← Início
Caso Clínico · Nefrologia · Emergência

Hipercalemia
grave.

K⁺ 7,2 mEq/L. Onda T apiculada, QRS começando a alargar. Cada minuto sem cálcio é um minuto mais perto da fibrilação ventricular. Pense rápido — e na ordem certa.

K⁺ sérico
7,2
pH arterial
7,18
HCO₃⁻
12
ECG
T apic.
01 / Apresentação

O caso.

♂ 68 anos · DRC E4 · IECA + espironolactona · oligúria há 3 dias

Paciente masculino de 68 anos, hipertenso, diabético, com doença renal crônica estágio 4 (Cr basal 3,2 mg/dL, TFG ~22 mL/min), em uso de enalapril 20 mg, espironolactona 25 mg, furosemida 40 mg e metformina. Procura emergência por fraqueza muscular progressiva, parestesias periorais e "sensação de batimentos lentos". Refere oligúria há 3 dias, após episódio de diarreia tratado em casa com AINE. Ao exame: lentificado, hiporreflexo, FC 48 bpm irregular, PA 152/88. ECG: onda T apiculada e simétrica em V2-V5, PR alargado, QRS = 130 ms.

K⁺
7,2
mEq/L
Na⁺
138
mEq/L
Creatinina
5,8
mg/dL
Ureia
182
mg/dL
pH
7,18
arterial
HCO₃⁻
12
mEq/L
FC
48
bpm
QRS
130
ms

Reconheça o gatilho perfeito

DRC avançada (reserva renal mínima) + tripla agressão ao eixo renina-angiotensina-aldosterona: IECA bloqueia a aldosterona, espironolactona bloqueia o receptor mineralocorticoide e AINE reduz a TFG por vasoconstrição da arteríola aferente. Sobreposto a isso: depleção de volume pela diarreia + acidose metabólica desviando K⁺ do compartimento intracelular para o plasma. É a tempestade perfeita do potássio.

02 / Questão de entrada

Decisão em 60 segundos.

Q. Você está na emergência. K⁺ = 7,2 mEq/L, ECG com T apiculada e QRS alargado (130 ms), FC 48 bpm, paciente hiporreflexo. Qual a PRIMEIRA medida — antes de qualquer outra?
03 / Mecanismo

Por que o coração para.

O potássio é o íon que define o potencial de membrana de repouso (cerca de −90 mV no miócito). Quase 98% do K⁺ corporal está dentro das células; a relação K⁺ intra/extracelular (~140/4) é o que mantém esse gradiente. Quando o K⁺ extracelular sobe, a célula "vê" o exterior menos negativo — a membrana despolariza-se parcialmente.

1
Despolarização da membrana em repouso K⁺ extracelular alto reduz o gradiente → potencial de repouso passa de −90 mV para −70 ou −60 mV. A célula está cronicamente mais perto do limiar.
2
Inativação dos canais de sódio voltagem-dependentes Paradoxo central: a despolarização sustentada inativa canais de Na⁺ rápidos. Resultado: mesmo perto do limiar, a célula não consegue gerar um potencial de ação eficiente. Diminui a velocidade de condução.
3
Repolarização acelerada (T apiculada) Hiperatividade dos canais retificadores tardios de K⁺ encurta o potencial de ação e gera a onda T pontiaguda, simétrica e estreita — o primeiro sinal eletrocardiográfico.
4
Distúrbio progressivo de condução A queda na excitabilidade atrial reduz a amplitude da P (e depois a apaga); o nó AV e o sistema His-Purkinje conduzem mais lentamente → PR alarga, QRS alarga.
5
Onda sinusoidal e parada QRS funde-se à onda T formando padrão sinusoidal → degenera em fibrilação ventricular, taquicardia ventricular sem pulso, AESP ou assistolia. É reversível enquanto a membrana ainda for excitável.

A musculatura esquelética sente também

O mesmo mecanismo de despolarização-inativação acomete o músculo esquelético: fraqueza ascendente (geralmente flácida, com hiporreflexia), começando pelos membros inferiores e podendo evoluir para paralisia diafragmática. Parestesias periorais e arreflexia são sinais clássicos.

04 / Fisiologia

Onde mora o potássio.

A regra dos 98/2

Do potássio corporal total (~3.500 mEq em adulto de 70 kg), aproximadamente 98% está intracelular (140 mEq/L na célula) e apenas 2% é extracelular (3,5–5,0 mEq/L no plasma). Esse compartimento extracelular minúsculo é o que o eletrodo do laboratório enxerga — e é também o que o coração sente. Pequenos desvios geram grandes consequências.

Balanço externo vs interno

  • Balanço externo: entrada (dieta, ~100 mEq/dia) menos saída (90% rins, 10% trato gastrointestinal). É a homeostase de longo prazo.
  • Balanço interno: distribuição entre o compartimento intracelular e o extracelular. É a homeostase de curto prazo — minutos a horas.

Quem empurra o K⁺ para dentro da célula

1
Bomba Na⁺/K⁺-ATPase Troca 3 Na⁺ por 2 K⁺. É a base do gradiente. Estimulada por insulina, β2-adrenérgicos e aldosterona; inibida por digital.
2
Insulina Ativa a bomba Na⁺/K⁺-ATPase no músculo esquelético e fígado, deslocando K⁺ para dentro. Por isso é eficaz na emergência (efeito em 15-30 min).
3
Catecolaminas β2-adrenérgicas Salbutamol, adrenalina aumentam o AMPc → ativam a bomba. Útil terapeuticamente (nebulização de salbutamol).
4
Equilíbrio ácido-básico Acidose metabólica (especialmente inorgânica) faz H⁺ entrar na célula e K⁺ sair — eleva o K⁺ plasmático em ~0,2–0,4 mEq/L por queda de 0,1 no pH. Alcalose faz o contrário.
5
Osmolaridade Hiperosmolaridade (hiperglicemia descontrolada, manitol) desloca água para fora da célula e arrasta K⁺ junto — "drag" osmótico. Por isso o diabético descompensado pode ter K⁺ alto apesar de deplecionado.

O rim — guardião do balanço externo

O potássio é livremente filtrado no glomérulo, reabsorvido proximalmente e na alça de Henle, e secretado ativamente no túbulo coletor cortical pelas células principais. Esse passo final é o que determina a excreção urinária — e é regulado por:

Sistema renina-angiotensina-aldosterona em paciente "kalliemico"

Bloqueio em qualquer ponto desse eixo eleva K⁺:

  • IECA / BRA → angiotensina II ↓ → aldosterona ↓
  • Inibidores diretos de renina (aliskireno) → idem
  • Antagonistas mineralocorticoides (espironolactona, eplerenona) → bloqueiam diretamente o receptor
  • AINE → ↓ prostaglandinas → ↓ renina → ↓ aldosterona; também reduzem TFG
  • Heparina (mesmo profilática!) → inibe síntese de aldosterona
  • Trimetoprim, pentamidina → bloqueiam ENaC ("amiloride-like")
  • Tacrolimus, ciclosporina → diminuem secreção de K⁺ por toxicidade tubular
05 / Causas

De onde vem.

Três bolos diagnósticos, em ordem de checklist: (1) é falso? — pseudohipercalemia; (2) é redistribuição? — saída do K⁺ da célula; (3) é externo? — entrada aumentada ou excreção diminuída. Quase sempre o motivo é "excreção diminuída", geralmente por DRC e drogas anti-RAA.

Tabela por mecanismo

MecanismoCausas principaisPista clínica
Pseudohipercalemia Hemólise na coleta, leucocitose >100k, trombocitose >1 milhão, pseudo-hipercalemia familiar K⁺ alto + ECG normal + sem clínica; amostra hemolisada/rosada
Redistribuição transcelular (K⁺ sai da célula) Acidose metabólica inorgânica (ATR, hipercloriêmica), hiperosmolaridade (CAD/EHH), rabdomiólise, síndrome de lise tumoral, hemólise intravascular maciça, β-bloqueadores não-seletivos, succinilcolina em queimados/miopatia, digital tóxico, paralisia periódica hipercalêmica Sem DRC evidente; K⁺ alto + causa precipitante aguda
Redução da excreção renal DRC (TFG <30); IRA oligúrica; hipoaldosteronismo (Addison, ATR tipo IV); IECA/BRA; espironolactona/eplerenona/amilorida/triantereno; AINE; heparina; trimetoprim; tacrolimus/ciclosporina; uropatia obstrutiva; hipovolemia severa Causa mais comum; DRC + polifarmácia anti-RAA; K⁺ alto crônico
Aumento da entrada KCl IV em excesso; transfusão maciça de sangue estocado; NPT mal formulada; sais de penicilina; dieta hipo-sódica com KCl ("sal light"); suplementos de potássio Geralmente só causa hipercalemia grave quando sobreposto a DRC ou excreção comprometida

1 · Pseudohipercalemia (artefato)

Cultura: K⁺ alto sem repercussão clínica nem ECG. Repita a coleta antes de tratar.

  • Hemólise no tubo (causa #1) — coleta com agulha fina, garroteamento prolongado, "fechar a mão", transporte vibrátil
  • Leucocitose > 100.000/mm³ (leucemia crônica) — leucócitos rompem na centrifugação
  • Trombocitose > 1.000.000/mm³ — plaquetas liberam K⁺ durante a coagulação (diferença soro × plasma > 0,3 mEq/L)
  • Hereditária (rara) — pseudo-hipercalemia familiar, vazamento de K⁺ pela membrana eritrocitária com o frio

2 · Redistribuição (saída do K⁺ da célula)

  • Acidose metabólica inorgânica (ATR, hipercloriêmica) — H⁺ entra, K⁺ sai. Acidose por ácidos orgânicos (lactato, cetonas) não tem efeito significativo isolado.
  • Hiperglicemia / hiperosmolaridade — "drag" osmótico em diabético descompensado (CAD, EHH)
  • Lise tumoral — citólise maciça após quimioterapia em tumores de alta rotatividade (linfomas, leucemias)
  • Rabdomiólise — destruição muscular libera K⁺, mioglobina, fosfato, ácido úrico
  • Hemólise intravascular maciça
  • Exercício extenuante — transitório, raramente clínico
  • Beta-bloqueadores não-seletivos (propranolol) — inibem captação β2-mediada
  • Succinilcolina em queimados / lesão medular / miopatia — efluxo maciço de K⁺ (contraindicação)
  • Digital em dose tóxica — inibe Na⁺/K⁺-ATPase
  • Paralisia periódica hipercalêmica (rara, mutação canal Na⁺)

3 · Diminuição da excreção renal (a mais comum)

Redução da TFG

  • Injúria renal aguda (IRA) — especialmente oligúrica
  • Doença renal crônica avançada (TFG < 30 mL/min, ainda mais < 15)

Hipoaldosteronismo

  • Doença de Addison — insuficiência adrenal primária
  • Hipoaldosteronismo hiporreninêmico — clássico no diabético com DRC moderada (acidose tubular renal tipo IV)
  • Drogas que bloqueiam o eixo:
    IECA BRA espironolactona eplerenona amilorida triantereno AINE heparina trimetoprim tacrolimus / ciclosporina

Diminuição do fluxo distal

  • Hipovolemia / desidratação severa — menos Na⁺ chega ao túbulo distal, menos K⁺ sai
  • Uropatia obstrutiva

4 · Aumento da entrada (raramente isolado)

  • Iatrogênico — KCl IV mal-administrado, transfusão de sangue estocado (especialmente massiva), nutrição parenteral, sais de penicilina
  • Dietético — bananas, laranja, água de coco, sal "light" (cloreto de potássio) — relevante apenas em paciente com excreção diminuída (DRC, diuréticos poupadores)
05b / Armadilhas

Erros que matam.

Pseudohipercalemia: tratar sem confirmar

A causa mais comum de K⁺ falsamente elevado é hemólise in vitro. O soro fica róseo — mas nem sempre o laboratório reporta. Se K⁺ = 6,8 em paciente hígido, sem DRC, ECG normal, sem sintomas, repita a coleta antes de tratar. Tratar uma pseudohipercalemia pode causar hipocalemia iatrogênica grave.

  • Hemólise → garroteamento prolongado, agulha fina calibre 23 ou menor, fechamento da mão, transporte vibratório do tubo
  • Leucocitose extrema (leucemia) → peça coleta em tubo de plasma (heparina)
  • Trombocitose extrema → K⁺ no tubo de plasma vs. soro: diferença > 0,3 mEq/L confirma pseudohipercalemia por liberação plaquetária

Bicarbonato na mesma via do gluconato de cálcio

Bicarbonato de sódio + gluconato de cálcio no mesmo acesso venoso ou misturados no mesmo frasco formam carbonato de cálcio insolúvel — precipita e obstrui o cateter, ou pior, injetado diretamente no vaso causa embolização ou tromboflebite química.

Nunca infundir os dois pela mesma via ao mesmo tempo. Usar acessos venosos diferentes ou intervalo de tempo entre infusões com flush.

Bicarbonato em DRC com sobrecarga: a cilada da "boa intenção"

Em paciente urêmico com K⁺ 7,0 e acidose, a tentação é dar bicarbonato. Mas o paciente pode ter:

  • Hipernatremia latente — o bicarbonato 8,4% adiciona 1 mEq de Na⁺ por mL
  • Sobrecarga volêmica — cada 50 mEq de bicarbonato em solução representa ~50 mL de fluido hipertônico
  • Alcalose induzida reduz Ca²⁺ ionizado → tetania, piora de arritmias

Em DRC avançada com acidose e hipercalemia, a solução é a diálise — que corrige ambos simultaneamente sem esses riscos. Bicarbonato é adjuvante pontual, não solução principal.

Efeito paradoxal do bicarbonato em DRC crônica

Em pacientes com DRC e acidose tubular tipo IV (hipoaldosteronismo hiporreninêmico), a acidose está envolvida na saída de K⁺ da célula. A lógica diz: corrija a acidose → K⁺ cai. Mas em DRC crônica sem acidose aguda grave:

  • O efeito do bicarbonato sobre o K⁺ é pequeno e imprevisível (estudos mostram redução de apenas 0,2–0,4 mEq/L)
  • O bicarbonato crônico oral (na ATR) melhora a acidose metabólica e pode reduzir K⁺ levemente — mas esse é um efeito de semanas, não de minutos
  • Na emergência, insulina + salbutamol reduzem K⁺ 5–10× mais do que o bicarbonato isolado

Hipoglicemia tardia após insulina: o erro de não monitorar

Em 10–20% dos casos, a insulina regular 10 U causa hipoglicemia entre 1 e 3 horas após a administração — especialmente em pacientes com DRC (clearance de insulina reduzido), idosos, desnutridos ou com diabetes tipo 1.

A regra é simples: glicemia capilar de hora em hora por 4 horas após a dose. Considerar glicose 50% 25 mL IV de manutenção preventiva se glicemia basal < 200 mg/dL. Em DRC grave, reduzir a dose para 5 U.

06 / Simulador

Mexa o potássio.

Arraste o slider para variar o K⁺ sérico e veja como mudam clínica, ECG e conduta. Os limites são clínicos — não decorrem de uma única fonte.

5,5
mEq/L de potássio sérico
Limite superior
Sintomas

Geralmente assintomático.

ECG

Praticamente normal.

Conduta

Investigar causa, revisar drogas.

Urgência

Ambulatorial.

07 / Eletrocardiograma

A escada para a parada.

O ECG é a ferramenta mais útil — e a mais traiçoeira. Não há correlação rígida entre valor de K⁺ e alteração eletrocardiográfica: paciente com K⁺ 6,5 cronicamente pode ter ECG quase normal, enquanto um agudo de K⁺ 6,0 pode estar em sinusoidal. Sempre trate quem tem ECG alterado, independente do valor.

K⁺ Normal · 3,5–5,0
Ritmo sinusal típico. P, QRS, T proporcionais.

Cascata eletrocardiográfica passo a passo

Cada degrau representa um mecanismo celular distinto. Entender o porquê de cada alteração permite prever o próximo passo e agir antes do deterioro.

1
Onda T apiculada — K⁺ ~5,5–6,5 Hiperatividade dos canais retificadores tardios de K⁺ (IKr, IKs) acelera a repolarização ventricular → T fica simétrica, estreita e pontiaguda. Base estreita e simetria distinguem da isquemia (que tem T assimétrica). Mais visível em V2–V4.
2
P achatada e desaparecimento — K⁺ ~6,5–7,5 O miócito atrial tem potencial de repouso mais positivo que o ventricular → despolariza-se parcialmente mais cedo e entra em inativação. A excitabilidade atrial cai: P fica baixa, depois desaparece. O ritmo pode ser sinoventricular (marca-passo sinusal conduz pelos ramos sem onda P visível).
3
PR alargado — mesma faixa Condução pelo nó AV e sistema His-Purkinje fica mais lenta pela inativação crescente de canais Na⁺ rápidos (Nav1.5). O impulso demora mais a atravessar o nó AV → PR aumenta.
4
QRS alargado — K⁺ ~7,0–8,0 Inativação maciça de Nav1.5 no sistema His-Purkinje e nos ventrículos: a velocidade de condução intraventricular cai drasticamente. QRS >120 ms é o sinal de alarme de colapso iminente da condução.
5
Fusão QRS–T (padrão "sinusoidal") — K⁺ > 8,0 QRS alargado tanto que se funde com a onda T seguinte. O ECG perde a morfologia discreta — surge uma curva contínua semelhante a uma sinusoide. Esse padrão é pré-morte: degeneração para FV ou assistolia é questão de minutos.
6
Fibrilação ventricular / Assistolia A membrana, incapaz de repolarizar adequadamente entre ciclos, entra em reentrada aleatória (FV) ou simplesmente para de disparar (assistolia/AESP). É o colapso total da excitabilidade ventricular. Reversível com cálcio e diálise urgente se o clínico agiu nos passos anteriores.

Tabela resumo: K⁺ × ECG × Conduta

K⁺ (mEq/L)Alteração eletrocardiográficaPor que ocorre
3,5–5,0ECG normalPotencial de repouso preservado
5,5–6,5Onda T apiculada, simétrica, "tendiforme", base estreita; especialmente V2-V4Repolarização acelerada por hiperatividade dos canais retificadores tardios de K⁺
6,5–7,5Achatamento e desaparecimento da onda P; prolongamento do PRExcitabilidade atrial reduzida; condução AV mais lenta
7,0–8,0Alargamento do QRS; fusão com a onda T; possíveis bradiarritmias e bloqueiosInativação dos canais de Na⁺ no sistema His-Purkinje
> 8,0Onda sinusoidal (QRS-T contínuo) → fibrilação ventricular, TV sem pulso, AESP, assistoliaColapso da excitabilidade ventricular

Pegadinhas do ECG

  • Ausência de ECG alterado não exclui hipercalemia grave — paciente em uso crônico de bloqueadores do RAA pode estar em K⁺ 7,0 com ECG quase normal. Trate sempre.
  • T apiculada pode confundir com isquemia hiperaguda — mas a da hipercalemia é simétrica, estreita e em múltiplas derivações.
  • Bradiarritmias e BAV em DRC: pense hipercalemia antes de pensar em marcapasso.
  • Em paciente com QRS basal alargado (bloqueio de ramo), use a evolução temporal, não a comparação com o "normal".
08 / Calculadora

Gradiente trans­tubular de K⁺.

O TTKG (transtubular potassium gradient) estima a atividade da aldosterona no túbulo coletor cortical — útil na hipercalemia para diferenciar causa renal (excreção inadequada) de não-renal. Hoje é menos usado isoladamente (a osmolaridade da medula é parte das premissas), mas continua sendo um pensamento clínico válido para o raciocínio fisiopatológico.

TTKG = (K⁺urinário / K⁺plasma) ÷ (Osmurinária / Osmplasma)

Válido se Osmurinária > Osmplasma e Na⁺urinário > 25 mEq/L.

TTKG estimado
3,2
Inapropriadamente baixo na hipercalemia — sugere hipoaldosteronismo ou bloqueio do receptor mineralocorticoide.

Interpretação

  • TTKG ≥ 7-8 na hipercalemia → resposta renal apropriada (aldosterona funcionante). A causa não é renal: pense em entrada exógena, redistribuição (acidose, lise, rabdomiólise) ou pseudo-hipercalemia.
  • TTKG < 5-7 na hipercalemia → resposta renal inapropriada — defeito na secreção tubular. Pense em hipoaldosteronismo (Addison, ATR tipo IV), antagonistas mineralocorticoides, IECA/BRA, ATR distal hipercalêmica.
  • Sempre confirme com K⁺ urinário de 24 h (< 20 mEq/dia na hipercalemia sugere causa renal).
09 / Tratamento

Três pilares, nesta ordem.

A lógica é mecânica: (1) estabilizar a membrana → ganha minutos; (2) deslocar K⁺ para dentro da célula → ganha horas; (3) remover K⁺ do corpo → resolução definitiva. Tratamento clínico não substitui a causa: junto com tudo, identifique e remova o gatilho.

Pilar 1 · Minutos

Proteger o coração

  • Gluconato de cálcio 10%: 10 mL IV em 2-3 min, sob monitorização. Repetir se ECG não melhorar em 5 min.
  • Início em 1-3 min, duração 30-60 min.
  • Não baixa K⁺ — apenas eleva o potencial limiar.
  • Cuidado em pacientes em uso de digital (preferir infusão lenta diluída).
Pilar 2 · 15-60 minutos

Deslocar para dentro

  • Insulina regular 10 U IV + glicose 50% 50 mL IV (ou solução glicosada concomitante). Reduz K⁺ ~0,5-1,2 mEq/L em 15-30 min.
  • Salbutamol nebulizado 10-20 mg (4-8 vezes a dose broncodilatadora) — reduz K⁺ ~0,5-1 mEq/L.
  • Bicarbonato de sódio 50-150 mEq se acidose metabólica significativa (pH < 7,2 ou HCO₃ < 12).
  • Sempre monitorar glicemia após insulina (hipoglicemia 1-3h depois).
Pilar 3 · Definitivo

Remover do corpo

  • Diurético de alça (furosemida 40-80 mg IV) — se função renal preservada e euvolemia. Útil em sobrecarga + DRC residual.
  • Resinas trocadoras de cátions: poliestireno sulfonato de cálcio (Sorcal) 15-30 g VO ou via retal; patiromer 8,4 g/dia; ciclosilicato de zircônio 10 g 3×/dia (mais rápido).
  • HEMODIÁLISE — definitiva. Indicação clara: K⁺ > 6,5 refratário, alteração de ECG, sobrecarga ou acidose graves. Remove ~25-50 mEq de K⁺ por sessão.

Mecanismos em profundidade

Por que o gluconato de cálcio "salva" sem baixar o K⁺

O K⁺ alto despolariza a membrana: o potencial de repouso sobe de −90 mV para −70 ou −60 mV, ficando perigosamente próximo do limiar de disparo (~−65 mV). Qualquer estímulo desencadeia arritmia.

O cálcio não altera o K⁺ extracelular — ele age diretamente sobre os canais de Na⁺ e Ca²⁺ voltagem-dependentes: o Ca²⁺ extracelular estabiliza a "comporta de inativação", elevando o potencial limiar para cerca de −55 mV. Resultado: o gap entre potencial de repouso e limiar aumenta novamente → a membrana fica menos excitável, arritmias diminuem.

É como afastar a beira do precipício — o paciente continua em K⁺ 7,2, mas o coração ganha margem de segurança por 30–60 minutos, tempo para as outras medidas agirem.

Início: 1–3 min. Duração: 30–60 min. Repetir se ECG não melhora em 5 min.

Insulina + glicose: a bomba celular acelerada

A insulina liga-se ao receptor tirosina-quinase nas células musculares e hepáticas → ativa a subunidade alfa da Na⁺/K⁺-ATPase → cada ciclo da bomba expulsa 3 Na⁺ e capta 2 K⁺. O K⁺ extracelular migra para dentro das células em minutos.

  • Início: 15 min · Pico: 30–60 min · Redução: 0,5–1,2 mEq/L · Duração: 4–6 h
  • A glicose é proteção, não mecanismo: o efeito sobre o K⁺ é independente da glicose — insulina age diretamente na bomba. Glicose 50% 50 mL IV (ou SG 10% em paralelo) é dada apenas para evitar hipoglicemia.
  • Hipoglicemia tardia em 10–20% dos casos, geralmente 1–3 h após. Monitorar glicemia capilar de hora em hora por 4 h.
  • Em hiperglicemia (CAD, EHH): fazer insulina sem glicose — a glicemia alta já oferece substrato. Cuidado com hipocalemia associada à CAD tratada.
  • Em DRC ou idoso: considerar dose reduzida (5 U) — clearance de insulina diminuído aumenta risco de hipoglicemia grave.

O K⁺ deslocado para dentro da célula voltará para o plasma quando a insulina acabar (4–6 h). Por isso, as medidas de remoção (pilar 3) devem ser iniciadas em paralelo.

Salbutamol nebulizado: o agonista β2 como aliado da bomba

Os receptores β2-adrenérgicos estão amplamente expressos no músculo esquelético. A estimulação β2 → adenilato ciclase → ↑ AMPc → ativação de proteína-quinase A → fosforilação da subunidade catalítica da Na⁺/K⁺-ATPase → captação acelerada de K⁺ pelas células musculares.

  • Dose: 10–20 mg em nebulização (4–8× a dose broncodilatadora padrão de 2,5 mg)
  • Início: 20–30 min · Redução: 0,5–1,0 mEq/L · Duração: 2–4 h
  • Efeito aditivo com insulina — combinados, podem reduzir K⁺ em até 1,5–2,0 mEq/L
  • Por que funciona em DRC dialítica? O efeito é inteiramente celular (músculo esquelético e fígado), independente da função renal. Mesmo paciente anúrico pré-diálise se beneficia.
  • Cautela em taquicardia de base, coronariopatia instável ou uso de β-bloqueadores não-seletivos (propranolol bloquearia o receptor).

Resinas trocadoras de cátions: latência, mecanismo e diferenças

As resinas são a remoção K⁺ pelo trato gastrointestinal — lenta (horas), mas importante para redução mantida e prevenção de recorrência.

DrogaMecanismoInícioDose usualObservações
Poliestireno sulfonato de Ca (Sorcal)Troca Ca²⁺ por K⁺ no cólon1–6 h15–30 g VO 6/6hRisco de necrose colônica com sorbitol ou pós-op intestinal
Patiromer (Veltassa)Quelante de K⁺ no intestino grosso7–10 h8,4–25,2 g/dia VOCrônico, não é droga de emergência. Pode quelcar outros fármacos — separar 3 h
Ciclosilicato de zircônio sódico (Lokelma)Troca Na⁺/H⁺ por K⁺ e NH₄⁺ no intestino1–2 h10 g 3×/dia por 48 h; depois 5–10 g/diaMais rápido que Sorcal e patiromer. Não absorve outros medicamentos.

Nenhuma das três é droga de emergência cardíaca. São usadas em paralelo ao tratamento agudo para evitar rebote e para manejo crônico em DRC.

Diálise: quando e por que é o tratamento definitivo

A hemodiálise remove K⁺ diretamente do plasma por difusão a favor do gradiente para o banho de diálise (concentração de K⁺ no dialisato: 2,0–3,0 mEq/L). Em uma sessão de 3–4 h, remove 25–50 mEq de K⁺ — o equivalente a ~30% do K⁺ extracelular total.

A diálise é o único tratamento que remove K⁺ do corpo de forma rápida e controlada. Diferentemente da insulina (que apenas redistribui), o K⁺ removido pela diálise não retorna.

Indicação na hipercalemia (critério "E" do AEIOU): K⁺ > 6,5 mEq/L refratário ao tratamento clínico, ou qualquer K⁺ com alteração de ECG em paciente com DRC avançada/anúria.

O nefrologista deve ser acionado simultaneamente à administração do gluconato de cálcio — não após "ver se as medidas clínicas resolvem".

Drogas em detalhe (triplo-check de doses)

Gluconato de cálcio 10%
10 mL IV em 2-3 min
Antagonista de membrana. Início 1-3 min, dura 30-60 min. Repetível.
Cloreto de cálcio 10%
5-10 mL IV em CVC
3× mais Ca elementar que o gluconato, mas causa necrose se extravasar — evitar veia periférica.
Insulina regular
10 U IV em bolus
+ glicose 50% 50 mL IV (ou SG 10% 500 mL em 1h se glicemia > 250). Pico em 30 min.
Salbutamol nebulizado
10-20 mg em 4 mL SF
4-8× a dose broncodilatadora. Cautela: taquicardia, tremor. Aditivo à insulina.
Bicarbonato de sódio
50-150 mEq IV (8,4%)
Apenas se acidose. Cuidado em sobrecarga volêmica. Efeito modesto isolado em DRC.
Furosemida
40-80 mg IV
Aumenta a kaliurese se rim funcionante. Doses ↑ na DRC. Não usar em hipovolemia.
Sorcal (poliestireno sulf.)
15-30 g VO 6/6h
Resina de troca cálcio/potássio no cólon. Efeito em horas. Risco de necrose colônica — não usar com sorbitol em pós-op ou íleo.
Patiromer
8,4 g VO 1×/dia
Quelante de K⁺ no cólon. Crônico — não para emergência. Pode aumentar até 25,2 g/dia.
Ciclosilicato de zircônio
10 g VO 3×/dia (48h)
Início em 1h. Manutenção 5-10 g/dia. Mais rápido que patiromer/Sorcal.
Hemodiálise
Definitiva
Indicação se K⁺ > 6,5 refratário, ECG alterado, DRC dialítica, sobrecarga/acidose grave.

Indicações de diálise de urgência — "AEIOU"

  • A – Acidose metabólica grave (pH < 7,1) refratária ao tratamento
  • E – Eletrólitos: hipercalemia grave (> 6,5 mEq/L ou com ECG alterado) sem resposta clínica
  • I – Intoxicações por substâncias dializáveis (lítio, metanol, etilenoglicol, salicilatos)
  • O – Overload: sobrecarga volêmica com edema pulmonar refratário a diuréticos
  • U – Uremia com manifestações graves (encefalopatia, pericardite, convulsão, sangramento)

A diálise não deve esperar uma complicação fatal. Em paciente como o do caso (DRC E4 + K⁺ 7,2 + acidose pH 7,18), está formalmente indicada.

Acidose metabólica grave — manejo paralelo

Critério: pH < 7,1 ou HCO₃⁻ < 10-12 mEq/L. Tratar a causa de base (sepse, cetoacidose, intoxicação, falência renal) é prioridade. O bicarbonato IV pode ser considerado quando o pH está < 7,1 e a acidose é hipercloriêmica (não-anion gap) — em acidose por lactato/cetonas, evidência não suporta uso rotineiro.

  • Bicarbonato de sódio 8,4% (1 mEq/mL): dose inicial 50-100 mEq IV diluído em SG 5%, infusão lenta. Reavaliar gasometria em 30-60 min.
  • Risco: hipernatremia, sobrecarga volêmica, hipocalcemia ionizada (queda do Ca²⁺ livre com o aumento do pH), alcalose de rebote.
  • Em DRC com sobrecarga + acidose grave → preferir diálise.

Hipercalcemia grave — para fechar o conjunto

A fonte original junta as três emergências metabólicas. Vale relembrar a hipercalcemia (Ca²⁺ total > 14 mg/dL ou ionizado > 1,8 mmol/L com sintomas) — o tratamento é oposto à hipercalemia em vários eixos:

  • Hidratação vigorosa com SF 0,9% 200-300 mL/h (diurese forçada inicial)
  • Furosemida após reidratação (cuidado: não usar antes — agrava a hipercalcemia se hipovolêmico)
  • Bisfosfonato IV (ácido zoledrônico 4 mg, ou pamidronato 60-90 mg) — efeito em 24-72 h, dura semanas
  • Calcitonina 4 UI/kg SC 12/12 h — rápida mas taquifilaxia em 48 h
  • Corticoide se causa for vitamina D (sarcoidose, intoxicação) ou neoplasia hematológica
  • NÃO administrar cálcio; em hipercalemia, pelo contrário, o cálcio é a primeira droga.
10 / Reflexões

Pense antes de responder.

Cinco perguntas que separam o estudante do residente

Cada questão abaixo é uma armadilha conceitual frequente. Tente formular sua resposta mentalmente, depois confira.

?
Por que gluconato de cálcio em vez de cloreto de cálcio?
Pense primeiro

Os dois são sais de cálcio que estabilizam membrana. Por que a literatura prefere o gluconato como padrão? Pense em quantidade de cálcio elementar, via de administração e risco de extravasamento.

Os dois funcionam — mas a escolha é prática:

  • Gluconato de cálcio 10% contém ~9 mg de cálcio elementar por mL (90 mg por ampola de 10 mL). É menos cáustico → pode ser feito em veia periférica com relativa segurança.
  • Cloreto de cálcio 10% tem ~27 mg de cálcio elementar por mL (3× mais), começa a agir mais rápido, mas é fortemente irritante e necrosante se extravasar → exige cateter venoso central.
  • Para a maioria das emergências em sala vermelha sem CVC pronto, gluconato é a escolha pragmática. Cloreto fica para parada cardíaca com via central já em uso.
  • Pequeno mas relevante: gluconato precisa ser metabolizado no fígado para liberar o cálcio — em hepatopatia grave, o efeito pode ser ligeiramente retardado.
Resposta direta

Gluconato é mais seguro em veia periférica. Cloreto é mais potente, mas exige central. Na prática diária e na sala de emergência, gluconato 10% 10 mL IV em 2-3 min é o padrão.

?
Por que insulina abaixa o potássio? E por que sempre com glicose?
Pense primeiro

A insulina abaixa o K⁺ por que mecanismo direto? Esse efeito depende da glicose entrar na célula? Quem está em risco de hipoglicemia depois — e em quanto tempo?

A insulina ativa a Na⁺/K⁺-ATPase (especialmente no músculo esquelético e fígado), aumentando a entrada de K⁺ para dentro da célula. Esse efeito é independente da glicose — é uma ação direta da insulina sobre a bomba.

A glicose entra junto para evitar hipoglicemia, não para potencializar o efeito sobre o K⁺. Em paciente já hiperglicêmico (cetoacidose, EHH), a insulina pode ser feita sem glicose, pois a glicose alta já fornece substrato.

  • Início: 15 min · Pico: 30-60 min · Duração: 4-6 h
  • Magnitude: redução de 0,5 a 1,2 mEq/L em 60 min
  • Hipoglicemia tardia ocorre em ~10-20% dos pacientes, geralmente entre 1-3 h após a dose — sempre monitorar glicemia capilar de hora em hora por 3-4 h
  • Em paciente com DRC ou idoso, considerar dose menor (5 U) — clearance reduzido
?
Qual o papel real do bicarbonato? Por que ele "saiu de moda"?
Pense primeiro

Em paciente acidótico, é intuitivo dar bicarbonato — pH sobe e o K⁺ desce. Mas qual a evidência? Em qual subgrupo o efeito é real? E quando o bicarbonato pode ser nocivo?

O bicarbonato funciona principalmente quando há acidose metabólica significativa (pH < 7,2 ou HCO₃ < 12). O mecanismo: corrige a acidose → reduz a saída de K⁺ da célula em troca de H⁺. Mas:

  • Em pacientes com DRC sem acidose franca, o efeito sobre o K⁺ é mínimo
  • Bicarbonato em bolus pode piorar a função cardíaca em hipernatremia / sobrecarga volêmica
  • Em acidose orgânica (lactato, cetona), o substrato será metabolizado e gerará HCO₃ endogenamente — bicarbonato exógeno raramente é necessário
  • Alcalose induzida pode baixar o cálcio iônico (rebote) e piorar arritmias — exatamente o oposto do que se quer
  • Cuidado também com hipernatremia (8,4% = 1 mEq/mL = 1 mEq Na/mL) e edema agudo de pulmão
Quando usar

Em hipercalemia com acidose metabólica grave (pH < 7,2). Em uremia franca com sobrecarga, prefira ir direto para diálise. Como medida isolada para baixar K⁺, é o pior dos três do pilar 2 — insulina e β2 vencem.

?
Quando indicar diálise de emergência? E quem chama o nefrologista?
Pense primeiro

Você está no plantão. K⁺ 7,5, paciente DRC E5, ECG alterado, sem urina há 24 h. Quanto vale o "ganho de tempo" das medidas clínicas? Em quantos minutos preciso de um cateter de diálise?

A regra mnemônica é "AEIOU":

  • Acidose metabólica grave (pH < 7,1) refratária
  • Eletrólitos — hipercalemia > 6,5 ou com ECG alterado sem resposta clínica
  • Intoxicações por substância dializável (lítio, metanol, etilenoglicol, salicilatos, valproato, metformina com acidose láctica)
  • Overload — sobrecarga volêmica com EAP refratário
  • Uremia sintomática (encefalopatia, pericardite, convulsão, sangramento urêmico)

Dois pontos práticos:

  • Em paciente já em programa de hemodiálise e DRC dialítica, qualquer hipercalemia significativa deve ir para hemodiálise — o tratamento clínico é uma ponte de horas, não um substituto.
  • O nefrologista deve ser chamado ao mesmo tempo em que o cálcio está sendo preparado. Não espere "ver se as medidas clínicas resolvem".
?
Como detectar pseudohipercalemia? Quando duvidar do laboratório?
Pense primeiro

K⁺ relatado 6,5 em paciente sem queixa, ECG normal, sem fator de risco para hipercalemia. Você trata? Quais as pistas de que o número é falso?

Pseudohipercalemia é o "K⁺ medido alto sem K⁺ real alto". Pistas:

  • Discrepância clínica: K⁺ alto sem sintomas, ECG completamente normal, sem causa plausível
  • História da coleta: punção difícil, agulha fina, garroteamento prolongado, paciente "fechando a mão" — clássico para hemólise
  • Tubo hemolisado reportado pelo laboratório (o soro está rosado)
  • Hemograma com leucocitose extrema (LMC com leucócitos > 100k) ou trombocitose extrema (> 1 milhão)
  • Diferença soro × plasma > 0,3 mEq/L sugere liberação de K⁺ por plaquetas durante a coagulação — peça K⁺ em tubo de plasma (heparinizado) em paciente trombocitótico
  • História familiar/recorrência sem doença renal — pensar em pseudohipercalemia familiar (rara)
Regra de ouro

Antes de tratar uma hipercalemia "limítrofe" sem clínica nem ECG, faça uma nova coleta — bem-feita, sem garrote, tubo apropriado. Não retarde tratamento se a clínica e o ECG falarem — mas duvide do número solitário.

?
Por que insulina + glicose "esconde" o problema mas não trata?
Pense primeiro

Após insulina + glicose, K⁺ cai de 7,2 para 6,0. O médico fica aliviado e aguarda. Horas depois, o paciente está em K⁺ 7,0 novamente. O que aconteceu? Por que o efeito foi temporário?

A insulina ativa a bomba Na⁺/K⁺-ATPase e empurra K⁺ para dentro das células — mas o K⁺ total do corpo não muda. O K⁺ apenas mudou de compartimento: saiu do plasma e entrou no músculo e no fígado.

Quando a insulina é metabolizada (em 4–6 h), ou quando o estímulo que gerou a hipercalemia persiste (DRC, drogas), o K⁺ volta a sair das células e o plasma volta a subir. A insulina é um "esconderijo temporário" — não remove nenhum mEq do organismo.

Implicação clínica

Sempre iniciar o pilar 3 (remoção) simultaneamente ao pilar 2 (deslocamento). Em paciente anúrico, não existe pilar 3 eficaz sem diálise — a queda do K⁺ com insulina é um empréstimo que o corpo vai cobrar.

?
Por que β2 agonista funciona mesmo no paciente dialítico anúrico?
Pense primeiro

O salbutamol baixa K⁺ por que mecanismo? Esse mecanismo requer rim funcionante? O que é diferente do mecanismo renal da aldosterona ou da furosemida?

O efeito do salbutamol sobre o K⁺ é inteiramente extrarenal — ocorre no músculo esquelético e no fígado. Receptor β2 → AMPc → proteína-quinase A → fosforilação da Na⁺/K⁺-ATPase → captação acelerada de K⁺ pelas células musculares.

Esse mecanismo não passa pelo rim nem pela aldosterona. O paciente em hemodiálise (sem função renal residual, anúrico) se beneficia tanto quanto um paciente com função renal preservada.

  • Furosemida precisa de néfron funcionante para atuar → ineficaz no anúrico
  • Resinas dependem da motilidade intestinal → lentas, horas para agir
  • Salbutamol + insulina funcionam no paciente dialítico — são a ponte farmacológica para a diálise urgente
Pearl

Em hipercalemia de paciente em programa de hemodiálise: gluconato de cálcio + insulina + salbutamol + acionamento imediato da diálise. Nenhum dos três substitui a diálise, mas os três compram o tempo necessário.

?
Hipercalemia + hiponatremia + acidose hiperclorêmica = pense em quê?
Pense primeiro

Tríade: K⁺ alto + Na⁺ baixo + acidose metabólica com AG normal (hiperclorêmica). Você está diante de um distúrbio de quê? Qual hormônio une esses três achados?

Essa tríade clássica é a assinatura de hipoaldosteronismo — mais especificamente da insuficiência adrenal primária (Doença de Addison) ou do hipoaldosteronismo hiporreninêmico (comum no diabético com DRC moderada, chamado de ATR tipo IV).

A aldosterona regula os três eixos simultaneamente no túbulo coletor cortical:

  • Retém Na⁺ via ENaC → sem aldosterona, Na⁺ não é reabsorvido → hiponatremia (e hipovolemia)
  • Secreta K⁺ em troca de Na⁺ → sem aldosterona, K⁺ acumula → hipercalemia
  • Secreta H⁺ via H⁺-ATPase e H⁺/K⁺-ATPase → sem aldosterona, H⁺ fica no plasma → acidose hiperclorêmica (ATR tipo IV)
Diagnóstico diferencial

Addison: investigar se paciente está hemocadinhamente instável, com hiperpigmentação, em estresse agudo. Dosar cortisol e ACTH. ATR tipo IV: diabético com DRC moderada (TFG 30–60), K⁺ cronicamente 5,5–6,5, acidose hiperclorêmica leve — padrão silencioso. Ambos respondem à fludrocortisona nos casos de hipoaldosteronismo real.

?
Por que o bicarbonato perdeu protagonismo no tratamento da hipercalemia aguda?
Pense primeiro

O raciocínio parece óbvio: acidose eleva K⁺ → corrigir acidose com bicarbonato → K⁺ cai. Por que essa lógica não se confirma na prática?

O bicarbonato de sódio tem efeito sobre o K⁺ apenas quando há acidose metabólica inorgânica (hiperclorêmica) significativa — e mesmo assim, o efeito é modesto comparado à insulina ou ao salbutamol.

  • Estudos randomizados não demonstraram redução significativa do K⁺ com bicarbonato isolado em pacientes com DRC e hipercalemia sem acidose grave (pH > 7,2).
  • Em acidose por ácidos orgânicos (lactato, cetonas), o H⁺ e o ânion orgânico atravessam a membrana juntos — não há troca H⁺/K⁺ significativa — portanto bicarbonato não move K⁺.
  • Riscos específicos do bicarbonato:
    • Hipernatremia (8,4% contém 1 mEq/mL de Na⁺)
    • Sobrecarga volêmica — contraproducente em DRC com oligúria
    • Alcalose rebote → ↓ Ca²⁺ ionizado → piora arritmias
    • Precipitação de carbonato de cálcio se dado na mesma via que o gluconato — jamais infundir os dois no mesmo acesso venoso simultaneamente
Quando ainda tem papel

Hipercalemia com acidose metabólica hiperclorêmica e pH < 7,20 — especialmente ATR, diarreia severa, infusão de SF 0,9% excessiva. Nesse cenário, corrigir a acidose tem sentido fisiopatológico e reduz modestamente o K⁺. No paciente urêmico com sobrecarga, vá direto para diálise.

?
Por que furosemida e finerenona se complementam ao invés de competir?
Pense primeiro

Furosemida (diurético de alça) baixa K⁺. Espironolactona/finerenona (antagonistas mineralocorticoides) elevam K⁺. Por que, então, existem situações em que ambos são usados juntos — e como isso pode ser racional no paciente com IC + DRC + hipercalemia crônica?

O paradoxo aparente se resolve entendendo os locais de ação distintos e os objetivos terapêuticos diferentes:

  • Furosemida age na alça de Henle → bloqueia NKCC2 → aumenta oferta de Na⁺ ao túbulo coletor → por isso aumenta a kaliurese (mais Na⁺ distal → mais troca Na⁺/K⁺ aldosterona-dependente)
  • Finerenona/espironolactona bloqueiam o receptor mineralocorticoide no túbulo coletor → reduzem a secreção de K⁺ naquele ponto → retém K⁺

Em paciente com IC com fração de ejeção reduzida + DRC moderada, a finerenona reduz mortalidade cardiovascular e retarda a progressão da DRC — benefício que nenhuma outra droga substitui. A furosemida, por sua vez, controla a congestão e, como efeito lateral desejável, parte da kaliurese que a finerenona provoca é "amortecida" pela furosemida.

A hipercalemia crônica nesses pacientes pode ser manejada com:

  • Manutenção da furosemida (aumenta excreção de K⁺)
  • Patiromer ou ciclosilicato de zircônio crônicos (quelam K⁺ no intestino)
  • Ajuste da dose da finerenona conforme K⁺ sérico mensal
Conclusão

Não são antagonistas — são complementares. Furosemida tira K⁺ pelo rim; finerenona retém K⁺ no cólon. O balancete pode ser favorável se manejado com monitorização de K⁺ e uso de resinas de longa duração. A hipercalemia não é necessariamente contraindicação à finerenona — é uma variável a ser gerenciada.

11 / Quiz

Teste seu raciocínio.

Sete questões com feedback detalhado. Escolha antes de espiar.

Q1. Paciente com K⁺ 6,8 mEq/L, ECG mostrando T apiculada e QRS de 120 ms. Está em uso crônico de digoxina. Qual a melhor conduta inicial?
Q2. Qual mecanismo descreve melhor a ação da insulina sobre o potássio sérico?
Q3. Paciente com K⁺ 6,2, sem alteração no ECG, hígido, sem queixa. Foi feito como rotina e o laboratório relata "amostra hemolisada". A melhor conduta é:
Q4. Em paciente com DRC E5 em programa de hemodiálise, K⁺ 7,0, ECG alterado, perdeu a sessão hoje. Após gluconato de cálcio e insulina+glicose, a próxima conduta é:
Q5. Qual achado eletrocardiográfico geralmente surge PRIMEIRO na hipercalemia progressiva?
Q6. Qual destas drogas NÃO costuma causar hipercalemia em paciente com DRC?
Q7. A acidose metabólica eleva o K⁺ sérico por que mecanismo principal?
12 / Resumo

Take-home messages.

01

Definição

K⁺ > 5,5 mEq/L. Grave se > 6,5 ou com qualquer alteração eletrocardiográfica — independente do número.

02

Sempre olhe o ECG

T apiculada → P some + PR longo → QRS alarga → sinusoidal → FV/assistolia. ECG alterado = emergência.

03

3 pilares, nesta ordem

(1) Proteger o coração com cálcio; (2) Deslocar K⁺ para dentro da célula; (3) Remover do corpo.

04

Cálcio não baixa K⁺

Ele apenas eleva o potencial limiar — ganha 30-60 min. Sempre repetir se ECG não melhorar.

05

Insulina + glicose

10 U regular + 50 mL de glicose 50%. Pico em 30 min. Monitorar glicemia por 3-4 h depois.

06

β2 nebulizado

Salbutamol 10-20 mg em nebulização — 4-8× a dose broncodilatadora. Aditivo à insulina.

07

Bicarbonato com critério

Apenas se acidose grave (pH < 7,2). Não é mágica — em DRC pura, vá direto à diálise.

08

Diálise "AEIOU"

Acidose, Eletrólitos, Intoxicação, Overload, Uremia. Hipercalemia refratária ou anúrico: dialise.

09

Resinas demoram

Sorcal/patiromer atuam em horas. Não são droga de emergência cardíaca. Ciclosilicato de zircônio é o mais rápido.

10

Sempre suspeite pseudohipercalemia

K⁺ alto sem clínica + ECG normal + amostra hemolisada / leucocitose / trombocitose. Repita a coleta antes de tratar.

11

Trate a causa

Suspenda IECA/BRA/espironolactona/AINE, corrija acidose, hidrate, repare obstrução. Sem isso, recidiva é certa.

12

Acidose grave: pH < 7,1

Tratar causa de base. Bicarbonato apenas em casos selecionados. Diálise se refratário ou DRC.

13 / Framework

Pense em 5 passos.

Toda vez que você se deparar com hipercalemia — em prova ou na sala de emergência — passe por estes 5 nós de raciocínio na ordem. Toque em cada cartão para aprofundar.

1
Passo 1 · Validar
É hipercalemia real?
Há clínica e ECG compatíveis? Há fator de risco para pseudohipercalemia?
SIM, COMPATÍVEL
Real. Siga para o passo 2 — avaliar gravidade.
DUVIDOSA
Repita a coleta. Sem garrote, tubo apropriado. Não retarde se a clínica/ECG alarmar.
Toque para aprofundarRecolher
Pistas para pseudohipercalemia
  • Amostra hemolisada (causa mais comum)
  • Leucocitose > 100k (LMC, leucemia aguda)
  • Trombocitose > 1 milhão — diferença soro-plasma > 0,3 mEq/L
  • Sem clínica, ECG perfeitamente normal, sem causa plausível

Em paciente trombocitótico, peça K⁺ em tubo de plasma (heparinizado) — não em soro.

2
Passo 2 · Gravidade
O ECG está alterado?
Há T apiculada, alargamento de PR/QRS, perda da onda P, bradicardia ou padrão sinusoidal?
ECG NORMAL
Hipercalemia leve a moderada. Foco em deslocamento e remoção. Identifique e remova o gatilho.
EMERGÊNCIA
Cálcio JÁ. Sem esperar dosagem, sem esperar nefro. Gluconato 10% 10 mL IV em 2-3 min, monitorização contínua.
Toque para aprofundarRecolher
Critérios de gravidade clínica
  • Leve: K⁺ 5,5–6,0; ECG normal; assintomático
  • Moderada: K⁺ 6,0–6,9; T apiculada possível; pode ter parestesia/fraqueza
  • Grave: K⁺ ≥ 7,0 OU qualquer alteração além da T apiculada OU sintomático
  • Não há correlação rígida número-ECG; sempre olhe os dois
3
Passo 3 · Proteger
Estabilizar a membrana
Cálcio se ECG alterado, em quanto tempo e em qual via?
PERIFÉRICO
Gluconato de cálcio 10% 10 mL IV em 2-3 min. Repetir em 5 min se ECG não melhorar. Atua em 1-3 min, dura 30-60 min.
CENTRAL
Cloreto de cálcio 10% 5-10 mL — 3× mais Ca, mas necrosa em periférica.
Toque para aprofundarRecolher
O que o cálcio faz e o que não faz
  • Faz: eleva o potencial limiar, antagoniza o efeito eletroquímico da hipercalemia na membrana, reduz arritmias
  • Não faz: não baixa o K⁺. Não é definitivo. É apenas a "ponte" para as próximas medidas
  • Cuidado: em paciente digitalizado, fazer infusão lenta (10-20 min) e diluída — risco de "stone heart" em intoxicação
  • Sem ECG alterado em paciente assintomático: alguns serviços não fazem cálcio, focam em deslocamento + remoção
4
Passo 4 · Deslocar
K⁺ para dentro da célula
Insulina + glicose, β2 nebulizado, ± bicarbonato. Quem, quanto, quando?
PADRÃO
Insulina regular 10 U IV + glicose 50% 50 mL IV. Pico em 30 min, dura 4-6 h. Monitorar glicemia.
ADITIVO
Salbutamol 10-20 mg nebulizado. Soma com a insulina. ± Bicarbonato se acidose grave.
Toque para aprofundarRecolher
Magnitude e tempo
  • Insulina: reduz K⁺ 0,5-1,2 mEq/L em 60 min; risco de hipoglicemia 1-3 h depois — monitorar glicemia capilar por 4 h
  • Salbutamol: reduz 0,5-1,0 mEq/L; cautela em coronariopatas e arritmia
  • Bicarbonato: efeito modesto isolado; só funciona se houver acidose; cuidado com sobrecarga e Na⁺
  • Esses efeitos são transitórios — o K⁺ que voltou para a célula vai voltar a sair em horas. Por isso o passo 5 é obrigatório.
5
Passo 5 · Remover
Tirar K⁺ do corpo
Diurético, resina ou diálise? E como remover o gatilho?
RIM FUNCIONANTE
Furosemida 40-80 mg IV + resina (Sorcal 30 g 6/6h ou ciclosilicato de zircônio).
REFRATÁRIO / DRC
HEMODIÁLISE. Definitiva. Remove 25-50 mEq por sessão. Indicação clara pelo critério "AEIOU".
Toque para aprofundarRecolher
Não esqueça de tratar a causa
  • Suspender drogas culpadas (IECA, BRA, espironolactona, AINE, trimetoprim, heparina)
  • Corrigir hipovolemia e acidose
  • Desobstruir trato urinário se obstrutivo
  • Tratar lise tumoral / rabdomiólise se redistribuição
  • Reavaliar K⁺ em 2-4 h após cada intervenção
Plano pós-emergência
  • Repor com dieta hipo-K⁺ apenas se causa for entrada exógena
  • Reintroduzir IECA/BRA com cautela em paciente cardiopata — patiromer crônico pode permitir manutenção
  • Acompanhamento ambulatorial frequente em DRC E3-E5

Coração protegido, K⁺ removido, causa tratada

Cinco passos, da dúvida sobre o número até o seguimento. Se você passa por todos eles antes de prescrever, raramente erra a conduta — mesmo no paciente complexo.