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Caso Clínico · Nefrologia · Distúrbio Eletrolítico

Hipocalemia
grave.

Um homem de 76 anos chega à emergência em cadeira de rodas. Não consegue caminhar. K = 1,8 mEq/L. Onda U no ECG. O que é? E o que fazer?

K sérico
1,8
Pressão
160/96
pH
7,50
HCO₃
38
01 / Apresentação

O caso.

Paciente masculino, 76 anos, queixa-se de fraqueza muscular nos últimos 3 dias. Hoje amanheceu com dificuldade para caminhar — chegou à emergência em cadeira de rodas. Sem dores, sem desconfortos digestivos. Nega uso de diuréticos ou laxantes. Ao exame: arreflexia nas quatro extremidades. PA 160/96. ECG: onda U.

Sódio
147
mEq/L
ref 135-145 ⬆
Potássio
1,8
mEq/L
ref 3,5-5,0 ⬇⬇⬇
Cloro
96
mEq/L
ref 95-105 ✓
HCO₃
38
mEq/L
ref 22-26 ⬆⬆
pH venoso
7,50
ref 7,32-7,42 ⬆
Creatinina
0,8
mg/dL
normal ✓
Hb
12,9
g/dL
limite
Na urin.
170
mEq/L
elevado
K urinário
26
mEq/L
inapropriado!
Cr urin.
50
mg/dL
02 / Questão

Qual a afirmativa correta?

Considerando o quadro clínico e laboratorial acima, qual das alternativas melhor explica o caso?
03 / Mecanismo

A cascata do hiperaldo.

Como o excesso de aldosterona gera, simultaneamente, hipertensão + hipocalemia + alcalose? Acompanhe o passo a passo:

1
Aldosterona ativa o ENaC Nas células principais do ducto coletor, aldosterona aumenta canais ENaC (epithelial Na channel) e a Na/K-ATPase basolateral.
2
Reabsorção de Na+ aumenta Na+ entra pela célula → expansão de volume circulante → HAS + hipernatremia leve (limitada pelo escape de aldosterona).
3
Lúmen fica eletronegativo A retirada de Na+ deixa o lúmen tubular com cargas negativas — gradiente eletroquímico favorece secreção de cátions.
4
Secreção de K+ via ROMK Canais ROMK secretam K+ para o lúmen → caliurese aumentada → HIPOCALEMIA.
5
Secreção de H+ pelas células α-intercaladas H+/ATPase joga prótons no lúmen, gerando bicarbonato no plasma → ALCALOSE METABÓLICA.
6
Hipocalemia perpetua a alcalose K+ sai da célula em troca de H+ entrando (mantém alcalemia); na urina, hipoK estimula reabsorção de bicarbonato pelo túbulo proximal.
04 / Fisiologia

Onde o K+ vive.

Distribuição corporal

De cada 100 unidades de potássio no corpo: 98 estão dentro das células, e apenas 2 circulam no sangue. Mas é justamente esse pequeno extracelular que define o potencial de membrana — e, por isso, pequenas variações têm efeito clínico desproporcional.

Causas de hipocalemia

Mecanismo Causas principais Pista clínica
1. Baixa ingestaInanição, alcoolismo, anorexiaRaro como causa isolada
2. Translocação intracelularInsulina, β2-agonistas, alcalose, paralisia periódica, tireotoxicose, refeedingK urinário baixo
3. Perda gastrointestinalVômitos, diarreia, laxantes, fístulasK urinário baixo
4. DiuréticosTiazídicos, furosemidaHistória medicamentosa
5. Excesso de mineralocorticoideConn, Cushing, Liddle, regaliz, AME, hiperaldo 2ºHAS + alcalose + K urinário ALTO
6. TubulopatiasBartter, Gitelman, ATR 1 e 2Sem HAS, jovens
7. HipomagnesemiaDiuréticos, álcool, IBP, diarreiaHipoK refratária à reposição

Diferencial: HAS + HipoK + Alcalose

CondiçãoAldoReninaPista chave
Hiperaldo 1º (Conn)Adenoma adrenal, mais comum em adultos
Hiperaldo 2º (estenose AR)Sopro abdominal, doença aterosclerótica
S. Cushing=/⬆Cortisol alto, fácies, estrias
S. LiddleGenética, jovens, responde amilorida
AME (regaliz)História de uso de licorice
Bartter / GitelmanSem HAS, jovens
05 / Interativo

Simulador de K sérico.

Mova o slider e veja como mudam os sintomas, o ECG e a conduta em diferentes níveis de potássio.

Potássio sérico

Arraste para explorar diferentes valores
1,8
mEq/L

CRÍTICA — Risco iminente de morte

  • Paralisia flácida + arreflexia
  • ECG: ONDA U proeminente, achatamento de T, alargamento QRS
  • Risco de arritmias fatais (TV, FV, torsades)
  • Conduta: KCl EV 10-20 mEq/h em SF 0,9% via central + monitorização ECG contínua
06 / ECG

Evolução elétrica.

A hipocalemia altera a repolarização — clique nos botões para ver como o ECG muda em diferentes níveis de K+:

K = 4,0 mEq/L: ECG normal — onda P, complexo QRS estreito, segmento ST isoelétrico, onda T positiva e proporcional ao QRS.
07 / Cálculo

Relação K/Cr urinária.

O exame mais útil para diferenciar perda renal de extra-renal. Calcule abaixo:

Calculadora K/Cr urinária

A relação > 13 mEq/g sugere perda RENAL de potássio. < 13 mEq/g sugere perda extra-renal ou translocação.

Relação = [K urinário (mEq/L)] / [Cr urinária (g/L)]
52,0
mEq de K por g de Cr
PERDA RENAL CONFIRMADA — em hipocalemia, o rim deveria estar poupando K. Aqui está perdendo. Investigar excesso mineralocorticoide, diuréticos, tubulopatia.
08 / Quiz

Teste seu conhecimento.

Clique para revelar as respostas. Tente responder antes!

09 / Resumo

Take-home messages.

01

K urinário separa as causas

K urinário > 20 mEq/L (ou K/Cr > 13) = perda renal. Baixo = extra-renal ou translocação.

02

HAS + HipoK + Alcalose

Síndrome reconhecível: pense em excesso de mineralocorticoide até prova em contrário.

03

Onda U = grave

É o achado mais característico de hipocalemia grave. Vem com achatamento de T e depressão de ST.

04

Sem Mg, sem K

Hipomagnesemia torna a hipoK refratária. Sempre repor magnésio em hipoK que não responde.

05

Nunca em SG

Soro glicosado libera insulina, joga K para dentro da célula e piora a hipoK transitoriamente. Use SF 0,9%.

06

Velocidade EV importa

Periférica: máx 10 mEq/h e 40 mEq/L. Central com monitorização: até 20 mEq/h em casos graves.

07

Hiperaldo é subdiagnosticado

5-15% de todos os hipertensos. Causa MAIS COMUM de HAS secundária. Investigue em todo HAS resistente ou com hipoK.

08

Cuidado em CAD

K "normal" no início é falsamente tranquilizador. Insulina + correção de acidose despencam o K. Sempre repor antes da insulina se K < 5,3.