorno" ou tram-track.
  • Complemento: tipicamente C3 ↓ (e por vezes C4 ↓).
  • Associações: hepatite C + crioglobulinemia, endocardite, abscessos crônicos, LES, gamopatias monoclonais. Hoje subdividida pela IF em mediada por imunocomplexos ou por via alternativa do complemento (C3 glomerulopatia).
  • Tratamento: tratar causa de base; IECA/BRA, imunossupressão em formas primárias persistentes; eculizumabe em casos selecionados.

Glomerulopatias secundárias

Causa MAIS COMUM

Nefropatia diabética

  • Causa mais comum de DRC em diálise no Brasil e no mundo. Etiologia número 1 de nefrótica em adulto na prática.
  • Evolução: microalbuminúria → macroalbuminúria → síndrome nefrótica franca → DRC.
  • Histologia: expansão mesangial difusa; nódulos de Kimmelstiel-Wilson (patognomônicos); hialinose arteriolar.
  • Pistas clínicas: longo tempo de DM (geralmente > 10 anos no DM1), retinopatia frequentemente presente.
  • Tratamento: controle glicêmico + pressórico (alvo PA < 130/80) + IECA/BRA + iSGLT2 (canagliflozina, empagliflozina, dapagliflozina — reduzem desfecho renal); finerenona; estatina.
Vermelho-Congo (+)

Amiloidose renal

  • AL (cadeia leve) — discrasia de plasmócitos, mieloma múltiplo.
  • AA (proteína A sérica) — inflamação crônica (AR, doenças inflamatórias intestinais, infecções crônicas como TB, bronquiectasia).
  • Histologia: depósitos amorfos eosinofílicos; coloração de Vermelho-Congo (+) com birrefringência verde-maçã à luz polarizada.
  • Clínica: síndrome nefrótica + envolvimento sistêmico (cardíaco, neuropatia, macroglossia).
  • Diagnóstico: imunoeletroforese sérica + urinária; biópsia (renal, gordura abdominal, reto).
Classes I–VI

Nefrite lúpica

  • Classe V (membranosa) → nefrótica.
  • Classes III (focal) e IV (difusa) → padrão proliferativo → nefrítica (mais grave).
  • Pistas: mulher jovem, FAN+, anti-DNAds ↑, C3/C4 ↓.
  • Biópsia obrigatória para classificar.
Viroses

HIV, HBV, HCV

  • HIV-associated nephropathy (HIVAN) — GESF colapsante, mais comum em negros, evolução rápida.
  • Hepatite B — geralmente GNM (mais comum em crianças endêmicas).
  • Hepatite C — classicamente GNMP com crioglobulinemia.
  • Tratamento: antivirais específicos (TARV, antivirais diretos para HCV).
Drogas

Drogas e neoplasias

  • AINE → DLM, nefrite intersticial.
  • Ouro, penicilamina, captopril alto-dose → GNM.
  • Heroína, pamidronato, interferon → GESF.
  • Neoplasias → buscar especialmente em GNM no adulto > 50 anos (cólon, mama, pulmão, melanoma, linfoma de Hodgkin associado a DLM).

Atalho de prova

  • Criança + nefrótica → DLM (até prova em contrário) → tratar corticoide empírico, biopsiar só se resistente
  • Adulto branco + nefrótica primária → pense GNM (anti-PLA2R)
  • Adulto negro + nefrótica → pense GESF (variantes APOL1)
  • Adulto com DM longo + nefrótica → nefropatia diabética (mais comum)
  • Mieloma + nefrótica → amiloidose AL
  • HIV + nefrótica → GESF colapsante (HIVAN)
  • Hepatite C + crioglobulinas → GNMP
04 / Etiologia

Causas da nefrítica.

Síndrome nefrítica é o equivalente clínico do glomérulo inflamado. A apresentação varia da hematúria silenciosa à GNRP fulminante. Use complemento, sorologias e — quando indicado — biópsia para diferenciar.

Principais glomerulopatias nefríticas

Criança · pós-infecção

GN pós-estreptocócica

  • Quem? Criança 4–14 anos, 1–3 semanas após faringite (latência ~1–2 sem) ou impetigo (latência ~2–4 sem) por Streptococcus pyogenes nefritogênico.
  • Clínica: síndrome nefrítica clássica — edema, HAS, hematúria macroscópica ("coca-cola"), oligúria.
  • Laboratório: C3 ↓ (C4 normal), ASLO ↑ (após faringite) ou anti-DNase B ↑ (após impetigo).
  • Histologia: proliferação endocapilar difusa; "humps" subepiteliais (depósitos volumosos à ME); IF granular ("céu estrelado") com IgG e C3.
  • Evolução: autolimitada em crianças (95% remitem). Suporte: restrição hidrossalina, diurético, anti-hipertensivo. Não dar antibiótico para o glomérulo — só se infecção ativa.
  • C3 normaliza em ~8 semanas — se persistir baixo, repensar (GNMP, LES).
Mais comum mundialmente

Nefropatia por IgA (Berger)

  • Quem? Adulto jovem, maior prevalência na Ásia. É a glomerulopatia mais comum do mundo.
  • Clínica: classicamente hematúria macroscópica SINCRÔNICA a IVAS (mesmo dia, não 2–3 semanas depois — diferencia da pós-estrepto).
  • Pode cursar com: hematúria microscópica isolada (AUA), síndrome nefrítica, raramente nefrótica, GNRP (raro).
  • Histologia: proliferação mesangial. IF: depósitos de IgA no mesângio (diagnóstica).
  • Complemento: normal.
  • Forma sistêmica: Vasculite por IgA / Henoch-Schönlein — púrpura palpável + artralgia + dor abdominal + hematúria.
  • Tratamento: IECA/BRA antiproteinúrico; corticoide se progressão; eventualmente imunossupressão.
EMERGÊNCIA

GN rapidamente progressiva (GNRP)

  • Definição clínica: síndrome nefrítica + perda de função renal em dias a semanas.
  • Histologia comum: crescentes em > 50% dos glomérulos (proliferação de células parietais da cápsula de Bowman) — corresponde à GN crescêntica.
  • Três tipos pela IF:
    • Tipo I — Anti-MBG (Goodpasture): IF linear ao longo da MBG. Anti-MBG (+) (alvo: colágeno IV α3). Pulmão-rim → hemoptise + hematúria. Tratar urgente: plasmaférese + corticoide + ciclofosfamida.
    • Tipo II — Imunocomplexos: IF granular. LES, IgA grave, crioglobulinemia, pós-estrepto severo. Tratar a doença de base.
    • Tipo III — Pauci-imune (ANCA-associada): IF negativa ou escassa. ANCA (+). Espectro:
      • Granulomatose com poliangiíte (Wegener) — c-ANCA / anti-PR3; trato respiratório superior e inferior + rim
      • Poliangiíte microscópica — p-ANCA / anti-MPO; sem granulomas; capilarite pulmonar
      • Granulomatose eosinofílica com poliangiíte (Churg-Strauss) — p-ANCA; asma, eosinofilia, granulomas
      Tratar: corticoide + ciclofosfamida ou rituximabe ± plasmaférese.
  • Tempo é néfron — biópsia rápida e imunossupressão precoce.
Mista · C3 ↓

GNMP (forma nefrítica)

  • A GNMP pode se apresentar como nefrítica, nefrótica ou mista. Reveja em "Causas de nefrótica".
  • Quando nefrítica: HAS, hematúria dismórfica, queda lenta da TFG.
  • C3 ↓ persistente é pista.
LES · classes III/IV

Nefrite lúpica proliferativa

  • Classes III (focal) e IV (difusa) = padrão nefrítico/misto, mais grave.
  • FAN (+), anti-DNAds (+), C3 e C4 ↓.
  • Tratamento: indução com corticoide em pulso + ciclofosfamida ou micofenolato; manutenção com micofenolato/azatioprina; biológicos (belimumabe, voclosporina) em casos selecionados.

Decision tree — orientação inicial pela história + complemento

Sindromático
Síndrome nefrítica + complemento sérico
C3 ↓ / C4 normal Pós-estreptocócica

Criança, latência semanas, ASLO ↑, C3 volta em 8 sem.

C3 ↓ e C4 ↓ LES · GNMP por crioglobulinas

FAN, anti-DNAds, HCV, crioglobulinas.

Complemento normal IgA · GNRP pauci-imune · Anti-MBG

Avaliar IgA (Berger), ANCA, anti-MBG.

Diagnóstico diferencial por idade

IdadeNefróticaNefrítica
CriançaDLM (corticoide-responsiva)Pós-estreptocócica; IgA
Adolescente / adulto jovemDLM, GESFIgA (Berger); LES; ANCA
Adulto (40–60)GNM (anti-PLA2R); diabetesLES; IgA tardia; ANCA
IdosoDiabetes; amiloidose; GNM secundária a neoplasiaANCA; anti-MBG
Negro adultoGESF (APOL1); HIVANLúpus; ANCA
05 / Investigação

Como investigar.

A investigação parte da síndrome (nefrótica? nefrítica?) e busca causa secundária antes de presumir primária. A biópsia é frequentemente necessária — mas tem indicação e contraindicação.

Exames básicos

EAS / sedimento
+++
hemácias dismórficas · cilindros
Proteinúria 24h
>3,5
g/24h (nefrótica)
P/Cr
isolada
alternativa ao 24h
Creatinina · ureia
queda de TFG
Eletrólitos · gasometria
Na/K
acidose, hipercalemia
Albumina
<3
g/dL (nefrótica)
Perfil lipídico
dislipidemia nefrótica
Glicemia · HbA1c
DM?
causa #1

Sorologias e marcadores imunológicos

  • Complemento — C3 e C4: divide a investigação. C3 ↓: pós-estrepto, LES, GNMP, crioglobulinemia, endocardite. C3 + C4 ↓: LES, crioglobulinemia (HCV).
  • FAN / anti-DNAds / anti-Sm: LES.
  • ANCA (c-ANCA/PR3, p-ANCA/MPO): vasculites pauci-imunes (Wegener, MPA, Churg-Strauss).
  • Anti-MBG: Goodpasture.
  • ASLO / anti-DNase B: pós-estreptocócica.
  • Anti-PLA2R: GNM primária (sensibilidade ~70%, alta especificidade).
  • Sorologia HBsAg, anti-HCV, HIV: sempre (especialmente GNM, GNMP, GESF).
  • Crioglobulinas: em HCV, GNMP, complemento baixo.
  • Imunoeletroforese sérica + urinária + cadeias leves livres: mieloma, amiloidose AL.
  • FAN + outros AAEs conforme suspeita.

Rastreio sistêmico

  • Neoplasias: rastreamento por idade/fatores de risco — colonoscopia, mamografia, TC de tórax, eletroforese (mieloma).
  • Infecções: HIV, HBV, HCV, VDRL/treponêmico, TB (Rx, IGRA), endocardite (eco se sopro/febre).
  • Imagem: US renal (tamanho, ecogenicidade, descartar obstrução); Rx/TC de tórax (TB, sarcoidose, hemorragia alveolar em Goodpasture/ANCA).
  • Genética: painel ou exoma em casos selecionados (GESF familiar, Alport, etc.).

Biópsia renal

Indicações clássicas

  • Síndrome nefrótica em adulto sem causa óbvia
  • Síndrome nefrítica com perda rápida da função (GNRP — urgência)
  • Hematúria persistente com proteinúria significativa
  • LES com envolvimento renal (sempre, para classificar)
  • Caso refratário ao tratamento empírico
  • Pré-transplante / pós-transplante (rejeição vs recorrência)

Contraindicações (relativas / absolutas)

  • Coagulopatia não corrigida (INR alto, plaquetopenia)
  • Hipertensão descontrolada
  • Atrofia renal bilateral / DRC avançada
  • Rim único ou anomalia anatômica grave
  • Infecção ativa (pielonefrite, abscesso)
  • Paciente não-colaborativo ou que não consegue ficar em decúbito ventral

Como interpreta a biópsia? O patologista descreve por microscopia óptica (proliferação, esclerose, crescentes, espessamento), imunofluorescência (IgG, IgA, IgM, C3, C4, C1q, kappa/lambda) e microscopia eletrônica (localização de depósitos: subendoteliais, subepiteliais, mesangiais; fusão de pedicelos). Cada combinação aponta para um diagnóstico.

Pistas histológicas memoráveis

AchadoDiagnóstico clássico
Microscopia óptica normal + fusão de pedicelos à MEDoença por lesão mínima
Esclerose focal e segmentarGESF
"Spikes" (prata) + depósitos subepiteliaisGNM
Duplo contorno / tram-trackGNMP
"Humps" subepiteliaisGN pós-estreptocócica
IgA mesangial (IF)Nefropatia por IgA
IF linear ao longo da MBGAnti-MBG (Goodpasture)
IF granular "full house" (IgA, IgG, IgM, C3, C1q)Nefrite lúpica
Crescentes > 50% dos glomérulosGNRP
Nódulos de Kimmelstiel-WilsonNefropatia diabética
Vermelho-Congo (+) com birrefringênciaAmiloidose
05B / Armadilhas

Pré-armadilhas clínicas.

Glomerulopatias são terreno fértil para erros clássicos. Conheça as armadilhas antes de cair nelas.

⚠ GNPE com complemento normal

A GN pós-estreptocócica cursa com C3 baixo em ~90% dos casos nas primeiras semanas. Se o complemento vier normal, questione o diagnóstico — pode ser nefropatia por IgA (que também segue faringite), nefrite lúpica, ou vasculite ANCA (complemento normal em todas elas). O C3 deve normalizar em 6–8 semanas: se não normalizar, reveja o diagnóstico e considere GNMP ou C3 glomerulopatia.

⚠ Nefropatia por IgA com hipertensão maligna

IgA é a nefropatia glomerular mais frequente no mundo, geralmente de evolução benigna. Mas em até 20–30% dos casos evolui para DRC. O pior cenário: IgA com HAS de difícil controle e proteinúria crescente — pode se apresentar com hipertensão maligna (papiledema, encefalopatia), mimetizando crise hipertensiva sem causa aparente. Não assuma benignidade apenas por ser IgA. Proteinúria > 1 g/dia + HAS = fator de risco independente de progressão → tratar agressivamente (IECA/BRA, corticoide em selecionados).

⚠ Nefrose lipoídea em adulto: não relaxe

Em crianças, a síndrome nefrótica corticossensível é quase sinônimo de DLM — boa notícia. Em adultos, DLM é rara (~10–15% das síndromes nefróticas primárias). O adulto com DLM responde ao corticoide, mas recidiva mais. Além disso, em adultos, DLM pode ser secundária (AINE, AINEs, linfoma de Hodgkin — descartar sempre). Biopsie o adulto nefrótico: não assuma DLM sem histologia.

⚠ GNM secundária mascarada

Glomerulonefrite membranosa (GNM) é a causa mais comum de nefrótica em adultos brancos acima de 50 anos. O anti-PLA2R positivo aponta para forma primária — mas 30% das GNM são secundárias: neoplasia (pulmão, cólon, mama — especialmente em homens >60 anos), HBV, LES, AINE. Anti-PLA2R negativo não exclui GNM primária, mas amplia a obrigação de buscar secundária. Nunca inicie imunossupressão sem screening oncológico e sorologias nesta faixa etária.

⚠ Síndrome nefrótica + dor lombar aguda = pensar trombose de veia renal

Dor lombar aguda unilateral + piora da proteinúria + hematúria franca + queda da TFG em paciente nefrótico (especialmente GNM) é trombose de veia renal até prova em contrário. Diagnóstico: angioTC ou angioRNM. Tratamento: anticoagulação plena (heparina → varfarina). Não espere para investigar.

05C / Interativo

Calculadoras clínicas.

Ferramentas para o dia a dia. Todos os cálculos rodam no navegador — nenhum dado sai daqui.

Estimativa de TFG
Cockcroft-Gault · CKD-EPI 2021
Índice Proteína / Creatinina urinária
Estimativa de proteinúria 24h em amostra isolada
Albuminúria / Albumina-Creatinina (ACR)
Classificação KDIGO · DRC · Nefropatia diabética
06 / Tratamento

Como tratar.

Toda glomerulopatia tem dois eixos terapêuticos: específico (tratar a causa) e geral (mitigar complicações da síndrome).

Medidas gerais — síndrome nefrótica

IECA / BRA
Ex.: enalapril 5–40 mg/dia · losartan 50–100 mg/dia
Antiproteinúrico de 1ª linha. Reduzem pressão glomerular e proteinúria 30–50%. Monitorar K+ e creatinina.
iSGLT2
Dapagliflozina 10 mg/dia · empagliflozina 10 mg/dia
Renoprotetor mesmo sem DM. Reduz progressão para DRC e proteinúria.
Estatina
Atorvastatina 10–40 mg/dia
Para dislipidemia nefrótica. Reduz risco cardiovascular.
Furosemida
40–240 mg/dia VO (escalonar)
Manejo do edema. Escada diurética: alça + tiazídico + poupador de K+ (espironolactona).
Anticoagulação
Varfarina · HBPM
Profilaxia em nefrótica grave (albumina < 2,5; GNM com proteinúria persistente). Risco-benefício individual.
Restrição sódica
< 2 g Na/dia
Pilar do manejo de edema e HAS.

Imunossupressão — quando e qual

Corticoide
Prednisona 1 mg/kg/dia · pulso de metilpred 0,5–1 g IV
DLM (1ª linha), GESF, lúpus, GNRP, IgA progressiva.
Ciclofosfamida
Pulso IV mensal · 0,5–1 g/m²
GNRP (Goodpasture, ANCA), nefrite lúpica grave, GNM (esquema Ponticelli).
Micofenolato
MMF 1–3 g/dia
Indução e manutenção em nefrite lúpica; alternativa em GNM, IgA.
Rituximabe
375 mg/m² semanal × 4 OU 1 g D0 + D14
GNM resistente, nefrite lúpica, ANCA (manutenção). Anti-CD20.
Calcineurínicos
Ciclosporina · tacrolimus
GESF, DLM cortico-dependente, GNM, lúpus.
Plasmaférese
5–7 sessões
Goodpasture (essencial), ANCA com hemorragia alveolar ou Cr > 5,7, crioglobulinemia grave.

Tratamento específico por entidade

Doença1ª linhaNotas
DLM (criança)Prednisona 60 mg/m²/dia 4–6 semResposta > 90%. Recidivas comuns.
DLM (adulto)Prednisona 1 mg/kg/diaResposta mais lenta, considerar imunossupressor poupador.
GESF primáriaIECA/BRA + corticoide alto-doseCiclosporina/rituximabe se resistente.
GNM primáriaAntiproteinúrico universal · Ponticelli ou rituximabe se persistenteEsperar 6 meses (1/3 remite espontaneamente).
GN pós-estreptoSuporte (diurético, anti-HAS)Autolimitada. ATB só se infecção ativa.
IgAIECA/BRA · corticoide se progressãoBudesonida de liberação ileal em casos selecionados.
GoodpasturePlasmaférese + corticoide + ciclofosfamidaEmergência. Iniciar antes da Cr atingir >5,7 (se possível).
ANCA (Wegener, MPA)Indução: corticoide + ciclofosfamida OU rituximabeManutenção: rituximabe ou azatioprina.
Nefrite lúpica III/IVPulso corticoide + MMF ou ciclofosfamidaManutenção com MMF/azatioprina. Hidroxicloroquina sempre.
Nefropatia diabéticaIECA/BRA + iSGLT2 + controle glicêmicoFinerenona reduz desfechos renais. Sem imunossupressão.
Amiloidose ALBortezomibe + dexametasona ± autotransplanteTratar a discrasia.
HIVANTARV + IECA/BRACessou a era do diálise universal.
GNMP por HCVAntivirais diretos (DAA)Cura virológica trata a doença renal.

Não esqueça

  • IECA/BRA = pilar universal — antiproteinúrico em qualquer glomerulopatia (exceto se contraindicado por Cr/K+).
  • iSGLT2 mudou o jogo — protege rim com ou sem diabetes.
  • Vacinação (pneumococo, influenza, hepatite B) antes de imunossupressão.
  • Profilaxia para PCP (sulfa) em alta-dose de corticoide.
  • Tratamento da causa secundária (HCV, HIV, neoplasia) pode tratar a glomerulopatia.
07 / Pense Comigo

Perguntas que destravam.

Cinco perguntas que separam quem decorou de quem entendeu. Tente responder antes de abrir.

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O que difere síndrome nefrótica de nefrítica fisiopatologicamente?
Pense primeiro

Onde está o "dano dominante" na barreira de filtração — e qual é a resposta celular? Proteinúria ou hematúria são apenas marcadores; o que define a síndrome é o tipo de lesão.

Resposta

Nefrótica = dano à barreira de seletividade (sobretudo podócitos + MBG) sem inflamação ativa significativa. Os pedicelos se fundem (DLM), a MBG espessa (GNM) ou se esclerosa (GESF). Resultado: perda maciça de proteína, sedimento "inativo".

Nefrítica = inflamação glomerular com proliferação celular (mesangial, endotelial, parietal) e ruptura da MBG. Mesmo o capilar deixa passar hemácias e leucócitos. A inflamação reduz a superfície de filtração → queda da TFG, oligúria, HAS. Resultado: hematúria dismórfica, cilindros hemáticos, sedimento "ativo".

Essa diferença explica também o complemento: a maioria das nefríticas é por imunocomplexos, consumindo C3 — daí pedirmos complemento de início.

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Por que o paciente nefrótico trombosa?
Pense primeiro

Se o paciente "perde proteína" pela urina, ele perde só albumina? Pense em fatores de coagulação e em sua hidrofilia.

Resposta

O paciente nefrótico tem desequilíbrio do sistema de coagulação:

  • Perda urinária de anticoagulantes naturais — antitrombina III (moderada/baixa massa molecular), proteína S, proteína Z.
  • ↑ síntese hepática compensatória de fibrinogênio, fator V, VIII e von Willebrand (junto com lipoproteínas — daí a dislipidemia).
  • Hemoconcentração (em casos com hipovolemia) e estase (edema, repouso).
  • Plaquetas hiperativas (aumento de tromboxane).

O risco é particularmente alto na GNM (1ª em incidência) e quando albumina < 2,5 g/dL. Os locais clássicos: trombose de veia renal (dor lombar, piora súbita da função, hematúria) e TEP. Justifica anticoagulação profilática em casos selecionados.

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Quando indicar biópsia renal?
Pense primeiro

Que diagnósticos posso tratar sem biópsia? Em que cenários a biópsia muda a conduta?

Resposta

Indicações que mudam conduta:

  • Nefrótica em adulto sem causa óbvia (definir entre DLM, GESF, GNM, secundárias).
  • GNRP / nefrítica com perda rápida de função — urgência diagnóstica.
  • Nefrite lúpica — sempre, para classificar (III, IV, V) e direcionar imunossupressão.
  • Hematúria persistente + proteinúria significativa.
  • Refratários ao tratamento empírico.

Quando posso tratar sem biópsia?

  • Criança com nefrótica clássica → tratar como DLM empiricamente; biopsiar só se cortico-resistente ou atípica.
  • Nefropatia diabética com curso típico (DM longo, retinopatia, proteinúria progressiva, sem hematúria).
  • GN pós-estreptocócica clássica (criança, latência, ASLO+, C3↓ que normaliza).

Contraindique se: coagulopatia, HAS não controlada, rim único, atrofia bilateral, infecção ativa.

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Como interpretar complemento baixo na síndrome nefrítica?
Pense primeiro

Quais doenças consomem complemento pela via clássica? Quais pela alternativa? E quais não consomem?

Resposta

C3 ↓ isolado (via alternativa):

  • GN pós-estreptocócica (transitório, normaliza em ~8 sem)
  • C3 glomerulopatia / GNMP por via alternativa
  • Endocardite, abscessos

C3 + C4 ↓ (via clássica — imunocomplexos):

  • LES (anti-DNAds positivo, FAN)
  • Crioglobulinemia (HCV)
  • GNMP mediada por imunocomplexos

Complemento NORMAL:

  • Nefropatia por IgA
  • GNRP pauci-imune (ANCA — Wegener, MPA, Churg-Strauss)
  • Doença anti-MBG (Goodpasture)
  • Vasculite por IgA (Henoch-Schönlein)

Atalho de prova: nefrítica + complemento baixo → pense pós-estrepto, LES, GNMP. Complemento normal → IgA, ANCA, anti-MBG.

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Por que GESF recorre após transplante renal?
Pense primeiro

Se o glomérulo doente foi substituído por um novo, o que sobra do hospedeiro que poderia agredir o enxerto?

Resposta

Na GESF primária há evidência de fator circulante de permeabilidade glomerular (provavelmente suPAR e/ou outros mediadores, com algum papel emergente de anticorpos contra nefrina) que permanece no plasma do receptor após o transplante. Esse fator agride os podócitos do rim novo.

  • Recorrência ~30–50% nas formas primárias.
  • Tipicamente proteinúria nas primeiras horas/dias pós-transplante.
  • Plasmaférese reduz o fator e pode reverter a recorrência.
  • Nas formas genéticas e secundárias, a recorrência é rara — o defeito estava nos podócitos do rim doente, não no soro.

Esse fenômeno é prova viva de que a "GESF primária" é uma doença sistêmica de filtro, não apenas histológica.

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Por que GNPE (pós-estreptocócica) é autolimitada mas a doença anti-MBG não é?
Pense primeiro

O que aciona cada uma dessas respostas imunes? O antígeno é o mesmo? O que acontece com o estímulo ao longo do tempo em cada caso?

Resposta

Na GNPE, os imunocomplexos são formados por antígenos estreptocócicos circulantes (ex.: SPEB — cisteína-protease, nephritis-associated plasmin receptor) que se depositam nos glomérulos ativando complemento via via alternativa. O antígeno é externo e temporário: uma vez que a infecção é controlada (espontaneamente ou com antibiótico), o estímulo cessa, os imunocomplexos são gradualmente eliminados, e o complemento normaliza em ~6–8 semanas. A doença se autolimita porque o alvo desaparece.

Na doença anti-MBG (Goodpasture), o alvo é o domínio NC1 da cadeia α3 do colágeno IV — uma estrutura própria do organismo, presente permanentemente na MBG e na membrana basal alveolar. Os autoanticorpos são produzidos pelos linfócitos B do próprio paciente. O estímulo não cessa: a proteína está sempre ali, e enquanto houver linfócitos autorreativos, haverá produção de anticorpos. Resultado: lesão progressiva e frequentemente irreversível.

Síntese clínica: GNPE → "agressão passageira por hóspede indesejado". Anti-MBG → "guerra interna contra estrutura própria". Daí a GNRP de anti-MBG precisar de plasmaférese urgente + imunossupressão intensa enquanto função renal ainda existe.

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Qual a diferença mecanística entre proteinúria seletiva e não-seletiva? Tem valor clínico real?
Pense primeiro

A barreira glomerular filtra proteínas por dois critérios simultâneos. Quando apenas um está comprometido, o padrão de proteínas perdidas é diferente do que quando ambos estão. Quais são esses dois critérios?

Resposta

A barreira glomerular filtra por tamanho (fenestras, MBG, slit-diaphragm) e por carga elétrica (o heparan-sulfato da MBG e o glicocálice endotelial têm carga negativa e repelem a albumina, também negativa).

  • Proteinúria seletiva: há perda da barreira de carga com preservação relativa da barreira de tamanho. São perdidas principalmente proteínas menores e negativas (albumina, transferrina), mas não as grandes (IgG, α2-macroglobulina). Índice de seletividade (IgG/transferrina) < 0,1. Aponta para DLM (o processo é puramente podocitário com fusão de pedicelos — estrutural mínima, mas perda de carga).
  • Proteinúria não-seletiva: há destruição tanto da barreira de carga quanto da de tamanho. Proteínas grandes (IgG) e pequenas (albumina) vazam igualmente. Índice > 0,2. Aponta para lesão estrutural maior (GESF, GNM, nefropatia diabética).

Valor clínico atual: Na era pré-biópsia pediátrica, o índice de seletividade era muito usado para predizer DLM (alta seletividade → resposta ao corticoide). Hoje a biopsia é o padrão-ouro em adultos. Mas o conceito continua importante para entender por que DLM perde albumina sem macroglobulinas — e por que responde ao corticoide tão bem (lesão apenas funcional/estrutural inicial, reversível).

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Por que o diabetes mellitus causa hiperfiltração glomerular ANTES de causar proteinúria?
Pense primeiro

Pense nas alças de Henle e no papel do sódio: o que acontece com a reabsorção de glicose e sódio no TCP em hiperglicemia? Como isso se traduz na regulação da TFG?

Resposta

Em condições normais, a mácula densa do JGA monitora a concentração de NaCl no túbulo distal (retroalimentação túbulo-glomerular — TGF). Se NaCl cai no túbulo distal, a mácula densa sinaliza para dilatar a arteríola aferente → aumentar TFG (feedback negativo para manter homeostase).

No DM, o excesso de glicose no TCP ativa os co-transportadores SGLT2, que reabsorvem glicose + sódio em excesso. Isso significa que menos sódio chega à mácula densa. A mácula densa "lê" isso como hipovolemia tubular → dilata a aferente e contrai a eferente → ↑ pressão de filtração → hiperfiltração (TFG > 120–130 mL/min).

Nesta fase, a barreira de filtração ainda está morfologicamente intacta — só há hiperpressão. Por isso a TFG está alta, mas ainda sem proteinúria significativa. Com tempo, a hiperpressão glomerular crônica danifica o podócito, espessa a MBG, expande o mesângio → aparecem os nódulos de Kimmelstiel-Wilson e a microalbuminúria (primeira marca de lesão estrutural).

Aplicação clínica direta: os inibidores de SGLT2 (gliflozinas) revertem exatamente esse mecanismo — aumentam a entrega de sódio à mácula densa → vasoconstrição aferente → reduz hiperfiltração → nefroproteção comprovada. Isso explica seu efeito independente do controle glicêmico.

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Por que a nefropatia por IgA é a mais prevalente no mundo mas raramente "cai na prova" como diagnóstico primário?
Pense primeiro

O que torna uma doença "boa para provar"? Diagnóstico clínico vs histológico. Tratamento específico vs suporte. E o espectro Berger-IgA-Henoch: são a mesma doença?

Resposta

A nefropatia por IgA (doença de Berger) é, de fato, a glomerulopatia primária mais comum no mundo (20–25% de todas as biopsias renais globalmente). Mas provas clínicas preferem diagnósticos que:

  1. Têm apresentação clínica "típica e fechada" — IgA tem apresentação variável: hematúria macroscópica sincrônica (após infecção de VAS), AUA assintomática, síndrome nefrótica, GNRP.
  2. Têm tratamento específico baseado em evidência clara — IgA não tem tratamento-alvo, só estratificação de risco e IECA/BRA na proteinúria.
  3. Requerem decisão dicotômica clara — IgA é um espectro; 30% progridem, 70% não.

O espectro IgA merece atenção:

  • Nefropatia por IgA (Berger): adultos, depósito mesangial de IgA1, sem vasculite sistêmica. Diagnóstico exclusivamente histológico. Forma mais comum.
  • Nefrite de Henoch-Schönlein (vasculite por IgA): a mesma imunofluorescência (IgA mesangial) + púrpura palpável, artralgia, dor abdominal. É uma vasculite sistêmica de pequenos vasos — o rim é um dos órgãos-alvo. Crianças >> adultos.

Mecanismo comum: produção de IgA1 anormalmente glicosilada (galactose-deficiente) → anticorpos anti-IgA1 → imunocomplexos IgA1/IgG → depósito mesangial → ativação do complemento (via alternativa e lectinas) → inflamação glomerular.

Portanto: prova clínica pede pós-estrepto (C3 baixo + latência), DLM (criança + nefrótica + resposta a corticoide), GNRP (crescentes + queda rápida), Goodpasture (hemoptise + nefrítica). IgA é mais cobrada em questões de histologia ou como diagnóstico diferencial de hematúria glomerular.

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Como funciona a classificação OMS/ISN-RPS da nefrite lúpica (classes I–VI) e por que a classe importa para o tratamento?
Pense primeiro

O lúpus atinge o rim por depósito de imunocomplexos. Mas esses depósitos podem se localizar em lugares diferentes do glomérulo — mesângio, subendotelial, subepitelial. Cada localização produz um padrão histológico e uma síndrome clínica diferente. Por isso a biópsia é mandatória.

Resposta

A classificação ISN/RPS 2003 (revisada 2018) categoriza a nefrite lúpica em seis classes com base na localização e extensão dos depósitos imunes:

I
Mesangial mínima

Microscopia óptica normal, IF positivo em mesângio. Sem tratamento específico. Raro ver na biópsia.

II
Mesangial proliferativa

Proliferação mesangial leve. Sedimento ativo discreto, proteinúria sub-nefrótica. Tratamento: controle do LES sistêmico. Prognóstico renal bom.

III
Focal (< 50% dos glomérulos)

Proliferação endocapilar/extracapilar focal. Sedimento ativo, HAS, queda moderada da TFG. Tratamento de indução: corticoide + micofenolato (ou ciclofosfamida). Subclasses A (ativa), C (crônica), A/C.

IV
Difusa (≥ 50% dos glomérulos) — a mais grave

Proliferação difusa, "wire loop" (depósitos subendoteliais maciços). GNRP possível. Tratamento agressivo: indução com pulso de metilprednisolona + micofenolato ou ciclofosfamida; manutenção com micofenolato + HCQ. Maior risco de DRC terminal.

V
Membranosa

Depósitos subepiteliais + espessamento da MBG. Síndrome nefrótica. Pode coexistir com III ou IV (V+III, V+IV — mais grave). Tratamento: IECA/BRA + HCQ; imunossupressão se nefrótica ou coexistência com proliferativa.

VI
Esclerosante avançada (≥ 90% esclerose)

Fibrose irreversível. Imunossupressão não tem benefício — pode prejudicar. Avaliar transplante. Tratamento de suporte para DRC.

Por que isso importa? Classes III e IV requerem indução imunossupressora intensa; classe V pura é mais conservadora; classe VI é poupada de imunossupressão. Sem biópsia, errar o tratamento é tornar o lúpus mais letal.

08 / Quiz

Teste seu raciocínio.

Sete questões. Pense antes de clicar — cada alternativa errada é uma armadilha didática.

Q1. Criança de 5 anos com edema periorbitário matinal há 4 dias. EAS: proteinúria 4+ sem hematúria. Albumina 1,9 g/dL, colesterol 380 mg/dL. Diagnóstico mais provável e conduta inicial?
Q2. Homem 55a, edema MMII há 1 mês. Proteinúria 6 g/24h, Cr 1,1, albumina 2,5. Anti-PLA2R positivo. Qual o passo MAIS adequado a seguir?
Q3. Mulher 30a com hemoptise nas últimas 48h, hematúria macroscópica e Cr aumentando de 0,9 para 3,2 em uma semana. EAS: hemácias dismórficas, cilindros hemáticos. Qual o achado MAIS provável?
Q4. Adolescente de 17 anos com hematúria macroscópica iniciada no MESMO DIA de quadro de IVAS. EAS: hemácias dismórficas. Cr 1,0, complemento normal. Diagnóstico mais provável?
Q5. Mulher 28a com poliartrite, lesões cutâneas malares, FAN 1:640. Cr 1,8, EAS com hemácias dismórficas + cilindros hemáticos + proteinúria 2 g/24h. C3 e C4 baixos. Qual a conduta?
Q6. Paciente com DM2 há 18 anos, retinopatia diabética proliferativa, proteinúria 5 g/24h, EAS sem hematúria, Cr 2,1. Qual a conduta MAIS adequada?
Q7. Criança 7a, 2 semanas após faringite tratada. Edema, urina escura tipo "coca-cola", PA 150/95. Cr 1,4. C3 baixo, C4 normal. Conduta?
Q8. Homem 60a, tabagista, com hematúria, hemoptise, sinusite crônica e queda da TFG em 3 semanas. p-ANCA positivo (anti-MPO). Qual o esquema terapêutico inicial?
09 / Resumo

Take-home messages.

01

Síndrome antes de doença

Pergunte sempre: nefrótica, nefrítica ou mista? Toda a investigação subsequente decorre dessa primeira pergunta.

02

A barreira em 3 camadas

Endotélio fenestrado · MBG · podócitos com fendas. Dano podocitário = proteinúria; ruptura da MBG = hematúria.

03

Diabetes é a causa #1

Antes de pensar em zebras, lembre: nefropatia diabética é a etiologia mais comum de nefrótica no adulto real.

04

DLM na criança

Criança com nefrótica = DLM até prova em contrário. Trate empiricamente com corticoide; biopsie só se atípica ou resistente.

05

GNM = anti-PLA2R

Adulto com nefrótica primária? Pense GNM. Pesquise PLA2R, rastreie neoplasia e hepatite B antes de imunossuprimir.

06

Berger é sincrônica

Hematúria + IVAS no MESMO DIA com complemento normal = IgA. Pós-estrepto tem latência de semanas e C3 baixo.

07

Complemento orienta

C3 ↓ isolado: pós-estrepto, GNMP. C3+C4 ↓: LES, crioglobulinemia. Normal: IgA, ANCA, anti-MBG.

08

GNRP é emergência

Perda de função em semanas + sedimento ativo = biopsie URGENTE. Anti-MBG, ANCA ou imunocomplexos — cada um seu protocolo.

09

Nefrótica trombosa

Perde antitrombina III; fígado sintetiza mais fibrinogênio. TVR e TEP são frequentes — anticoagule se albumina muito baixa, sobretudo em GNM.

10

IECA/BRA + iSGLT2

Pilares universais. Reduzem proteinúria e progressão. iSGLT2 mudou o jogo mesmo em paciente sem DM.

11

Biópsia muda conduta

Indicada em nefrótica em adulto, GNRP, LES, hematúria + proteinúria. Não biopsiar tudo — DLM da criança e DN típica tratam-se sem biópsia.

12

Vacine antes de imunossuprimir

Pneumococo, influenza, HBV. Profilaxia para PCP em corticoide alto-dose. Tratar HCV/HIV pode tratar a glomerulopatia.

10 / Framework

Pense em 5 passos.

Um roteiro fisiopatológico, do sedimento à biópsia, diante de qualquer paciente com proteinúria/hematúria. Use sempre — não pule etapas.

1
Passo 1 · Síndrome
Qual síndrome?
Nefrótica? Nefrítica? Mista? AUA? Define toda a investigação.
NEFRÓTICA
Proteinúria > 3,5 + albumina < 3 + edema · sedimento "inativo".
NEFRÍTICA
Hematúria dismórfica + cilindros hemáticos + HAS + queda da TFG.
Toque para aprofundarRecolher
Como dividir clinicamente
  • Edema + espuma + albumina baixa → nefrótica
  • HAS de início + urina "coca-cola" + queda da TFG → nefrítica
  • Achado isolado em check-up → AUA (hematúria glomerular ou proteinúria assintomática)
  • Misto existe — frequentemente GNMP, lúpus, GNRP, IgA grave
Não esqueça
  • Diferenciar hematúria glomerular (dismórfica, cilindros) de urológica (eumórfica, coágulos)
  • Excluir proteinúria ortostática em adolescente (urina noturna negativa)
2
Passo 2 · Quantificação
Quanto perde? Como está o sedimento?
Proteinúria 24h ou P/Cr? Sedimento ativo ou inativo?
QUANTIFICAR
Proteinúria 24h (padrão-ouro) ou relação proteína/creatinina em amostra isolada (prático).
SEDIMENTO
Hemácias dismórficas + cilindros hemáticos = ativo (nefrítico). Cilindros graxos + lipidúria = nefrótico.
Toque para aprofundarRecolher
Pontos de corte
  • P/Cr > 3,5 ou proteinúria 24h > 3,5 g = nefrótica
  • 1–3 g/24h = sub-nefrótica (frequente em nefrítica)
  • < 300 mg/24h = normal · 30–300 mg = microalbuminúria (DM)
O sedimento conta uma história
  • Cilindros hemáticos → origem glomerular nefrítica
  • Cilindros leucocitários → pielo, nefrite intersticial, lúpus
  • Cilindros graxos / corpos ovais → nefrótica
  • Cilindros hialinos → inespecíficos
3
Passo 3 · Causa secundária
É secundária a quê?
Diabetes? Lúpus? Infecção viral? Neoplasia? Droga?
SECUNDÁRIA
Trate a causa de base: controle glicêmico, antiviral (HCV, HIV), retirar droga, tratar neoplasia.
PRIMÁRIA
Investigação dirigida por idade, padrão e biópsia.
Toque para aprofundarRecolher
Rastreio mínimo de causas secundárias
  • Diabetes — glicemia, HbA1c, fundoscopia (retinopatia)
  • LES — FAN, anti-DNAds, anti-Sm, C3, C4
  • Virais — HIV, HBsAg, anti-HCV; VDRL
  • Neoplasia — rastreamento por idade (cólon, mama, próstata, pulmão); eletroforese sérica/urinária
  • Drogas — AINE, lítio, captopril, ouro, heroína, pamidronato
  • Infecções crônicas — TB, endocardite, abscessos, hanseníase, esquistossomose
Pistas etiológicas
  • Adulto branco + GNM → rastrear PLA2R, neoplasia, HBV
  • Adulto negro + GESF → APOL1, HIV
  • HCV + crioglobulinas → GNMP
4
Passo 4 · Gravidade
Há sinais de alarme?
GNRP? Pulmão-rim? Sepse? Cr subindo rápido? Anasarca? Trombose?
SEM ALARME
Investigação ambulatorial dirigida.
EMERGÊNCIA
GNRP / pulmão-rim / hemorragia alveolar = internar, biopsiar urgente, imunossupressão precoce, considerar plasmaférese.
Toque para aprofundarRecolher
Red flags glomerulares
  • GNRP — perda de função em dias/semanas (Cr ↑ progressiva)
  • Hemoptise + hematúria — Goodpasture, ANCA
  • Sepse / endocardite com nefrite
  • Trombose de veia renal (dor lombar súbita, hematúria, piora função) em nefrótico
  • Anasarca refratária + insuficiência respiratória
  • Hiperpotassemia / acidose grave / uremia → diálise emergencial
5
Passo 5 · Conduta
Biópsia? Tratamento específico?
Biopsie quando muda conduta. Trate o eixo geral (IECA/BRA, iSGLT2, edema) + específico da etiologia.
UNIVERSAL
IECA/BRA + iSGLT2 + restrição sódica + manejo do edema + estatina + vacinação.
ESPECÍFICO
Corticoide, ciclofosfamida, MMF, rituximabe, plasmaférese — dirigido pela biópsia/etiologia.
Toque para aprofundarRecolher
Princípios
  • IECA/BRA sempre que tolerado — alvo proteinúria < 0,5–1 g/24h
  • iSGLT2 mesmo sem DM, se proteinúria significativa
  • Trate causa de base antes de imunossuprimir cegamente
  • Vacinar e dar profilaxia (PCP, antifúngico em casos específicos)
  • Reavaliar em 3–6 meses — proteinúria, função, complemento, autoanticorpos
Quando dialisar?
  • Hipercalemia refratária · acidose grave · uremia · sobrecarga refratária · intoxicação
  • GNRP com Cr muito alta — discutir início precoce

Raciocínio glomerular completo

Cinco passos, da síndrome ao tratamento. Se você passa por todos eles, dificilmente erra o diagnóstico — e jamais esquece de tratar o paciente como um todo, não só o néfron.