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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Lesão renal
aguda.

Queda da TFG em horas a dias. Diagnóstico que parece sutil — só uma creatinina a mais — mas que mata até 1 em cada 2 pacientes graves. Identificar a causa antes da diálise é o que muda o desfecho.

Mortalidade hosp.
20-50%
Estágios KDIGO
3
Mais comum
Pré-renal
IRA na UTI
~50%
01 / Definição

O que é IRA?

A insuficiência renal aguda (IRA / LRA / AKI) é uma síndrome clínica definida como uma diminuição abrupta da função renal suficiente para resultar em retenção de escórias nitrogenadas (azotemia), perturbação do volume extracelular e alteração no equilíbrio hidroeletrolítico.

A maioria dos pacientes é assintomática no início: o diagnóstico é geralmente laboratorial — elevação da creatinina sérica e/ou queda do débito urinário.

Critérios diagnósticos KDIGO

Basta UM dos três critérios:

  • ↑ creatinina sérica ≥ 0,3 mg/dL em 48 horas, OU
  • ↑ creatinina sérica ≥ 1,5× o basal nos últimos 7 dias, OU
  • Débito urinário < 0,5 mL/kg/h por mais de 6h

Estagiamento KDIGO

O estágio é definido pelo pior critério (Cr OU débito urinário) — basta um deles preencher.

EstágioCreatininaDébito urinário
KDIGO 1↑ ≥ 0,3 mg/dL ou 1,5–1,9× o basal< 0,5 mL/kg/h por ≥ 6h
KDIGO 2↑ 2,0–2,9× o basal< 0,5 mL/kg/h por ≥ 12h
KDIGO 3↑ ≥ 3× o basal ou Cr ≥ 4,0 mg/dL ou início de TRS< 0,3 mL/kg/h por ≥ 24h ou anúria ≥ 12h

Fonte: KDIGO Clinical Practice Guideline for AKI, 2012.

Definições rápidas

  • Oligúria: diurese < 400 mL/24h (ou < 0,5 mL/kg/h)
  • Anúria: diurese < 100 mL/24h — pensar em obstrução completa, oclusão vascular bilateral ou necrose cortical
  • Azotemia: elevação de ureia e creatinina, sem manifestações clínicas
  • Síndrome urêmica: azotemia + manifestações clínicas (encefalopatia, pericardite, sangramento)
  • IRA vs DRC: tempo de instalação (horas/dias vs meses/anos), tamanho dos rins na US (normais na IRA, atróficos na DRC), anemia (mais marcada na DRC)
02 / Categorias

As três caixas.

Toda IRA cabe em uma das três categorias anatômicas — pré-renal, renal intrínseca, pós-renal. Encaixar a causa nessa caixa é o primeiro passo do raciocínio. Toque em cada card para expandir.

60-70% dos casos

Pré-renal

Hipoperfusão renal sem dano tubular ainda. O rim está estruturalmente íntegro — só não chega sangue suficiente. Reversível se corrigida prontamente.

Causas — pense em 4 baldes

  • Hipovolemia verdadeira: hemorragia, vômito/diarreia, diurético em excesso, queimadura extensa, perda para 3º espaço
  • Baixo débito cardíaco: ICC descompensada, IAM, tamponamento, embolia pulmonar maciça, valvopatia grave
  • Vasodilatação sistêmica: sepse, anafilaxia, anestesia, cirrose (síndrome hepatorrenal)
  • Hemodinâmica intra-renal alterada: IECA/BRA (dilatam eferente), AINE (contraem aferente), ciclosporina, estenose bilateral de AR

Padrão de urina

Rim funcional ativa o RAA — retém sódio e água → urina concentrada (osmolaridade alta) + pobre em sódio (Na < 20, FENa < 1%).

Sedimento

Limpo ou apenas cilindros hialinos.

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~25% dos casos

Renal intrínseca

Lesão direta do parênquima renal. Subdividida em 4 compartimentos: tubular, intersticial, glomerular, vascular. A NTA é, de longe, a causa mais comum.

1. NTA (necrose tubular aguda) — a estrela

  • Isquêmica: continuação de um pré-renal não revertido (sepse, choque)
  • Nefrotóxica exógena: contraste iodado, aminoglicosídeo, vancomicina, AINE, cisplatina, anfotericina B, IFN, tenofovir
  • Nefrotóxica endógena: mioglobina (rabdomiólise), hemoglobina (hemólise), cadeias leves (mieloma), ácido úrico (síndrome de lise tumoral)

2. NIA (nefrite intersticial aguda)

Reação alérgica do interstício. Drogas: AINE, IBP, β-lactâmicos, sulfa, rifampicina, alopurinol. Infecção (legionela, leptospirose). Autoimune (LES, sarcoidose). Pode ter tríade clássica: febre + rash + eosinofilia/eosinofilúria.

3. Glomerulonefrite aguda

Síndrome nefrítica (hematúria + cilindros hemáticos + HAS + edema). Primárias e secundárias — vide aula de glomerulopatias.

4. Doença vascular

Vasculite (ANCA), ateroembolismo de colesterol (pós-cateterismo, livedo), microangiopatia trombótica (SHU, PTT, HELLP), trombose de artéria/veia renal, necrose cortical.

Padrão de urina

Tubular lesado não reabsorve Na → urina diluída (osmolar ~300) + rica em sódio (Na > 40, FENa > 2%). Sedimento com cilindros granulosos marrons ("muddy-brown casts") na NTA.

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5-10% dos casos

Pós-renal

Obstrução do fluxo urinário → pressão hidrostática retrógrada → ↓ filtração glomerular. Chamamos de hidronefrose. Precisa ser bilateral ou em rim único — porque o contralateral compensa.

Onde a obstrução pode estar?

  • Intraluminal (dentro do trato): cálculo bilateral ou em rim único, coágulo, necrose papilar, tumor vesical
  • Extraluminal (compressão): HPB (causa mais comum em homem idoso), neoplasia de próstata, bexiga ou colo uterino, fibrose retroperitoneal, linfoma, cirurgia pélvica
  • Funcional: bexiga neurogênica (lesão medular, diabetes), drogas anticolinérgicas

Sinais que sugerem

Anúria súbita, dor lombar, distensão vesical, globo vesical palpável, história de HPB, neoplasia urológica ou litíase.

Primeira investigação

US de rins e vias urinárias — afasta hidronefrose. Se obstrução: desobstruir é a prioridade (cateter vesical, nefrostomia, duplo J). Vigiar poliúria pós-desobstrução.

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03 / Diferencial

Pré-renal vs NTA.

Essa é a pergunta na enfermaria. Você já afastou pós-renal pela US. Agora: o rim está hipoperfundido (reversível com volume) ou já lesado (NTA, recuperação lenta)? A urina conta.

Marcador Pré-renal NTA Lógica
FENa < 1% > 2% Rim íntegro reabsorve Na; tubular lesado, não
FEUr (uso de diurético) < 35% > 50% Útil quando paciente está em furosemida (FENa fica falsamente alta)
Sódio urinário < 20 mEq/L > 40 mEq/L Rim retém Na quando hipoperfundido
Osmolaridade urinária > 500 mOsm/kg ~300 (isostenúria) Rim íntegro concentra; NTA perde capacidade
Densidade urinária > 1.020 ~1.010 Reflete a osmolaridade
Relação Ureia/Cr sérica > 40 (BUN/Cr > 20) < 20 (BUN/Cr < 15) Pré-renal: ureia reabsorvida desproporcionalmente à Cr
Sedimento Cilindros hialinos / limpo Cilindros granulosos marrons "Muddy-brown casts" = células tubulares descamadas
Resposta a volume Cr melhora em 24-72h Não melhora (já há dano) Teste terapêutico

Fórmula da FENa

FENa (%) = [(Naurina × Crsérica) / (Nasérico × Crurina)] × 100

Ou seja: estamos comparando o que o rim excretou de sódio (em relação ao plasmático) com o quanto ele filtrou (estimado pela depuração de creatinina). Quanto mais sódio escapou, mais lesado o tubular.

Pegadinhas com FENa

  • Diurético em uso: FENa fica falsamente alta — use FEUr (<35% sugere pré-renal)
  • NTA por contraste/rabdomiólise: pode ter FENa < 1% (vasoconstrição renal intensa)
  • Síndrome hepatorrenal: FENa < 1% (apesar de ser quase um pré-renal "absoluto")
  • GN aguda: FENa < 1% (vasoconstrição preferencial)
  • DRC prévia + qualquer agressão: FENa basal pode estar > 1%

Tabela mestre: pré-renal × NTA × pós-renal

Todos os marcadores lado a lado. Uma leitura horizontal cobre a maioria das questões de diagnóstico diferencial em IRA.

Marcador Pré-renal NTA Pós-renal Lógica
FENa < 1% > 2% Variável (1–3%) Rim intacto reabsorve Na; tubular lesado, não
FEUreia (diurético) < 35% > 50% Variável Não afetada por furosemida — use em paciente em diurético
Sódio urinário (Nau) < 20 mEq/L > 40 mEq/L > 40 mEq/L (tardio) Retenção de Na pela ativação do SRAA no pré-renal
Osmolaridade urinária > 500 mOsm/kg ~300 (isostenúria) Variável → isostenúria (tardio) Capacidade de concentrar urina = tubular íntegro
Relação BUN/Cr sérica > 20 (BUN) / > 40 (Ur/Cr, mg/mg) < 15 < 15 Pré-renal: ureia reabsorvida desproporcional à creatinina
Sedimento urinário Limpo / cilindros hialinos Cilindros granulosos marrons (muddy-brown) Hematúria (cálculo) / normal Cilindros granulosos = células tubulares descamadas
Resposta a expansão volêmica Cr melhora em 24-72h Não melhora (lesão estabelecida) Não melhora (falta desobstrução) Teste terapêutico orientado pela etiopatogenia
Ultrassonografia Rins normais; ↓ IR Doppler Rins normais ou levemente aumentados Hidronefrose bilateral ou unilateral em rim único US é o primeiro exame — afasta pós-renal
Creatinina sérica Sobe (↑ 0,3-1,5 mg/dL/dia) Sobe (> 0,5-1 mg/dL/dia) Pode ser abrupta (anúria) Velocidade de ascensão nem sempre diferencia
AKI sobre DRC (sinal diferenciador) US com rins atróficos (< 9 cm) + anemia normo-normo + hiperfosfatemia crônica + história sugestiva DRC tem rins menores; IRA tem rins normais (exceto DM, amiloidose, policística)

AKI sobre DRC vs DRC agudizada — como diferenciar

As duas situações se sobrepõem, mas orientam condutas diferentes. Pistas de que houve agressão aguda sobre DRC preexistente:

  • Variação aguda da Cr: aumento ≥ 0,3 mg/dL em 48h ou ≥ 1,5× do basal em 7 dias — mesmo que a Cr "basal" já fosse 2 mg/dL
  • US com rins normais/aumentados apesar de DRC conhecida — sugere agressão aguda sobreposta (NTA, NIA)
  • Sedimento urinário ativo: cilindros granulosos + hematúria = novo processo, não só DRC
  • Identificar a causa aguda: nefrotóxico introduzido recentemente, episódio de hipotensão, infecção — tratar isso pode recuperar parte da função basal
  • Rins de tamanho normal em DRC: exceções que não excluem cronicidade — DM, amiloidose, HIV, mieloma, policística
04 / Calculadora

Calc · FENa.

Insira os 4 valores. A calculadora dá a FENa e a interpretação.

⚗️ Fração de Excreção de Sódio
FENa = (Nau × Crs) / (Nas × Cru) × 100
Resultado

Como interpretar

  • FENa < 1%: sugere pré-renal (ou GN aguda, contraste, hepatorrenal)
  • FENa 1–2%: zona cinzenta — correlacione clínica
  • FENa > 2%: sugere NTA (tubular lesado, perde sódio)
  • Cuidado: uso de diurético invalida a FENa — prefira FEUr (Fração de Excreção de Ureia)
05 / Calculadora

Calc · Estágio KDIGO.

Insira a creatinina basal, a atual e o débito urinário. A calculadora retorna o estágio KDIGO (pior critério prevalece).

📊 Estagiamento KDIGO
O estágio é definido pelo PIOR critério entre Cr e DU.
Estágio
06 / Calculadora

Calc · FEUreia.

Use quando o paciente está em diurético — a furosemida eleva a FENa independentemente da causa, tornando-a inútil. A FEUreia não é afetada por diuréticos e distingue pré-renal de NTA mesmo sob esse cenário.

Fração de Excreção de Ureia
FEUr (%) = (Uru × Crs) / (Urs × Cru) × 100
Resultado

Por que FEUreia e não FENa em paciente com diurético?

Furosemida inibe a reabsorção tubular de sódio no ramo ascendente da alça de Henle — isso aumenta artificialmente a FENa mesmo num rim funcional em pré-renal. A ureia, por outro lado, é reabsorvida passivamente no túbulo proximal e coletores via gradiente osmótico, processo que não depende do transportador inibido pela furosemida. Assim, um rim hipoperfundido ainda concentra ureia avidamente, mantendo FEUreia baixa. Quando o túbulo está necrosado (NTA), essa capacidade se perde e a FEUreia sobe.

Armadilhas da FEUreia

  • Dieta hiperproteica ou catabolismo: eleva ureia sérica e pode alterar a relação
  • Corticoide sistêmico: aumenta catabolismo proteico → ureia sérica alta → pode falsear resultado
  • Síndrome hepatorrenal: FEUreia baixa (comporta-se como pré-renal extremo)
  • Limite diagnóstico: zona cinzenta entre 35-50% — correlacionar com clínica, FENa e sedimento
07 / Mecanismos

Fisiopatologia em profundidade.

A hemodinâmica glomerular, a cascata isquêmica do tubular e os mecanismos específicos de lesão são os pilares de qualquer questão difícil. Aqui o mecanismo explica a clínica.

1. Hemodinâmica glomerular — o duplo controle arteríolar

A TFG depende da pressão de filtração efetiva, determinada pelo gradiente entre a arteríola aferente (entrada) e eferente (saída) do glomérulo. Em baixa perfusão, dois mecanismos opostos se ativam para preservar essa pressão:

1
Prostaglandinas vasodilatam a aferente Em resposta à hipoperfusão, o rim libera PGE2 e PGI2 (prostaciclina). Essas prostaglandinas vasodilatam preferencialmente a arteríola aferente, aumentando a entrada de sangue no glomérulo e, assim, preservando a pressão de filtração. AINE bloqueia essa defesa — inibe COX e suprime a síntese de PG. O resultado: a aferente não dilata, a pressão de entrada cai e a TFG colapsa.
2
Angiotensina II vasoconstri a eferente O SRAA ativado pela hipoperfusão gera angiotensina II, que vasoconstri preferencialmente a arteríola eferente. Ao "fechar a saída" do glomérulo, a pressão intraglomerular sobe, compensando a baixa pressão de entrada. IECA/BRA bloqueia essa defesa — a eferente se dilata, a pressão de filtração cai e a TFG colapsa.
3
Triple whammy — as três defesas quebradas ao mesmo tempo AINE (quebra PG-aferente) + IECA (quebra Angio-eferente) + diurético (reduz volemia) = perda de todos os mecanismos compensatórios hemodinâmicos simultaneamente. Em idoso com DRC ou ICC prévia, essa combinação é altamente letal para o rim — mesmo doses terapêuticas são suficientes para precipitar IRA grave.

Por que IECA é cardioprotetor mas causa IRA em estenose bilateral?

Na ICC sem estenose de artéria renal, o IECA reduz a pós-carga cardíaca e melhora o débito — o rim recebe mais fluxo, mesmo com a eferente dilatada. Já na estenose bilateral (ou unilateral em rim único), a perfusão já está comprometida antes do glomérulo: a angiotensina II na eferente é o único mecanismo que mantém a TFG. Bloquear o SRAA nesse cenário remove o único suporte. Mesma droga, efeito oposto — porque o contexto hemodinâmico é diferente.

2. NTA isquêmica — a cascata celular

1
Hipóxia → depleção de ATP O segmento S3 do túbulo proximal e a porção espessa da alça de Henle são os mais suscetíveis — alta demanda energética (bombas Na/K ATPase ativas) e localização medular com baixa pO2 basal. Isquemia → queda brusca de ATP.
2
Depleção de ATP → perda de polaridade celular As bombas de sódio migram do polo basolateral para a face luminal. A célula perde a arquitetura polarizada: as vilosidades (brush border) desaparecem, as tight junctions se abrem, e a célula se achata ou descama para o lúmen.
3
Descamação → cilindros granulosos + obstrução intraluminal As células descamadas e debris formam os "cilindros granulosos marrons" (muddy-brown casts) visíveis no sedimento. Esses cilindros obstroem o lúmen tubular — a pressão hidrostática retrógrada se eleva e contrapõe a pressão de filtração glomerular, reduzindo ainda mais a TFG.
4
Backleak — o que filtrou, volta Com as tight junctions abertas, mesmo o filtrado que consegue entrar no túbulo "vaza" de volta para o interstício e circulação. A creatinina sérica sobe não só porque a filtração caiu, mas porque a reabsorção paradoxal aumenta. Esse mecanismo explica por que a Cr sobe desproporcionalmente em NTA grave.
5
Reperfusão — paradoxo inflamatório A reoxigenação gera burst de espécies reativas de oxigênio (ERO) — lesão de reperfusão. Neutrófilos e macrófagos infiltram o interstício. A recuperação da NTA (1-3 semanas) depende da regeneração do epitélio tubular por células tronco residentes.

3. Mecanismos de lesão específicos

Rabdomiólise — três mecanismos simultâneos

A mioglobina liberada do músculo necrótico chega ao rim por três vias de agressão que se potencializam:

  • Vasoconstrição renal: a mioglobina sequestra óxido nítrico (NO), vasodilatador endógeno → isquemia medular
  • Toxicidade tubular por ferro: em pH ácido, o grupo heme da mioglobina libera ferro livre → reações de Fenton → geração de ERO → necrose do tubular proximal. Por isso a alcalinização urinária (bicarbonato) é controversa mas racional — em pH urinário > 6,5, o ferro permanece ligado ao heme
  • Obstrução por cast: mioglobina + proteína de Tamm-Horsfall (uromucóide) precipitam em pH ácido e formam cilindros pigmentares que obstruem o néfron distal. A hidratação agressiva (200-300 mL/h de urina) dilui e "lava" esses cilindros antes que precipitem

Por que SF 0,9% e não Ringer lactato na rabdomiólise? O Ringer lactato contém 4 mEq/L de potássio — em rabdomiólise, a hipercalemia já é uma ameaça pela lise muscular maciça. O SF 0,9% não adiciona potássio e provê cloreto que ajuda a acidificar menos a urina comparado a outros cenários. (Nota: evidência ainda limitada; ambos aceitáveis, mas SF preferido se K elevado.)

Síndrome de lise tumoral — o quarteto tóxico

A lise celular maciça (quimioterapia, neoplasias de alto turnover) libera simultaneamente quatro substâncias nefrotóxicas:

  • Ácido úrico: cristaliza nos túbulos coletores em pH ácido → obstrução + inflamação. Prevenção: alopurinol (bloqueia XO) ou rasburicase (degrada urato). Hidratação agressiva
  • Fosfato: precipita com cálcio como cristais de hidroxiapatita no interstício e túbulos → microcalcificações → NTA + inflamação tubular
  • Cálcio: hipocalcemia (cálcio capturado pelo fosfato) → risco de arritmia, tetania, convulsão
  • Potássio: hipercalemia aguda → risco imediato de arritmia fatal. É a complicação mais precoce e perigosa da SLT

Síndrome hepatorrenal — vasodilatação esplâncnica e o rim como vítima hemodinâmica

Na cirrose avançada, a hipertensão portal gera vasodilatação esplâncnica mediada por NO e substância P:

  • Vasodilatação esplâncnica: sangue "sequestrado" nos vasos do território portal → queda do volume circulante efetivo (VCE), apesar de hipervolemia total (ascite, edema)
  • Ativação neuro-humoral: o barorreceptor "lê" VCE baixo → SRAA + sistema nervoso simpático + ADH = vasoconstrição sistêmica e renal intensa
  • Vasoconstrição renal extrema: arteríolas renais em espasmo → TFG colapsa. O rim estruturalmente normal não consegue filtrar porque não chega sangue
  • Por que albumina IV é tratamento e não só diagnóstico: a albumina expande o VCE (oncose), melhora o barorreflexo e reduz o estímulo neuro-humoral vasoconstritor. Nas diretrizes atuais, albumina 1 g/kg/dia por 2 dias (máx 100 g/dia) é parte do protocolo diagnóstico-terapêutico da SHR-AKI — sem resposta = SHR confirmada e continua-se a droga vasoativa. A terlipressina vasoconstri o território esplâncnico, redistribuindo sangue para a circulação sistêmica e renal

AKI da sepse — além do pré-renal clássico

Por décadas a AKI da sepse foi tratada como "pré-renal por hipotensão". Estudos post-mortem mostraram que 50% dos pacientes com AKI séptica têm achados tubulares mínimos ou ausentes — questionando o modelo NTA puro. A hipótese atual inclui:

  • Componente hemodinâmico: hipotensão + hipoperfusão renal (o pré-renal clássico)
  • Vasodilatação renal paradoxal: em fase hiperdinâmica da sepse, o fluxo renal pode estar aumentado mas a TFG cai pela vasodilatação da eferente (microbioma + endotoxina dilatam via NO)
  • Inflamação direta: citocinas (IL-6, TNF-α) lesam diretamente o epitélio tubular e ativam apoptose
  • Trombose microvascular: coagulação intravascular → microtrombos em capilares peritubulares → isquemia focal
  • Mitocondrial: disfunção mitocondrial e "bioenergetic shutdown" — fenômeno adaptativo (hibernação celular) que pode ser parte do mecanismo, não só destruição

Isso explica por que ressuscitação volêmica agressiva nem sempre recupera a TFG — e por que o tratamento da causa (antibiótico, controle do foco) é tão central quanto a volemia.

08 / Decisão

Árvore pré · renal · pós.

Diante de um paciente com IRA, toque nas opções que descrevem o caso. A árvore te conduz à categoria mais provável.

Achado dominante:

A
Anúria súbita, globo vesical, dor lombar, HPB / câncer pélvico / cálculo conhecido. US mostra hidronefrose.
B
Hipovolemia / hipotensão: vômito, diarreia, sangramento, ICC descompensada, sepse precoce. Mucosa seca, taquicardia, PA baixa. Sedimento limpo.
C
Choque persistente > 24h, contraste iodado recente, aminoglicosídeo, rabdomiólise. Cilindros granulosos marrons no sedimento.
D
Droga nova (β-lactâmico, AINE, IBP, sulfa) há 7-14 dias + febre + rash + eosinofilúria.
E
Hematúria + proteinúria + HAS + edema ("síndrome nefrítica"). Cilindros hemáticos, dismorfismo eritrocitário.

09 / Nefrotóxicos

Drogas que matam o rim.

Mais da metade das NTA hospitalares tem um nefrotóxico no histórico. Toque na linha para ver o mecanismo e a prevenção.

DrogaPadrão de lesãoMecanismo
Contraste iodado NTA Vasoconstrição + tóxico direto
Mecanismo: vasoconstrição da medular (hipóxia) + lesão tóxica direta ao tubular proximal. Pico em 48-72h.
Prevenção: hidratação com SF 0,9% ou bicarbonato isotônico antes e depois do exame. Suspender AINE / metformina. Avaliar TFG basal. Em paciente de muito alto risco, considerar postergar contraste ou usar US/RM sem gadolínio.
Aminoglicosídeos (gentamicina, amicacina) NTA Acúmulo lisossomal no tubular proximal
Mecanismo: filtrados livremente, captados pelo tubular proximal e acumulados em lisossomos → necrose. Início típico após 5-7 dias.
Prevenção: dose única diária, monitorar vale (não pico), curso curto, ajustar para função renal. Evitar combinação com outros nefrotóxicos.
Vancomicina NTA (alta concentração) Toxicidade tubular direta
Mecanismo: risco aumenta com vale > 20 mg/L, uso prolongado, associação com piperacilina-tazobactam.
Prevenção: monitorar vale, ajustar dose, evitar associações nefrotóxicas, hidratar.
AINE Pré-renal / NTA / NIA Inibe PG → ↓ vasodilatação aferente
Mecanismo: em situações de baixa perfusão (idoso, ICC, cirrose, desidratação), a TFG depende das prostaglandinas vasodilatadoras da arteríola aferente. AINE bloqueia → colapso da TFG. Pode também causar NIA por hipersensibilidade.
Prevenção: evitar em idoso/ICC/cirrose/DRC; nunca associar com IECA + diurético ("triple whammy").
IECA / BRA Hemodinâmica Dilata a eferente → ↓ pressão de filtração
Mecanismo: em estenose bilateral de artéria renal (ou unilateral em rim único), a manutenção da TFG depende da vasoconstrição da eferente mediada por angiotensina II. IECA/BRA abolem isso → IRA aguda dose-dependente.
Prevenção: avaliar estenose AR antes de iniciar; tolerar aumento de Cr de até 30% (é esperado); suspender se > 30% ou hipercalemia.
Cisplatina NTA Lesão tubular cumulativa (proximal)
Mecanismo: dose-cumulativa, lesão tubular proximal + estresse oxidativo. Pode causar hipomagnesemia, hipocalemia, perda de sal.
Prevenção: hiper-hidratação com SF 0,9%, reposição de Mg, evitar associação com aminoglicosídeo. Amifostina pode ser usada em alguns regimes.
Anfotericina B NTA + perda tubular Poros na membrana tubular
Mecanismo: insere-se na membrana e cria poros — perda de K, Mg, acidose tubular distal. Vasoconstrição direta.
Prevenção: hidratação pré-infusão, preferir formulações lipossomais, monitorar eletrólitos, suspender se Cr dobrar.
Rabdomiólise (mioglobina) NTA Toxicidade direta + obstrução tubular + vasoconstrição
Mecanismo: mioglobina filtrada → tóxica para tubular + forma cilindros pigmentares. Vasoconstrição renal. Pista: CK > 5.000-20.000 U/L, urina cor "Coca-Cola", dipstick positivo para sangue sem hemácias.
Prevenção: hidratação agressiva (SF 0,9%, manter diurese 200-300 mL/h), considerar alcalinização urinária (controverso).
β-lactâmicos, sulfa, IBP NIA Hipersensibilidade do interstício
Mecanismo: reação de hipersensibilidade tipo IV. Início 7-14 dias após início (ou em horas se reexposição). Pode ter febre, rash, eosinofilia, eosinofilúria.
Conduta: suspender droga; corticoide nos casos graves ou com biópsia confirmatória.
Lítio DI nefrogênico, NIA crônica Lesão do tubular coletor
Mecanismo: reduz expressão de aquaporinas → diabetes insípido. Uso crônico → fibrose intersticial. Intoxicação aguda é dialisável.
Prevenção: monitorar litemia, hidratação, evitar AINE/diurético.

"Triple whammy" — o trio fatal do rim

IECA/BRA + diurético + AINE em paciente idoso ou com qualquer fator de hipoperfusão → IRA quase garantida. Evite essa combinação ou monitore Cr precocemente.

10 / Investigação

Como investigar.

1. Beira-leito — o que pesa

  • História focada: medicações novas (drogas + contraste + suplementos), vômito/diarreia, episódio de hipotensão, cirurgia recente, sintomas obstrutivos (jato fraco, esforço miccional), comorbidades (DM, HAS, ICC, cirrose, mieloma)
  • Volemia: mucosas, turgor, PA ortostática, pressão venosa jugular, ausculta pulmonar, edema
  • Sinais de obstrução: distensão vesical (palpação suprapúbica), toque retal (próstata), exame ginecológico se mulher
  • Sinais sistêmicos: rash (NIA, vasculite), artrite (lúpus), livedo (ateroembolismo), petéquias (PTT, vasculite)

2. Laboratório essencial

  • EAS (exame qualitativo de urina): proteínas, sangue, leucócitos, sedimento — obrigatório
  • Sedimento urinário: cilindros (hialinos = pré-renal; granulosos marrons = NTA; hemáticos = GN; leucocitários = NIA/pielo; gordurosos = nefrótico)
  • Bioquímica: Cr, ureia, Na, K, Cl, HCO3, Ca, P, Mg, ácido úrico, glicose, hemograma, plaquetas
  • Gasometria arterial (avalia acidose, hiato aniônico aumentado se uremia/intoxicação)
  • Na e Cr urinários → calcular FENa (ou FEUr se diurético)
  • Osmolaridade urinária (ou densidade como proxy)
  • Proteinúria de 24h ou relação prot/Cr em amostra isolada se proteínas no EAS
  • CK se suspeita de rabdomiólise; LDH, BT, haptoglobina, esquizócitos se suspeita de microangiopatia

3. Sorologias dirigidas (se síndrome nefrítica)

  • FAN, anti-DNA, C3/C4 — lúpus
  • ANCA (c-ANCA, p-ANCA) — vasculites
  • Anti-MBG — Goodpasture
  • ASLO, complemento — GN pós-estreptocócica
  • Crioglobulinas, HCV, HIV, HBV
  • Eletroforese de proteínas, cadeias leves — mieloma

4. Imagem — US é o primeiro

Ultrassonografia de rins e vias urinárias

É o primeiro exame. Função: afastar obstrução (pós-renal) e avaliar tamanho/ecogenicidade renal (diferenciar IRA × DRC).

  • IRA: rins de tamanho normal (10-12 cm)
  • DRC: rins atróficos (< 9 cm), perda da diferenciação córtico-medular, hiperecogenicidade
  • Hidronefrose: dilatação do sistema pielocalicial → pós-renal
  • Exceções (DRC com rins normais ou aumentados): nefropatia diabética, amiloidose, mieloma, doença policística, HIV

5. Biópsia renal — indicações

Reservada para casos em que o diagnóstico não está claro ou guia o tratamento:

  • Proteinúria nefrótica (> 3,5 g/24h)
  • Hematúria glomerular (com cilindros hemáticos)
  • Suspeita de GN rapidamente progressiva
  • Doença sistêmica com possível acometimento renal (LES, vasculite)
  • IRA sem causa óbvia após investigação completa
  • Falência de recuperação após 3-4 semanas de IRA presumida
  • Disfunção persistente em transplantado
11 / Complicações

O que vai matar.

A IRA em si raramente mata diretamente. O que mata são suas complicações metabólicas agudas — e algumas precisam ser revertidas em minutos.

1
Hipercalemia Pico em horas. K > 6,5 + alterações ECG (T apiculada, alargamento QRS, sinusoidal) é emergência. Conduta: gluconato de cálcio (estabiliza miocárdio), insulina + glicose, β-2 agonista, resina, furosemida se diurese. Diálise se refratária.
2
Acidose metabólica Rim não excreta H⁺ nem regenera HCO3. Hiato aniônico aumentado (ureia, sulfato). Bicarbonato venoso se pH < 7,1 ou HCO3 < 12. Cuidado com sobrecarga de Na e hipocalcemia.
3
Hipervolemia / EAP Rim não excreta volume. Restrição hídrica e sódica + furosemida em alta dose IV (1-2 mg/kg). Se refratário com hipoxemia: diálise / ultrafiltração.
4
Síndrome urêmica Encefalopatia (confusão, mioclonia, asterixe), pericardite urêmica (atrito, derrame, tamponamento), sangramento (disfunção plaquetária). Todas são indicação de diálise independente da Cr.
5
Distúrbios de Na Hiponatremia (excesso de água livre, comum se hidratação só com SG 5%). Hipernatremia menos comum. Corrigir lentamente (risco de mielinólise).
6
Hiperfosfatemia + hipocalcemia Rim não excreta P, há captação de Ca²⁺ pelo P. Tetania, convulsões, prolongamento QT. Quelantes de fósforo VO + reposição de cálcio.
7
Anemia + sangramento Anemia normo-normo (↓ eritropoetina). Disfunção plaquetária urêmica → sangramento mucoso. DDAVP, transfusão se ativo, diálise.
12 / Tratamento

Como tratar.

Sempre direcionado à causa específica. Não existe "tratamento da IRA" genérico — existe tratamento do fenótipo.

Por categoria

Pré-renal

  • Reposição volêmica com cristaloide (SF 0,9% ou Ringer lactato) — bolus de 500-1000 mL e reavaliar. Em sepse: 30 mL/kg em 3h conforme guideline
  • Suspender IECA/BRA, AINE, diurético
  • Otimizar débito cardíaco se causa cardíaca — diurético + vasodilatador na ICC, inotrópico se baixo débito, drenagem em tamponamento
  • Síndrome hepatorrenal: albumina + terlipressina (ou noradrenalina), considerar TIPS, transplante hepático

Renal intrínseca (NTA)

  • Suporte: manter euvolemia, equilíbrio eletrolítico, evitar progressão
  • Suspender nefrotóxicos, ajustar doses de medicamentos pela função renal
  • Não fazer dopamina em dose "renal" — sem evidência, pode prejudicar
  • Não usar diurético para "converter oligúrica em não-oligúrica" — não muda mortalidade, pode atrasar diálise
  • NIA: suspender droga; corticoide em casos graves ou biopsia confirmatória
  • GN aguda: tratamento imunossupressor específico (pulso de metilprednisolona ± ciclofosfamida em vasculite/GNRP)

Pós-renal

  • Desobstruir é a prioridade: cateter vesical (se obstrução baixa), nefrostomia ou duplo J (se obstrução alta)
  • Tratar a causa de base: RTUP, retirada de cálculo, oncologia
  • Vigilância da poliúria pós-desobstrução — pode haver perda maciça de Na e água nas primeiras 24-72h. Repor com base no volume urinário e eletrólitos

Suporte universal

  • Balanço hídrico rigoroso — peso diário, ingesta/excreta
  • Restrição de Na, K, P conforme estágio
  • Ajuste de doses de antibióticos e outras drogas pela TFG estimada
  • Profilaxia de TVP e úlcera de stress
  • Nutrição adequada — não restringir proteína excessivamente (catabolismo no doente crítico)
  • Vigilância de infecções — IRA é estado de imunossupressão funcional
13 / TRS

Os 5 As da diálise.

Indicações absolutas de terapia de substituição renal (TRS) na IRA. Memorize o mnemônico — vai cair em prova e vai aparecer na enfermaria. Toque em cada card para detalhar.

A01
Acidose metabólica refratária
pH < 7,1 ou HCO3 < 10 sem resposta a bicarbonato venoso e medidas conservadoras.
  • Geralmente associada a hiato aniônico aumentado
  • Tentar bicarbonato venoso primeiro, mas evitar sobrecarga de Na e hipocalcemia
  • Se choque + acidose lática profunda: TRS imediata
ToqueRecolher
A02
Alteração eletrolítica
Hipercalemia refratária (K > 6,5 com alterações ECG ou sem resposta a medidas farmacológicas).
  • Sempre tentar gluconato de cálcio + insulina/glicose + β-2 + resina + furosemida primeiro
  • Diálise se K > 7,0, alterações ECG persistentes, ou tendência ascendente
  • Outras: hipercalcemia grave, hiperfosfatemia com sintomas, hipermagnesemia, intoxicação dialítica
ToqueRecolher
A03
Azotemia sintomática (uremia)
Manifestações clínicas da uremia, independente do valor de ureia/Cr.
  • Encefalopatia urêmica — confusão, asterixe, mioclonia, convulsão
  • Pericardite urêmica — atrito, dor torácica, derrame, risco de tamponamento
  • Sangramento urêmico — disfunção plaquetária (mucosa, GI)
  • Ureia > 180-200 mg/dL costuma indicar TRS mesmo sem sintomas evidentes
ToqueRecolher
A04
Aumento de volume
Sobrecarga hídrica refratária — EAP que não responde a furosemida.
  • Especialmente importante em paciente anúrico
  • Ultrafiltração isolada pode bastar (sem necessidade de diálise plena)
  • Não esperar EAP grave — antecipar em paciente oligo-anúrico com balanço positivo persistente
ToqueRecolher
A05
Agentes — intoxicações dialisáveis
Substâncias com baixo peso molecular, baixa ligação proteica, baixo Vd.

Mnemônico SLIME:

  • Salicilato (AAS)
  • Lítio
  • Isopropanol
  • Metformina (acidose lática grave)
  • Etilenoglicol e etanol/metanol

Outros: ácido valproico, barbitúricos de ação longa, brometos, teofilina, dabigatrana.

ToqueRecolher

AEIOU — mnemônico alternativo (inglês) para as mesmas indicações

Frequente em provas com enunciado em inglês ou residência. Equivalência direta com os "5 As":

  • AAcidosis: acidose metabólica refratária, pH < 7,1 — sem resposta a bicarbonato venoso
  • EElectrolytes: hipercalemia refratária (K > 6,5–7,0 com alterações ECG ou progressiva) — após gluconato de Ca, insulina/glicose, β-2, resina
  • IIntoxication: intoxicações dialisáveis — salicilato, lítio, etilenoglicol, metanol, metformina (SLIME)
  • OOverload: sobrecarga hídrica refratária com EAP sem resposta a diurético IV em altas doses
  • UUremia: uremia sintomática — encefalopatia, pericardite com atrito ou derrame, sangramento urêmico (independente do valor de Cr/ureia)

Qualquer UM desses critérios é indicação. Não espere ter todos os cinco.

Quando começar antes? (TRS "precoce")

Em paciente crítico oligúrico com IRA KDIGO 2-3 progressiva, há evidência conflitante sobre TRS precoce vs tardia. A prática atual é iniciar na presença de indicação clássica, mas antecipar se trajetória ascendente clara, especialmente em UTI com sobrecarga hídrica progressiva.

14 / Perguntas

Perguntas socráticas.

Pense antes de revelar. As perguntas abaixo cobrem armadilhas frequentes em prova e na enfermaria.

?
Como diferenciar pré-renal de NTA usando só a urina?
Pense primeiro

O rim funcional retém sódio quando está com pouco sangue. O rim lesado não consegue mais reabsorver. Que marcadores capturam isso?

Cinco marcadores principais:

  • FENa < 1% (pré-renal) vs > 2% (NTA)
  • Na urinário < 20 (pré-renal) vs > 40 (NTA)
  • Osmolaridade urinária > 500 (pré-renal) vs ~300 (NTA)
  • Ureia/Cr sérica > 40 (pré-renal) — pré-renal reabsorve ureia desproporcionalmente
  • Sedimento limpo / hialino (pré-renal) vs cilindros granulosos marrons (NTA)
Resumo prático

Urina concentrada e pobre em sódio = pré-renal. Urina isostênica e rica em sódio, com cilindros sujos = NTA. Em paciente em diurético, use FEUr (fração de excreção de ureia) — < 35% sugere pré-renal.

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Por que IECA pode causar IRA em paciente com estenose de artéria renal?
Pense primeiro

Recorde: o que mantém a TFG é o gradiente de pressão glomerular. O que regula esse gradiente em cada lado do glomérulo? E o que acontece quando uma artéria está estenosada?

Em estenose de artéria renal:

  • A pressão de perfusão renal cai (estenose pré-arteriolar)
  • O sistema RAA é ativado → angiotensina II → vasoconstrição preferencial da arteríola eferente
  • Essa vasoconstrição "fecha a saída" do glomérulo, mantendo a pressão de filtração apesar da baixa pressão de entrada
  • É um mecanismo de autorregulação dependente de angio II

Quando você dá IECA ou BRA:

  • Bloqueia a vasoconstrição da eferente → ela se dilata
  • A pressão de filtração colapsa → TFG cai abruptamente
Implicação clínica

Em estenose bilateral (ou unilateral em rim único): IECA/BRA é proibido (risco de IRA grave). Em estenose unilateral com rim contralateral funcionante: pode tolerar, mas com queda funcional do lado estenótico. Aumento de Cr > 30% após início = suspender.

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Quando indicar diálise de urgência na IRA?
Pense primeiro

Qual o mnemônico clássico? E qual dessas indicações geralmente é a primeira a aparecer no paciente UTI oligúrico?

Os 5 As:

  • Acidose metabólica refratária (pH < 7,1)
  • Alteração eletrolítica (hipercalemia refratária com ECG alterado)
  • Azotemia sintomática (uremia: encefalopatia, pericardite, sangramento)
  • Aumento de volume refratário (EAP que não responde a furosemida)
  • Agentes — intoxicações dialisáveis (lítio, salicilato, metformina, etilenoglicol, metanol)
Na prática

Em paciente crítico, a indicação mais comum costuma ser a sobrecarga volêmica. Hipercalemia refratária é a indicação mais aguda (minutos a horas). Sempre tentar medidas farmacológicas antes — diálise é a "última cartada".

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O que é a síndrome hepatorrenal?
Pense primeiro

Cirrose causa vasodilatação esplâncnica. O que isso faz com o volume circulante "efetivo"? E como o rim, estruturalmente normal, responde?

É uma forma especial de IRA pré-renal funcional em paciente com cirrose avançada:

  • Mecanismo: vasodilatação esplâncnica + hipovolemia circulante efetiva → ativação intensa de RAA, simpático, ADH → vasoconstrição renal severa
  • Rim é estruturalmente normal — o problema é hemodinâmico
  • FENa muito baixa (< 1%), urina concentrada — comporta-se como pré-renal "absoluto"
  • Não responde a expansão volêmica isolada (a diferença para pré-renal "comum")

Tipos:

  • HRS-AKI (tipo 1): aguda, rapidamente progressiva, sobrevida medida em semanas
  • HRS-CKD (tipo 2): arrastada, função renal lentamente deteriorando
Tratamento

Albumina + terlipressina (ou noradrenalina como alternativa). Considerar TIPS em casos selecionados. Transplante hepático é o tratamento definitivo. Diálise é ponte para transplante (sem trasplante, prognóstico ruim).

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Por que rabdomiólise causa IRA?
Pense primeiro

Quando músculos são esmagados, liberam o quê na circulação? E quando essa substância chega ao rim, por quais mecanismos pode causar lesão?

A rabdomiólise libera mioglobina na circulação. No rim, ela causa lesão por três mecanismos simultâneos:

  • 1. Vasoconstrição renal — mioglobina depleta NO (vasodilatador), levando à isquemia medular
  • 2. Toxicidade tubular direta — ferro liberado da mioglobina gera espécies reativas de oxigênio, lesando o epitélio tubular proximal
  • 3. Obstrução tubular — em pH ácido, a mioglobina precipita formando cilindros pigmentares que obstruem o néfron

Pistas clínicas:

CK > 5.000-20.000 U/L urina cor "Coca-Cola" dipstick (+) para sangue sem hemácias hipercalemia hipocalcemia hiperfosfatemia ↑ ácido úrico
Tratamento

Hidratação agressiva com SF 0,9% para manter diurese 200-300 mL/h — diluir mioglobina, prevenir precipitação. Alcalinização urinária (bicarbonato) é controversa. Tratar a causa de base (esmagamento, esforço, drogas, convulsão prolongada, isquemia).

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Como prevenir IRA por contraste iodado?
Pense primeiro

Quem são os pacientes de maior risco? Qual a medida com maior evidência: hidratação, N-acetilcisteína, bicarbonato, suspender medicações?

Identificar risco: DRC (TFG < 60), idade > 75, diabetes com nefropatia, ICC, hipovolemia, mieloma, uso concomitante de nefrotóxicos.

Medidas com maior evidência:

  • Hidratação intravenosa com SF 0,9% (ou bicarbonato isotônico) — 1 mL/kg/h por 6-12h antes e 6-12h depois do exame (a medida com mais evidência)
  • Suspender AINE, IECA/BRA (controverso, mas geralmente recomendado em paciente de alto risco), diurético, metformina (esta por risco de acidose lática se IRA)
  • Usar o menor volume possível de contraste; preferir contraste iso ou de baixa osmolaridade
  • Avaliar TFG basal antes do exame, repetir Cr em 48-72h
  • N-acetilcisteína — evidência fraca/inconsistente, mas geralmente usada em alto risco (barato, baixo dano)
  • Considerar alternativas (US, RM sem gadolínio) em paciente muito alto risco
Não funciona

Diuréticos profiláticos (manitol, furosemida), dopamina "renal", hemodiálise profilática pós-contraste — não previnem e podem causar dano.

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Por que IECA causa IRA em estenose bilateral mas é cardioprotetor na ICC?
Pense primeiro

O IECA dilata a arteríola eferente em ambos os casos. O que muda entre um paciente com ICC sem estenose e um com estenose bilateral de artéria renal?

A chave está em o que determina o fluxo sanguíneo renal em cada cenário:

  • Na ICC sem estenose: o fluxo está baixo porque o coração não debita o suficiente. O IECA reduz pós-carga e resistência vascular sistêmica → melhora o débito cardíaco → o rim recebe mais fluxo. A eferente se dilata, mas a perfusão total melhora. A TFG pode cair um pouco (tolerável, até 30% é aceito), mas o paciente fica melhor
  • Na estenose bilateral de AR: há estenose antes do glomérulo. O fluxo que entra na aferente já está reduzido pela placa aterosclerótica. O único mecanismo que mantém a TFG é a angiotensina II vasoconstringindo a eferente ("segurando" a pressão intraglomerular). Bloquear o SRAA dilata a eferente e esse único suporte colapsa → TFG zero (ou quase)
Regra prática

IECA/BRA é contraindicado em estenose bilateral de AR (ou unilateral em rim único). O sinal de alerta é Cr subir > 30% nas primeiras 2-4 semanas após início. Em ICC sem estenose, é o contrário: a queda leve de Cr geralmente é aceitável e o benefício cardiovascular supera.

?
Por que AINE precipita IRA em ICC mas não em pessoa saudável?
Pense primeiro

O rim de uma pessoa saudável depende de prostaglandinas para manter a TFG? Em quais situações as PGs passam a ser indispensáveis?

Em condições basais, a TFG de uma pessoa saudável é mantida principalmente pela pressão arterial sistêmica — as prostaglandinas vasodilatadoras da arteríola aferente são produzidas em baixa quantidade e têm papel minor. Bloquear COX com AINE nesse contexto não compromete a TFG de forma clinicamente relevante.

Em estados de baixa perfusão renal (ICC, cirrose, hipovolemia, DRC, idoso com função marginal), o eixo se inverte:

  • O rim detecta queda de perfusão → ativa o SRAA → angiotensina II vasoconstri a eferente (preserva pressão intraglomerular)
  • Ao mesmo tempo, prostaglandinas (PGE2, PGI2) são sintetizadas localmente para vasodilatam a aferente — contrapesando parcialmente a vasoconstrição e mantendo o fluxo de entrada
  • AINE bloqueia essa compensação aferente → a vasoconstrição de angiotensina II não é mais contrabalançada → colapso do fluxo glomerular
A regra do "estado de dependência de PG"

A nefrotoxicidade do AINE não é universal — é condição-dependente. O rim se torna dependente de PG exatamente quando o SRAA está ativado. ICC, cirrose, desidratação, idoso, DRC preexistente: todos são estados de SRAA crônico. Neles, AINE é de alto risco. Combine com IECA e diurético = triple whammy garantido.

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AKI da sepse: pré-renal, NTA ou uma nova entidade?
Pense primeiro

Se a AKI séptica fosse simplesmente pré-renal por hipotensão, por que ressuscitação volêmica nem sempre resolve? E por que estudos post-mortem mostram pouquíssima necrose tubular em muitos pacientes com IRA séptica grave?

A visão clássica ("choque hipotensivo → isquemia → NTA") é insuficiente. Evidências dos últimos 15 anos mostram um quadro mais complexo:

  • Post-mortem: até 50% dos pacientes com AKI séptica têm pouca ou nenhuma necrose tubular franca — o padrão histológico predominante é vacuolização e apoptose dispersa, não necrose coagulativa maciça como na isquemia clássica
  • Vasodilatação renal paradoxal: em sepse hiperdinâmica, o fluxo renal pode estar aumentado. A TFG cai não por isquemia mas porque endotoxinas e citocinas dilata a eferente (via NO) — reduzindo a pressão de filtração sem isquemia
  • Inflamação direta: IL-6, TNF-α, complemento ativado → lesão direta do epitélio tubular + ativação de apoptose sem necrose evidente
  • Trombose microvascular: microtrombos em capilares peritubulares → isquemia focal e irregular
  • Disfunção mitocondrial adaptativa: as células tubulares podem entrar em "hibernação" — downregulam o consumo energético para sobreviver. É um mecanismo protetor, mas reduz a função de transporte e filtração
Implicação prática

A AKI séptica parece ser uma entidade fisiopatológica distinta, não apenas NTA por hipotensão. Isso explica por que: (1) ressuscitação volêmica só resolve parcialmente; (2) a recuperação é variável; (3) o foco deve ser tratar a infecção, não apenas repor volume. Superressuscitação volêmica pode piorar o desfecho por sobrecarga hídrica.

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Como diferenciar AKI sobre DRC de DRC pura sem episódio agudo?
Pense primeiro

O que caracteriza um processo agudo sobreposto a um crônico? Que ferramentas clínicas, laboratoriais e de imagem ajudam a distinguir?

A distinção importa porque a AKI sobre DRC (AKI-on-CKD) pode ter um componente reversível — identificar e tratar a causa aguda pode recuperar parte da função renal basal.

Sinal de agudização:

  • Variação da Cr: ↑ ≥ 0,3 mg/dL em 48h ou ↑ ≥ 1,5× do basal em 7 dias — mesmo que a Cr basal seja 3 mg/dL. O critério KDIGO é relativo, não absoluto
  • Velocidade: DRC pura piora lentamente (meses); AKI sobre DRC piora em dias
  • Sedimento urinário: DRC pura tem sedimento pobre. Se aparecem cilindros granulosos ou hemáticos → processo ativo
  • US: DRC tem rins atróficos (< 9 cm) e ecogênicos. Se os rins estão de tamanho normal em paciente com "DRC" conhecida, suspeitar de sobreposição aguda (ou rever o diagnóstico de DRC)
  • Identificar gatilho: nefrotóxico recente, infecção, hipotensão, desidratação, contraste, novo medicamento
Mensagem central

Nunca assumir que toda elevação de Cr em DRC é "progressão natural". Sempre buscar a causa aguda — porque tratar o componente reversível pode poupar anos de função renal residual. Em dúvida, considerar biópsia se causa não identificada e DRC não explanada.

?
Por que SF 0,9% na rabdomiólise mas Ringer lactato na sepse?
Pense primeiro

Qual o principal eletrólito que difere entre SF e Ringer? E qual é a complicação eletrolítica mais temida em cada condição?

A escolha do cristaloide não é aleatória — reflete o perfil de complicações específico de cada condição:

Rabdomiólise → SF 0,9%:

  • A rabdomiólise libera potássio maciço dos miócitos destruídos → hipercalemia é uma complicação imediata e letal
  • Ringer lactato contém 4 mEq/L de K — em contexto de hipercalemia já estabelecida, é contraproducente adicionar mais potássio ao cristaloide de ressuscitação
  • O objetivo da hidratação é diluir a mioglobina, prevenir precipitação de cilindros e manter fluxo urinário alto (200-300 mL/h) — o SF cumpre isso sem agravar a hipercalemia
  • Adicionalmente, o cloreto do SF ajuda a manter pH levemente mais ácido, o que paradoxalmente pode ser relevante em alguns protocolos que não usam alcalinização

Sepse → Ringer lactato (solução balanceada):

  • Sepse não cursa com hipercalemia precoce — o K do Ringer não é problema
  • SF 0,9% em grandes volumes (30 mL/kg ou mais, como na ressuscitação séptica) provoca acidose hiperclorêmica — o excesso de cloreto reduz a excreção renal de bicarbonato e gera acidose metabólica com hiato aniônico normal
  • Essa acidose hiperclorêmica pode ser confundida com acidose lática da sepse, obscurecendo a avaliação e levando a ressuscitação excessiva
  • Ringer lactato é "balanceado" — o lactato é metabolizado em bicarbonato pelo fígado, sem carga de cloreto. Preserva melhor o equilíbrio ácido-base
Resumo prático

SF na rabdomiólise = sem K adicional. Ringer na sepse = sem acidose hiperclorêmica por cloreto. Regras simples com fisiopatologia sólida. (Nota: evidência ainda em evolução; em situações mistas, avaliar caso a caso.)

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Hepatorrenal: por que albumina IV é parte do tratamento e não só do diagnóstico?
Pense primeiro

Você sabe que albumina + SF é usada no diagnóstico de SHR (para excluir pré-renal "simples"). Mas por que a albumina continua mesmo após o diagnóstico ser feito? Qual é o mecanismo terapêutico?

O protocolo diagnóstico da SHR-AKI (critérios ICA-AKI) inclui infusão de albumina 1 g/kg/dia por 2 dias (máx 100 g). Se a Cr não melhora, confirma-se SHR. Mas a albumina continua no tratamento pelos seguintes motivos:

  • Expansão do volume circulante efetivo (VCE): a vasodilatação esplâncnica em cirrose reduz o VCE. A albumina, por sua pressão oncótica, expande o compartimento intravascular — reduz o estímulo neuro-humoral (SRAA + simpático + ADH) que causa vasoconstrição renal
  • Efeito não-oncótico: albumina se liga a endotoxinas, substâncias pró-inflamatórias e produtos do metabolismo (como bilirrubina, ácidos graxos). Ao "limpar" esses ligantes vasoativos e inflamatórios, reduz indiretamente a vasoconstrição renal e a disfunção endotelial
  • Potencializa o efeito da terlipressina: a terlipressina vasoconstri os vasos esplâncnicos, redistribuindo sangue para a circulação sistêmica. Mas sem expansão de volume concomitante, pode piorar a perfusão de outros órgãos. A combinação sinergiza — terlipressina "fecha" o território esplâncnico e albumina "enche" o volume sistêmico
Protocolo prático

SHR-AKI confirmada: terlipressina 0,5-1 mg a cada 4-6h (IV) mais albumina 20-40 g/dia. Alternativa se terlipressina não disponível: noradrenalina em UTI + albumina. O desfecho com terlipressina + albumina é inversão da AKI em ~40-50% dos casos. Sem transplante hepático, a recorrência é alta.

15 / Quiz

Teste seu raciocínio.

Oito questões. Toque na alternativa para revelar o gabarito comentado.

Q1. Mulher 70 anos, ICC isquêmica, em furosemida 80 mg/dia e enalapril 20 mg. Início de naproxeno por dor lombar. 5 dias depois, Cr sobe de 1,2 para 2,8 mg/dL. Qual o mecanismo mais provável?

Q2. Paciente em pós-operatório de coronariografia há 2 dias. Cr basal 1,1, hoje 2,3. Sedimento: cilindros granulosos marrons. FENa 3,2%, Na urinário 56 mEq/L, osm 305 mOsm/kg. Dx mais provável?

Q3. Paciente 28 anos chega ao PS com K = 7,2 mEq/L, Cr = 6,8, anúrico há 24h após acidente automobilístico com esmagamento de membros inferiores. CK = 84.000 U/L. ECG: T apiculada simétrica em precórdio. Conduta imediata mais correta?

Q4. Homem 75 anos, HPB conhecida. Há 3 dias anúrico, dor suprapúbica intensa, distensão visível. Cr 4,2, ureia 180. Próximo passo diagnóstico?

Q5. Mulher 45 anos, há 10 dias iniciou ciprofloxacino para ITU. Apresenta-se com Cr 3,4 (basal 0,8), febre baixa, rash maculopapular, eosinófilos 12%. EAS: piúria estéril, eosinofilúria. Diagnóstico mais provável?

Q6. Sobre os critérios KDIGO de IRA, é correto afirmar:

Q7. Paciente cirrótico Child C, ascite tensa, internado por PBE. Cr basal 1,0; após 5 dias, Cr 3,2 a despeito de SF 0,9% 1L/dia. Sem hipotensão, sem sangramento. EAS limpo. US: rins normais. FENa 0,3%. Diagnóstico mais provável?

Q8. Qual das seguintes substâncias NÃO é classicamente dialisável em intoxicação aguda?

16 / Resumo

Take home.

01

KDIGO em 3 critérios

↑ Cr ≥ 0,3 em 48h OU ↑ Cr ≥ 1,5× basal em 7d OU DU < 0,5 mL/kg/h por > 6h. Basta um.

02

Três caixas

Pré-renal (60-70%) · Renal intrínseca (~25%) · Pós-renal (5-10%). Encaixe a causa antes de tratar.

03

US primeiro

Antes de qualquer raciocínio fino: US de rins e vias. Afasta pós-renal e dá pista de IRA × DRC pelo tamanho.

04

Pré-renal vs NTA pela urina

Concentrada + baixo Na (FENa < 1%) = pré-renal. Isostênica + alto Na + cilindros marrons = NTA.

05

Triple whammy

IECA + AINE + diurético em idoso = IRA quase garantida. Evite o trio.

06

NTA = a estrela

Causa renal intrínseca mais comum. Isquêmica (continuação de pré-renal) ou nefrotóxica (contraste, aminoglicosídeo, mioglobina).

07

NIA — tríade

Droga (β-lactâmico, AINE, IBP, sulfa) + febre + rash + eosinofilia. Suspender o agente é o tratamento.

08

Hipercalemia mata

K > 6,5 + ECG alterado: gluconato de cálcio IMEDIATAMENTE (estabiliza). Depois insulina/glicose, β-2, resina. Diálise se refratária.

09

5 As da diálise

Acidose · Alteração eletrolítica · Azotemia sintomática · Aumento de volume · Agentes dialisáveis.

10

Pós-renal: desobstruir

Sondagem vesical, nefrostomia ou duplo J — depende do nível. Vigie poliúria pós-desobstrução.

11

Contraste — prevenção

Hidratação IV antes e depois é o único pilar com evidência consistente. Suspender nefrotóxicos. NAC tem evidência fraca.

12

HRS é único

Cirrose + IRA + FENa baixa + não responde a SF. Tratamento: albumina + terlipressina. Transplante hepático é definitivo.

17 / Framework

Pense em 5 passos.

Toda vez que você vir uma queda da TFG — em prova ou em plantão — passe por estes 5 nós de raciocínio na ordem. Toque em cada cartão para aprofundar.

1
Passo 1 · Confirmar
É realmente IRA?
A elevação da creatinina preenche algum critério KDIGO? Tem Cr basal para comparar?
SIM
É IRA. Estagiar (KDIGO 1, 2 ou 3) e prosseguir investigação.
NÃO
Pode ser DRC sem agudização. US, anemia, eletrólitos crônicos, fundo de olho ajudam a distinguir.
Toque para aprofundarRecolher
Critérios KDIGO
  • ↑ Cr ≥ 0,3 mg/dL em 48h
  • ↑ Cr ≥ 1,5× a basal em até 7 dias
  • DU < 0,5 mL/kg/h por > 6h
IRA vs DRC — sinais favorecendo cronicidade
  • Rins atróficos (< 9 cm) na US
  • Anemia normocítica significativa
  • Hipocalcemia + hiperfosfatemia + ↑ PTH crônicos
  • Retinopatia hipertensiva ou diabética
  • Achados radiológicos prévios sugerindo cronicidade

Atenção: IRA pode ocorrer "sobre" DRC (a chamada AKI on CKD — frequente em diabéticos com infecção/contraste).

2
Passo 2 · Pós-renal
Há obstrução?
US mostra hidronefrose? História de anúria, próstata, neoplasia, cálculo, bexiga neurogênica?
SIM
IRA pós-renal. Desobstruir é prioridade: sondagem, nefrostomia ou duplo J.
NÃO
Seguir para passo 3 (pré-renal × renal intrínseca).
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Por que excluir pós-renal cedo?

Porque é a categoria com tratamento mais imediato e efetivo: basta desobstruir e a função renal frequentemente se recupera. Atrasar pode levar a perda permanente de néfrons.

Quem é candidato à obstrução?
  • Homem idoso (HPB, ca de próstata)
  • Anúria súbita (raro em outras causas)
  • Dor lombar tipo cólica + febre (cálculo bilateral)
  • Neoplasia pélvica conhecida
  • Bexiga neurogênica (DM, lesão medular)
  • Cirurgia pélvica/retroperitoneal recente
Cuidado: poliúria pós-desobstrução

Após desobstruir uma obstrução crônica, o paciente pode urinar volumes maciços nas primeiras 24-72h. Reponha com base no volume e nos eletrólitos — risco de hipovolemia e disnatremia.

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Passo 3 · Diferenciar
Pré-renal ou renal?
A urina é concentrada e pobre em Na (pré-renal), ou diluída, rica em Na e com cilindros sujos (NTA)?
PRÉ-RENAL
FENa < 1%, Na u < 20, osm > 500, BUN/Cr > 20, sedimento limpo. Responde a volume.
RENAL
FENa > 2%, Na u > 40, osm ~300, cilindros granulosos marrons. Não responde a volume.
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Pegadinhas
  • Diurético em uso — FENa alta artificialmente; use FEUr (<35% = pré-renal)
  • Contraste / rabdomiólise / GN aguda — FENa pode ser < 1% apesar de NTA
  • DRC prévia — FENa basal já pode ser > 1%
  • Hepatorrenal — comporta-se como pré-renal "absoluto" mas não responde a SF
Subdivisão da renal intrínseca
  • Tubular (NTA): cilindros granulosos marrons
  • Intersticial (NIA): piúria estéril + eosinofilúria + droga nova
  • Glomerular (GN): hematúria + proteinúria + cilindros hemáticos
  • Vascular: livedo, púrpura, esquizócitos, sopro abdominal
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Passo 4 · Causa específica
Qual o gatilho?
Drogas? Contraste? Sepse? Vômito/diarreia? ICC descompensada? Sangramento? Choque?
IDENTIFICÁVEL
Tratar a causa: suspender droga, expandir volume, controlar foco infeccioso, etc.
SEM CAUSA ÓBVIA
Ampliar investigação: sorologias, eletroforese, biópsia se necessário.
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Checklist da história
  • Drogas novas nos últimos 14 dias (com nome e dose)
  • Contraste iodado nas últimas 72h
  • Episódio de hipotensão documentado
  • Vômito, diarreia, sudorese volumosos
  • Sintomas de IC descompensada
  • Trauma, esforço extremo, convulsão prolongada (rabdo)
  • Hematúria macroscópica, edema, hipertensão de início agudo (GN)
  • Febre, rash, artralgia (vasculite, lúpus)
  • Sintomas obstrutivos urinários
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Passo 5 · Manejar
Complicações + TRS?
Há hipercalemia? Acidose grave? Sobrecarga? Uremia? Algum dos 5 As?
CORRIGIR JÁ
Hipercalemia: cálcio + insulina/glicose. Acidose: bicarbonato. Volume: furosemida.
5 As (+)
Indicação de TRS. Iniciar hemodiálise ou TRSC dependendo do contexto.
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Princípios do manejo
  • Tratamento direcionado à causa sempre — não existe terapia "da IRA"
  • Ajustar drogas pela TFG estimada
  • Suspender nefrotóxicos (mesmo "indispensáveis" — substituir)
  • Evitar sobrecarga hídrica; balanço diário rigoroso
  • Não usar dopamina "renal", manitol profilático, diurético para converter oligúrica — sem evidência
  • Antecipar e tratar complicações metabólicas
  • Indicar TRS pelos 5 As, não pelo valor isolado de Cr
Pós-alta

Paciente com IRA tem risco aumentado de progressão para DRC, recorrência de IRA e morte cardiovascular. Acompanhamento ambulatorial com nefro nos primeiros 3 meses é a recomendação.

Decisão clínica fundamentada

Cinco passos, da confirmação à TRS. Se você passa por todos eles antes de pedir hemodiálise, dificilmente erra a conduta — mesmo nos casos atípicos.