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Nefrologia · Clínica Médica II · UFRGS

Litíase
urinária.

A dor mais intensa que um humano pode sentir. Cólica nefrética: dor súbita, sangue na urina e a sombra da obstrução. Da nucleação cristalina à intervenção urológica — em cinco passos.

Prevalência
~10%
Recidiva 10a
50%
Cálcio
~75%
Cólica
10/10
01 / Epidemiologia

Por que importa.

A litíase urinária é a 3ª doença mais comum do trato urinário, atrás apenas das ITU e das condições prostáticas. Pegou força nas últimas décadas com a obesidade, dieta ocidental e diabetes — e mudou também o perfil demográfico. Memorize:

Prevalência
~10%
população geral (5-15%)
Razão H:M
2:1
gap diminuindo
Pico
30-50
anos
Recidiva
~50%
em 10 anos

Mensagem clínica

Um paciente que teve um cálculo tem 50% de chance de ter outro em 10 anos e ~75% em 20 anos. Por isso a abordagem nunca termina na expulsão — termina na investigação metabólica + prevenção. Sem isso, ele volta.

A epidemia silenciosa

Nos últimos 30 anos, a prevalência dobrou. Fatores: epidemia de obesidade/DM2, dieta hiperproteica, baixa ingesta hídrica, aquecimento global (mais perda hídrica), envelhecimento populacional. Mulheres antes pouco acometidas hoje chegam perto dos homens — provavelmente por mudanças no estilo de vida.

02 / Tipos de Cálculo

Cinco cristais.

Identificar o tipo de cálculo é fundamental — define a estratégia de prevenção e dá pistas sobre a causa subjacente. Toque em cada card para detalhes:

Oxalato de Cálcio
~60-75% · MAIS COMUM
Radiopaco. Forma-se em qualquer pH. O cálculo "default" do adulto.
Características
  • Radiopaco — visível em Rx simples
  • Forma-se em qualquer pH urinário (pouco dependente)
  • Mono-hidratado (whewellita, mais duro, resistente a LECO) ou di-hidratado (weddellita, mais fácil de fragmentar)
  • Cristal em "envelope" ou "haltere" no EAS
Causas comuns
  • Hipercalciúria idiopática (a mais frequente)
  • Hiperoxalúria (dietética, entérica — Crohn/bypass, primária)
  • Hipocitratúria (citrato não está "sequestrando" cálcio)
  • Hiperparatireoidismo primário
Prevenção

Hidratação ≥2,5L/dia, cálcio NORMAL na dieta (não restringir!), citrato (limão), reduzir sódio e proteína animal. Tiazídico se hipercalciúria persistente.

Fosfato de Cálcio
~5-15%
Radiopaco. Urina alcalina (pH>6,5). Pista de ATR tipo 1.
Características
  • Radiopaco
  • Forma-se em urina alcalina (pH > 6,5)
  • Brushita (CaHPO₄·2H₂O) ou hidroxiapatita — cálculos duros, resistentes
Causas / associações
  • Acidose tubular renal tipo 1 (distal) — bandeira vermelha. Investigue!
  • Hiperparatireoidismo primário
  • Uso crônico de inibidores da anidrase carbônica (acetazolamida, topiramato)
  • Hipercalciúria + pH urinário cronicamente elevado
Pista de ATR distal

Paciente com cálculos de fosfato de cálcio + nefrocalcinose + hipocitratúria + acidose metabólica hipoclorêmica com pH urinário > 5,5 sempre = ATR tipo 1.

Ácido Úrico
~5-10%
RADIOTRANSPARENTE. Urina ácida (pH<5,5). Obesidade/gota/SM.
Características
  • RADIOLUCENTE — INVISÍVEL no Rx (essencial saber!)
  • Visível em TC sem contraste (densidade ~400-700 UH, menor que cálculos cálcicos)
  • Forma-se em urina ácida (pH < 5,5)
  • Pode dissolver com alcalinização — único cálculo "tratável" sem cirurgia
Quem faz?
  • Síndrome metabólica / obesidade / DM2 — resistência à insulina reduz amoniogênese → pH urinário baixo
  • Gota — hiperuricemia e hiperuricosúria
  • Dieta hiperproteica (purinas: vísceras, frutos do mar)
  • Síndromes mieloproliferativas, quimioterapia (lise tumoral)
  • Diarreia crônica (perda de bicarbonato)
Tratamento específico

Alcalinização urinária com citrato de potássio (alvo pH 6,5-7,0) pode dissolver os cálculos. Hidratação + alopurinol se hiperuricemia/hiperuricosúria associada.

Estruvita
~5-10%
Fosfato-amônio-magnesiano. ITU por Proteus. Mulheres. Coraliforme.
Características
  • Fosfato-amônio-magnesiano (MgNH₄PO₄·6H₂O)
  • Cresce rapidamente — pode ocupar toda a pelve renal (coraliforme)
  • Radiopaco, mas com densidade menor que cálculos cálcicos
  • Mais comum em mulheres (ITU recorrente)
Mecanismo

Bactérias produtoras de urease (Proteus, Klebsiella, Pseudomonas, Ureaplasma) hidrolisam ureia → amônia + CO₂. Amônia eleva o pH urinário > 7. Em pH alcalino + amônio + magnésio + fosfato → precipitação rápida.

Bandeira vermelha
  • Cálculo coraliforme = quase sempre estruvita
  • É um cálculo infectado por dentro — bactérias ficam abrigadas dentro da matriz cristalina
  • Mata por sepse / perda do rim / urosepse crônica
  • Tratamento: remoção CIRÚRGICA COMPLETA (NLPC) + ATB prolongado. Não dá para "tratar" só com antibiótico
Cistina
~1-2% · raro
Cistinúria genética (AR). Início na infância. Cristais hexagonais.
Características
  • Doença autossômica recessiva — genes SLC3A1 e SLC7A9
  • Defeito de reabsorção tubular dos aminoácidos dibásicos: Cistina, Ornitina, Lisina, Arginina (mnemônico: COLA)
  • Cristais hexagonais no EAS — patognomônico
  • Início precoce — infância/adolescência
  • Pouco visível em Rx (semiopaco)
Diagnóstico
  • Teste do nitroprussiato (rastreio)
  • Excreção urinária de cistina (homozigotos > 600 mg/dia)
  • Cristais hexagonais
Tratamento
  • Hidratação intensa (>3-4 L/dia, volume urinário > 3L)
  • Alcalinização (citrato de K, alvo pH > 7,5)
  • Quelantes da cistina: tiopronina, D-penicilamina se medidas conservadoras falharem
  • Dieta com restrição de metionina e sódio

Tabela-resumo

TipoFrequênciaImagem (Rx)pH urinárioPista clínica
Oxalato de cálcio60-75%RadiopacoQualquerHipercalciúria idiopática
Fosfato de cálcio5-15%RadiopacoAlcalino (>6,5)ATR tipo 1, HPP
Ácido úrico5-10%RADIOLUCENTEÁcido (<5,5)Obesidade, SM, gota
Estruvita5-10%SemiopacoAlcalino (>7)ITU Proteus, coraliforme
Cistina1-2%SemiopacoÁcidoHereditário, infância
03 / Fatores de Risco

Por que se formam.

A formação de cálculos é o resultado final de um desequilíbrio entre promotores (supersaturação, baixo volume urinário, pH desfavorável) e inibidores (citrato, magnésio, glicosaminoglicanos). Listar os fatores ajuda a antecipar a investigação e a prevenção.

Fatores modificáveis

Os "5 inimigos" do paciente litiásico

  • Hidratação baixa — o fator mais importante. Volume urinário < 1L/dia = supersaturação garantida
  • Dieta hiperssódica — sódio aumenta a calciúria (cada 100 mEq de Na excretado leva ~25 mg de Ca junto)
  • Proteína animal em excesso — aumenta ácido úrico, calciúria e acidifica a urina (mais cálculo de Ca e de AU)
  • Oxalato dietético (espinafre, beterraba, ruibarbo, amendoim, chocolate, chá preto) — só importa nos formadores de oxalato
  • Obesidade / síndrome metabólica — resistência insulínica → pH urinário baixo → cálculo de ácido úrico

⚠ A armadilha do cálcio

O maior erro clínico em litíase é restringir cálcio da dieta. Cálcio dietético se liga ao oxalato no intestino e impede sua absorção. Quem restringe cálcio passa a absorver mais oxalato → mais cálculo, não menos. Mantenha 800-1.200 mg/dia (laticínios + verduras). O que se evita são suplementos isolados de cálcio sem orientação.

Condições associadas — investigue!

  • Hiperparatireoidismo primário — adenoma de paratireoide → hipercalcemia + hipercalciúria + cálculos de oxalato/fosfato de cálcio
  • Gota / síndrome metabólica — cálculos de ácido úrico
  • Acidose tubular renal tipo 1 (distal) — cálculos de fosfato de cálcio + nefrocalcinose
  • Sarcoidose — produção extra-renal de calcitriol → hipercalcemia/calciúria
  • Doença inflamatória intestinal (Crohn, RCU) / bypass gástrico / ressecção ileal — má absorção → hiperoxalúria entérica + hipocitratúria
  • Imobilização prolongada — reabsorção óssea → hipercalciúria
  • Intoxicação por vitamina D, síndrome de Cushing
  • Drogas: furosemida (calciúria), topiramato/acetazolamida (cálculos de fosfato Ca), aciclovir/indinavir/atazanavir/triantereno (cálculos de droga)
  • Rim espongiomedular, rim ferradura, divertículo calicinal — estase
04 / Causas Metabólicas

Os distúrbios.

A investigação metabólica gira em torno de cinco eixos mensurados em urina de 24h. Decorar os pontos de corte é tarefa de prova — e de plantão.

Hipercalciúria
>250
mg/24h (H) · >200 (M)
Hiperoxalúria
>40
mg/24h
Hiperuricosúria
>800
mg/24h (H) · >750 (M)
Hipocitratúria
<320
mg/24h · INIBIDOR
Hipomagnesiúria
<50
mg/24h
Volume urinário
<2
L/24h = FATOR-CHAVE

Detalhamento

Hipercalciúria — a mais comum

>250 mg/24h em homens, >200 em mulheres (ou >4 mg/kg/dia). É a alteração metabólica mais prevalente nos litiásicos. A maioria é idiopática — não há doença sistêmica óbvia, mas há aumento da absorção intestinal de cálcio, da reabsorção óssea ou da perda renal.

  • Secundária: hiperparatireoidismo, sarcoidose, intoxicação por vit D, Cushing, imobilização, mieloma, neoplasia óssea, furosemida
  • Consequência adicional: redução da DMO (cuidado com osteoporose)
  • Tratamento: hidratação, baixo sódio, normal cálcio, dieta normoproteica. Se persiste: tiazídico (hidroclorotiazida 25-50 mg/dia) — reduz calciúria

Hiperoxalúria

O oxalato é metabolicamente "perigoso" — combina com cálcio em supersaturação alta. As fontes:

  • Dietética (mais comum): excesso de espinafre, beterraba, ruibarbo, nozes, amendoim, chocolate, chá preto
  • Entérica: má absorção intestinal de gordura (Crohn, ressecção ileal, bypass) — gordura não absorvida quela cálcio no lúmen → oxalato fica livre → hiperabsorção
  • Primária: doença genética rara (PH1, 2, 3 — defeitos enzimáticos hepáticos), oxalose com dano renal grave precoce

Tratamento: hidratação, restringir oxalato (se dietética), MANTER cálcio dietético (para quelar oxalato no intestino), tratar a doença de base (entérica), piridoxina (B6) na PH1.

Hiperuricosúria

>800 mg/24h em homens, >750 em mulheres. Forma cálculos puros de ácido úrico OU favorece a nucleação heterogênea de oxalato de cálcio sobre cristais de urato.

  • Dieta rica em purinas: vísceras, frutos do mar, sardinha, peixes oleosos, álcool (especialmente cerveja)
  • Gota, síndromes mieloproliferativas
  • Frequentemente coexiste com pH urinário baixo (síndrome metabólica)
  • Tratamento: reduzir purinas, alcalinizar urina (citrato), alopurinol 300 mg/dia se persistir

Hipocitratúria — o inibidor que faltou

O citrato é o principal inibidor endógeno da cristalização. Ele se liga ao cálcio formando um complexo solúvel e indissociável — "sequestra" o cálcio, impedindo que ele se ligue ao oxalato/fosfato. Níveis < 320 mg/24h são anormais.

  • Causas: acidose metabólica (ATR distal, DRC), hipocalemia, dieta hiperproteica, exercício extremo, infecção urinária
  • Origem: ciclo de Krebs + ingesta (frutas cítricas, principalmente)
  • Tratamento: citrato de potássio 30-60 mEq/dia VO. Limonada caseira (suco de 1-2 limões/dia em 2L de água) é o "remédio caseiro" mais efetivo do mundo

Hipomagnesiúria

Magnésio também é inibidor — compete com o cálcio pela ligação com oxalato. Hipomagnesiúria geralmente coexiste com doença intestinal (má absorção). Tratamento: corrigir a causa, eventualmente suplementar.

05 / Apresentação Clínica

A cólica.

♂ 38 anos · dor abrupta · agitado

"Doutor, eu nunca senti uma dor assim na vida. Veio do nada às 4 da manhã. Está no lado esquerdo, indo pra virilha. Eu não consigo ficar parado — fico andando, mudando de posição, e nada alivia. Estou enjoado e acabei de vomitar."

É a apresentação clássica da cólica nefrética. Reconhecer rapidamente é meio caminho andado para o manejo correto.

Caracterização da dor

  • Início súbito — paciente diz a hora exata
  • Intensidade extrema (10/10) — comparável ou pior que parto sem analgesia
  • Caráter em cólica — vai e vem em ondas, conforme contrações ureterais
  • Localização: flanco / lombar, do lado afetado
  • Irradiação: ipsilateral, para fossa ilíaca, virilha, escroto (♂) ou grandes lábios (♀)
  • SEM posição de alívio — paciente agitado, andando (≠ peritonite, em que paciente fica parado)

Sintomas associados

Náusea/Vômito
~75%
arco reflexo
Hematúria micro
~90%
EAS
Hematúria macro
~30%
paciente vê
Disúria/urgência
~40%
se cálculo distal (junto à bexiga)

Sinais ao exame físico

  • Punho-percussão lombar (sinal de Giordano) positiva
  • Paciente agitado, sudoreico, pálido
  • Taquicardia, hipertensão reativa pela dor
  • Sem peritonite — abdome geralmente flácido (a inquietação ajuda a diferenciar de abdome agudo cirúrgico)
  • Febre NÃO é típica — se presente → suspeite de pielonefrite obstrutiva (EMERGÊNCIA)

Diferencial — lítica vs não-lítica

Dor lítica

Causada por cálculo. Toque para detalhes.

  • Início súbito (paciente diz a hora)
  • Cólica (vai e vem)
  • Irradiação para virilha/genitália
  • Paciente agitado, sem posição de alívio
  • Náusea/vômito
  • Hematúria (90%)
  • Giordano (+)
  • EAS: cristais, hemácias

Dor não-lítica

Musculoesquelética / outra causa. Toque.

  • Início insidioso ou relacionado a esforço/postura
  • Constante, piora com movimento
  • Sem irradiação ou irradiação radicular típica
  • Paciente busca posição de alívio
  • Sem sintomas urinários
  • Sem hematúria
  • Dor à palpação de musculatura paravertebral
  • EAS normal

Diagnósticos diferenciais (não-perdoáveis)

Pielonefrite aguda Aneurisma de aorta roto Cólica biliar Pancreatite aguda Apendicite (dir.) Diverticulite (esq.) Úlcera perfurada Cisto ovariano roto Gravidez ectópica Dor musculoesquelética Herpes-zóster
06 / Diagnóstico

Como confirmar.

Anamnese e exame físico

Já cobertos. A clínica típica + Giordano + hematúria em EAS dão alta probabilidade pré-teste. Mas imagem confirma.

Exames laboratoriais

EAS (sumário de urina)

  • Hematúria (90% — micro ou macro). Ausência NÃO descarta! Se obstrução completa, pode não haver hematúria
  • Cristalúria — pode dar pista do tipo (oxalato = envelope; ácido úrico = romboide; cistina = hexagonal; estruvita = caixão)
  • Leucocitúria + nitrito → ITU concomitante → atenção à pielonefrite obstrutiva
  • pH urinário: <5,5 sugere ácido úrico; >7 sugere estruvita

Laboratório básico em crise

  • Hemograma (leucocitose se infecção)
  • Creatinina / ureia / sódio / potássio
  • PCR (se suspeita de infecção)
  • β-hCG obrigatório em mulher em idade fértil (gravidez ectópica + TC contraindicada)

Imagem — escolha do exame

TC de abdome SEM contraste (stone protocol)

PADRÃO-OURO. S e E ~95-99%. Detecta cálculos a partir de 1-2 mm, qualquer tipo (inclusive ácido úrico), informa localização, tamanho, presença de hidronefrose, e ainda descarta diferenciais (apendicite, aneurisma). Sem contraste = sem risco renal, rápida, barata. 1ª escolha no adulto não-grávido.

Ultrassonografia

1ª linha em: gestante, criança, paciente jovem para evitar radiação. Detecta bem hidronefrose, cálculos > 5 mm em rim ou junção UV, mas é limitada para cálculos ureterais médios. Bom rastreio inicial, mas sensibilidade menor que TC.

Raio-X simples de abdome (RUB)

Caiu de uso. Vê apenas radiopacos (cálcio, estruvita, cistina). Cálculo de ácido úrico não aparece. Hoje usado mais para seguimento de cálculo já caracterizado, não para diagnóstico.

Urografia excretora / urotomografia com contraste

Avalia função e drenagem. Pouco usada no agudo. Pode ter papel em planejamento cirúrgico.

Análise química do cálculo expelido

É o exame mais informativo da investigação metabólica. Oriente o paciente a coar todas as urinas durante a crise. Se sair pedra, ele guarda e leva. Análise por espectrometria identifica composição → orienta prevenção específica.

Probabilidade de eliminação espontânea

Tamanho do cálculoProbabilidade de expulsãoConduta
< 4-5 mm~80-90%Observação + analgesia + hidratação
5-7 mm~50-60%MET (tansulosina) + observação
7-10 mm~25-50%MET por 2-4 semanas; se falhar → intervenção
> 10 mm< 10-20%Intervenção urológica

Localização também importa: cálculos no ureter distal têm maior chance de expulsão do que proximal. Use a calculadora abaixo!

07 / Tratamento Agudo

A cólica.

Pilares do manejo da cólica

1
Analgesia rápida e efetiva

AINE como primeira linha (cetorolaco 30 mg IV, cetoprofeno 100 mg IV, diclofenaco 75 mg IM, dipirona 1-2 g IV). Reduzem prostaglandinas, diminuem pressão hidrostática e edema ureteral. Se contraindicado (DRC, idoso, sangramento) ou refratário → opioide (tramadol, morfina IV).

2
Antiemético

Ondansetrona 4-8 mg IV ou metoclopramida 10 mg IV. Quase todo paciente vomita.

3
Hidratação adequada (NÃO excessiva)

Manter euvolemia. Hidratação agressiva NÃO acelera a expulsão e pode aumentar a pressão retrógrada e a dor. Soro fisiológico de manutenção, ajustado.

4
Terapia médica expulsiva (MET)

Tansulosina 0,4 mg/dia (α-bloqueador) por até 4 semanas se cálculo ureteral 5-10 mm — facilita relaxamento e peristalse ureteral. Mais efetivo em cálculo de ureter distal. Nifedipina é alternativa.

5
Coar a urina

Orientação fundamental para captar o cálculo expelido e mandar para análise química.

6
Reavaliar em 1-4 semanas

Se cálculo não eliminou, reavaliar com imagem (TC ou US) → considerar intervenção.

Drogas — doses

Cetorolaco
30 mg IV (10 mg VO 8/8h)
AINE potente, 1ª escolha. Evitar se DRC, úlcera, sangramento. Máx 5 dias.
Cetoprofeno
100 mg IV 12/12h
Alternativa AINE. Frequentemente usado no PS.
Diclofenaco
75 mg IM
Rápido, eficaz. Cuidado em cardiopata.
Dipirona
1-2 g IV/VO 6/6h
Coadjuvante (analgesia + antitérmico). Limitada como monoterapia em cólica intensa.
Morfina
2-5 mg IV (titular)
Resgate se AINE refratário ou contraindicado. Cuidado com depressão respiratória.
Tramadol
50-100 mg IV/VO 6/6h
Opioide fraco, alternativa em pacientes selecionados.
Tansulosina
0,4 mg VO 1×/dia
MET. Cálculo 5-10 mm em ureter, principalmente distal. Até 4 semanas.
Ondansetrona
4-8 mg IV
Antiemético. Pode prolongar QT — atenção.

Critérios de internação

  • Pielonefrite obstrutiva (febre + obstrução) → EMERGÊNCIA UROLÓGICA
  • Dor refratária a analgesia padrão
  • Vômitos incoercíveis
  • Rim único / DRC com IRA
  • Cálculo bilateral
  • Gestante com cólica complicada
  • Comorbidades (diabético descompensado, imunossuprimido)

⚠ Litíase complicada por infecção = EMERGÊNCIA

Obstrução + infecção = pus represado sob pressão. Em horas pode evoluir para urosepse, perda de função renal definitiva e óbito. A primeira preocupação NÃO é tirar o cálculo, é DRENAR a via urinária:

  • Nefrostomia percutânea (cateter "único-J", externo) — preferida se o paciente está mais grave/instável
  • Cateter duplo-J ureteral (via cistoscopia) — alternativa, preserva via natural

+ Antibiótico empírico de amplo espectro (ceftriaxona, piperacilina-tazobactam ou carbapenêmico se grave) ajustado por urocultura. O cálculo é tratado depois, no segundo tempo, com o paciente estabilizado.

08 / Tratamento Intervencionista

Quando intervir.

A decisão entre observação e intervenção depende de tamanho, localização, presença de obstrução/infecção, sintomas e expectativa de eliminação espontânea. Em geral:

Indicações de intervenção

  • Cálculo > 10 mm (baixa chance de expulsão)
  • Falha de MET após 4-6 semanas
  • Dor refratária ou recorrente
  • Obstrução persistente / hidronefrose com perda de função
  • Pielonefrite obstrutiva (após drenagem urgente)
  • Cálculo coraliforme
  • Rim único ou IRA por cálculo
  • Profissional cuja segurança depende de não fazer cólica (piloto, motorista de longa distância)

Modalidades

LECO — Litotripsia Extracorpórea por Ondas de Choque

  • Indicação principal: cálculos < 2 cm em rim (polo superior ou médio) ou ureter proximal
  • Ondas de choque fragmentam o cálculo; fragmentos eliminados pela urina
  • Não-invasivo, ambulatorial
  • Limitações: cálculos muito duros (mono-hidrato de oxalato de cálcio, cistina, brushita), cálculos do polo inferior (drenagem desfavorável), obesidade extrema, distúrbios de coagulação, gestação, aneurisma de aorta, ITU ativa

URS — Ureteroscopia (com laser de hólmio)

  • Indicação principal: cálculo ureteral (qualquer terço) ou cálculo renal pequeno-médio
  • Endoscópio rígido (ureter distal/médio) ou flexível (ureter proximal/rim)
  • Fragmentação com laser de hólmio + extração com cesto/pinça
  • Alta taxa de "stone-free", inclusive em cálculos duros
  • Pode necessitar duplo-J pós-procedimento (dilatação ureteral / edema)

NLPC — Nefrolitotomia Percutânea

  • Indicação principal: cálculo renal > 2 cm, cálculo coraliforme, cálculos múltiplos, cálculos em polo inferior > 1,5 cm, falha de LECO/URS
  • Punção percutânea do sistema coletor → nefroscópio → fragmentação (litotritor pneumático, laser, ultrassom)
  • Procedimento mais invasivo — internação, anestesia geral
  • Alta taxa de stone-free para cálculos grandes
  • Complicações: sangramento, lesão de órgão adjacente (cólon, pleura), urinoma, infecção

Cirurgia aberta / laparoscópica

Excepcional hoje. Casos selecionados: anomalia anatômica complexa, cálculo gigante não-acessível por NLPC, falha das técnicas anteriores.

Resumo decisional (por tamanho)

TamanhoLocalização1ª linha
< 4 mmUreterObservação + analgesia
5-10 mmUreter distalMET (tansulosina) → URS se falhar
5-10 mmUreter proximalMET → URS ou LECO
> 10 mmUreterURS
< 20 mmRim (polo sup/médio)LECO ou URS flexível
< 15 mmRim (polo inf.)URS flexível
> 20 mm / coraliformeRimNLPC

Árvore de decisão interativa — qual modalidade?

Localização
Ureter distal
Ureter proximal
Rim — polo sup/médio
Rim — polo inferior
Tamanho
< 5 mm
5-10 mm
10-20 mm
> 20 mm / coraliforme
Status
Estável
Infecção/febre
Rim único / IRA
Selecione as opções acima
Conduta personalizada
Escolha localização, tamanho e status para ver a recomendação terapêutica.
09 / Investigação Metabólica

Após o cálculo.

Nem todo paciente precisa de investigação metabólica completa. Quem precisa? Quem provavelmente terá recorrência ou quem tem doença sistêmica subjacente.

Indicações de avaliação metabólica completa

  • Litíase recorrente (≥ 2 episódios)
  • Cálculos bilaterais ou múltiplos
  • Cálculos de ácido úrico, cistina, estruvita (qualquer um, mesmo o primeiro)
  • Cálculo coraliforme
  • Nefrocalcinose
  • Rim único
  • Perda de função renal por cálculo
  • Crianças (todos os casos)
  • Candidatos à doação renal
  • História familiar forte
  • Adulto jovem (< 30 anos) com 1º cálculo

Investigação completa — o que pedir

Amostra isolada de urina

  • EAS + sedimento (cristais, pH, densidade)
  • Urocultura

Urina de 24h — DUAS amostras

  • Volume urinário (alvo > 2 L/dia)
  • Cálcio (hipercalciúria > 250 mg ♂ / 200 mg ♀)
  • Oxalato (hiperoxalúria > 40 mg)
  • Ácido úrico (hiperuricosúria > 800 ♂ / 750 ♀)
  • Citrato (hipocitratúria < 320 mg)
  • Magnésio (< 50 mg)
  • Sódio (avaliar adesão à dieta hipossódica)
  • pH urinário (perfil ao longo do dia)
  • Creatinina (verificar adequação da coleta)

Sangue

  • Creatinina, ureia, TFGe
  • Sódio, potássio, cloro, bicarbonato (acidose? ATR?)
  • Cálcio total + ionizado, fósforo, magnésio
  • PTH (se hipercalcemia ou hipercalciúria → descartar HPP)
  • Ácido úrico sérico
  • 25-OH vitamina D
  • Glicemia / HbA1c

Análise do cálculo

Quando disponível, é o exame mais valioso. Espectrometria por infravermelho ou difração de raios X identifica composição exata.

10 / Prevenção

Não repetir.

Com recidiva de 50% em 10 anos, a prevenção é parte integrante do tratamento — não um adendo. As medidas universais valem para qualquer formador; as específicas dependem do tipo de cálculo e do distúrbio metabólico.

Medidas universais (todo formador)

  • Hidratação ≥ 2,5 L/dia (urina > 2 L/dia) — é a medida MAIS importante. Distribua ao longo do dia, inclusive à noite
  • Restringir sódio < 2-2,3 g/dia (~5 g de sal). Sódio = cálcio na urina
  • Moderar proteína animal — 0,8-1,0 g/kg/dia (não vegetariano obrigatório, mas evitar excessos)
  • INGESTA NORMAL DE CÁLCIO (800-1.200 mg/dia). NÃO restringir!
  • Aumentar citrato dietético — limão, laranja, lima (suco de 1-2 limões/dia)
  • Evitar refrigerantes à base de cola (ácido fosfórico)
  • Controle de peso e atividade física
  • Reavaliar drogas que predispõem (furosemida, topiramato, megadose de vit C)

Específico por tipo de cálculo

TipoMedida-chaveFarmacoterapia
Oxalato de cálcio + hipercalciúriaBaixo Na, ↑hidratação, citratoTiazídico (HCTZ 25-50 mg)
Oxalato + hiperoxalúria entéricaManter Ca dietético, tratar doença baseCitrato de K, colestiramina
Oxalato + hipocitratúriaLimonada / frutas cítricasCitrato de K 30-60 mEq/dia
Ácido úricoReduzir purinasCitrato de K (alcalinização, pH 6,5-7) ± alopurinol
Fosfato Ca (com ATR distal)Tratar acidoseCitrato de K (corrige acidose + repõe citrato)
EstruvitaErradicar infecção + remover cálculo completoATB prolongado conforme cultura
CistinaHidratação intensa (>3 L/dia), alcalinização (pH>7,5)Tiopronina, D-penicilamina
HPPDiagnósticoParatireoidectomia

A "receita do limão" — efetiva e barata

Suco de 1-2 limões em 2 L de água, sem açúcar, ao longo do dia. Combina hidratação + citrato + alcalinização leve. Estudos mostram redução significativa de recorrência. Custo: irrelevante. Acessibilidade: total.

11 / Fisiopatologia

Como nasce um cálculo.

A formação de um cálculo não é um evento único — é um processo em cascata com cinco etapas bem definidas. Compreendê-las explica por que cada intervenção preventiva funciona.

Cristalogênese — passo a passo

1
Supersaturação urinária

Quando a concentração de um sal (Ca·Oxalato, Ca·Fosfato, ácido úrico) ultrapassa o produto de solubilidade, a urina fica supersaturada. A supersaturação é o pré-requisito obrigatório. Qualquer fator que aumente a concentração (baixo volume, alta excreção) ou reduza inibidores (pouco citrato, pouco magnésio) empurra a urina em direção à supersaturação.

2
Nucleação — heterogênea na prática

Nucleação homogênea (agregação espontânea de íons) requer supersaturação extrema. Na prática clínica, o que ocorre é nucleação heterogênea: cristais pré-existentes (de urato, por exemplo) ou defeitos celulares da superfície tubular servem como "semente". É por isso que hiperuricosúria favorece cálculos de oxalato de cálcio mesmo sem formar cálculo de ácido úrico.

3
Epitaxia — crescimento sobre superfície

Uma vez formada a "semente", novas camadas de cristal se depositam sobre ela. Esse crescimento cristal-sobre-cristal é chamado de epitaxia. Cristais de urato monosódico têm estrutura compatível com oxalato de cálcio → um induz o crescimento do outro (daí a importância de controlar uricosúria mesmo em formadores de CaOx).

4
Agregação — de grão a pedra

Microcristais se aglutinam em agregados maiores. Inibidores como nefrocalcina, osteopontina e citrato interferem nessa etapa. Ausência de inibidores + presença de promotores (proteína de Tamm-Horsfall alterada em ITU) aceleram a agregação.

5
Retenção — o cálculo não sai

Para causar dano, o agregado precisa ser retido no trato urinário em vez de ser eliminado. A fixação ocorre nas placas de Randall (depósitos subepiteliais de apatita na papila renal). Cristais que aderem ao epitélio tubular danificado (por hiperoxalúria, infecção) ficam retidos e crescem. Sem retenção, a maioria dos microcristais seria expulsa na urina.

O papel do citrato — mecanismo em detalhe

Citrato: o "quelante endógeno" do cálcio

O citrato forma um complexo solúvel e estável com o cálcio livre no lúmen tubular. Ao "sequestrar" Ca²⁺, ele reduz a concentração do cálcio ionizado disponível para se ligar ao oxalato ou fosfato. Além disso, o citrato se adsorve diretamente à superfície dos cristais de oxalato de cálcio, bloqueando fisicamente a agregação e o crescimento (inibidor direto de cristalização).

  • Por que urina alcalinizada protege: em pH mais alto, a proporção de citrato³⁻ (forma quelante ativa) aumenta em relação ao ácido cítrico. Além disso, urina alcalina desfavorece a cristalização de ácido úrico (pKa 5,35) e reduz a saturação de fosfato de cálcio em pH não extremo.
  • Por que dieta ácida (proteína animal) piora: a carga ácida metabólica faz os túbulos reabsorverem mais citrato (para tamponar a acidose) → menos citrato na urina → perda do principal inibidor.
  • Por que acidose metabólica (ATR, diarreia) causa hipocitratúria: mesmo mecanismo — os rins usam o citrato como substrato para gerar bicarbonato e compensar a acidemia.

Dor na cólica — mecanismo racional

Por que AINE é superior ao opioide

A dor na cólica não é apenas mecânica. Quando o cálculo obstrói o ureter, ocorre:

  1. Distensão capsular renal — a pressão retrograda se transmite ao parênquima, distendendo a cápsula renal (rica em nociceptores)
  2. Espasmo ureteral — peristalse exacerbada contra a obstrução → dor visceral em cólica
  3. Liberação de prostaglandinas (PGE₂) pelo urotélio isquêmico → vasodilatação local, edema, amplificação da dor + redução de peristaltismo = deterioração progressiva

Os AINEs inibem a COX → bloqueiam PGE₂ → duplo benefício: analgesia + redução do edema ureteral, diminuindo a pressão retrógrada. O opioide trata apenas a percepção da dor, sem atuar no processo inflamatório local. Por isso AINE é mecanisticamente superior — não é apenas "mais seguro", é mais efetivo no mecanismo.

Tabela comparativa completa dos tipos de cálculo

Tipo Frequência Rx/TC pH ótimo p/ formação Formas cristalinas Causa principal Prevenção dietética Farmacoterapia
Oxalato de Ca (CaOx) 60–75% Radiopaco Qualquer (independente) Whewellita (mono) — mais duro; Weddellita (di) Hipercalciúria idiopática, hipocitratúria, hiperoxalúria ↓Na, cálcio normal, ↓oxalato, ↑citrato (limão) Tiazídico (hipercalciúria), citrato de K (hipocitratúria)
Fosfato de Ca 5–15% Radiopaco Alcalino (>6,5) Apatita (Ca₁₀(PO₄)₆(OH)₂), Brushita (CaHPO₄·2H₂O) ATR distal, HPP, inibidores de AC Hidratação, ↓Na Citrato de K (corrige acidose na ATR)
Ácido úrico 5–10% RADIOLUCENTE Ácido (<5,5) Cristais romboides no EAS SM/obesidade/DM2, gota, dieta hiperproteica ↓purinas, ↑hidratação Citrato de K (dissolve!) ± alopurinol
Estruvita 5–10% Semiopaco Alcalino (>7, urease) Coraliforme; "caixão" no EAS ITU por Proteus/Klebsiella/Ureaplasma Erradicar infecção ATB prolongado + NLPC (cirurgia obrigatória)
Cistina 1–2% Semiopaco Ácido (cistina precipita <pH 7) Hexagonal (patognomônico) Cistinúria (defeito SLC3A1/SLC7A9, AR) >3–4 L/dia, ↓metionina, ↓Na Tiopronina, D-penicilamina (se hidratação insuficiente)
12 / Calculadoras

Ferramentas clínicas.

Três ferramentas para apoiar a decisão na beira do leito.

Calculadora 01

Probabilidade de eliminação espontânea

Baseada em tamanho e localização do cálculo. Útil para decidir entre observação + MET versus intervenção precoce.

Maior diâmetro em TC
Distal = junção UV
Quanto mais tempo, menor chance
Probabilidade estimada de expulsão espontânea
Preencha os campos para calcular.
Calculadora 02

Avaliação de risco metabólico

Insira os resultados de urina de 24h. A calculadora identifica anormalidades e estima o nº de fatores de risco.

Alvo > 2 L
Normal < 250 (H) / 200 (M)
Normal < 40
Normal < 800 (H) / 750 (M)
Normal > 320
Fatores de risco metabólico identificados
Insira os valores para análise.
Calculadora 03 — Didática

Estimador de saturação urinária

Ferramenta didática. Insira parâmetros urinários para estimar o risco relativo de cristalização de cada tipo de cálculo. Valores fictícios simplificados para fins pedagógicos — não substituem a urina de 24h.

4,5–8,5
Normal <250 (H)
Normal <40
Normal >320
Normal <800
Alvo >2 L
Risco relativo por tipo de cálculo
Interpretação
Preencha os campos para ver a análise.
13 / Raciocínio Socrático

Pense antes.

Onze perguntas que separam quem decora de quem entende. Antes de abrir a resposta, formule sua própria.

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Por que NÃO restringir cálcio na dieta do paciente com cálculo de oxalato de cálcio?
Pense

Pacientes com cálculo de cálcio têm "cálcio demais"? Onde mora a verdade?

Resposta

Porque o cálcio dietético não é o vilão — ele é, na verdade, um quelante natural do oxalato no intestino. Quando você come cálcio junto com oxalato, eles se ligam no lúmen intestinal e o complexo Ca-oxalato é eliminado nas fezes, sem ser absorvido.

Se você restringe cálcio, o oxalato fica livre para ser absorvido → chega em maior quantidade nos rins → mais supersaturação → MAIS cálculos. Esse é o paradoxo clássico da litíase: restringir cálcio piora o quadro.

Mantenha 800-1.200 mg/dia (laticínios + folhas verdes). O que se evita são os suplementos isolados, e isso só faz diferença em dose alta sem alimento. Estudos clássicos (Curhan et al., NEJM 1993; Borghi 2002) confirmam: dieta normal em cálcio reduz recorrência comparada à dieta pobre em cálcio.

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Como diferenciar dor lombar lítica de dor não-lítica à beira do leito?
Pense

Qual o comportamento do paciente? Onde irradia? O que o EAS mostra?

Resposta

Três pistas práticas e potentes:

  • 1. O paciente NÃO encontra posição de alívio — fica andando, agitado. Em dor musculoesquelética e em peritonite, o paciente busca posição de conforto / fica imóvel
  • 2. Irradiação para virilha/genitália — dor lítica acompanha o trajeto ureteral. Dor musculoesquelética irradia em padrão radicular ou não irradia
  • 3. EAS com hematúria (90% das cólicas têm) — dor musculoesquelética NÃO causa hematúria

Outros sinais: início súbito e abrupto (paciente diz a hora), cólica (vem em ondas), náusea/vômito reflexos. Giordano positivo é útil mas inespecífico (também presente em pielonefrite). Na dúvida ou em paciente atípico: TC sem contraste resolve.

?
Quando observar (MET) e quando indicar intervenção urológica?
Pense

Quais variáveis pesam? Tamanho, localização, sintomas, infecção, função.

Resposta

Observação + MET quando o cálculo tem alta chance de expulsão e o paciente está estável:

  • Cálculo < 10 mm (idealmente < 7 mm)
  • Localização ureteral, principalmente distal
  • Sem obstrução completa / sem hidronefrose grave
  • Sem infecção (febre, leucocitose, EAS infectado)
  • Dor controlável com analgesia
  • Função renal preservada
  • Paciente adere ao acompanhamento

Intervenção (LECO/URS/NLPC) quando:

  • Cálculo > 10 mm
  • Falha de MET após 4-6 semanas (em consenso, até 4 sem para cálculo médio)
  • Dor refratária ou recorrente
  • Obstrução persistente
  • Pielonefrite obstrutiva (sempre — primeiro drenar, depois tratar cálculo)
  • Cálculo coraliforme
  • Rim único, IRA por cálculo
  • Profissão de risco (piloto, motorista de longa distância)
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Qual o papel da tansulosina (MET) e em quais cálculos ela funciona melhor?
Pense

Onde estão os receptores α-adrenérgicos no trato urinário? Qual o tamanho ideal de cálculo para MET?

Resposta

A tansulosina é um α-bloqueador seletivo com alta densidade de receptores α1A no ureter distal e no colo vesical. Ao bloquear esses receptores:

  • Relaxa o músculo liso ureteral → reduz espasmo distal
  • Mantém peristalse proximal → ajuda a "empurrar" o cálculo
  • Reduz a dor (menos cólica)
  • Aumenta a taxa de eliminação espontânea e reduz o tempo de expulsão

Melhor evidência: cálculo ureteral distal de 5-10 mm. Em cálculos < 5 mm, a maioria já passa sozinho — benefício pequeno. Em cálculos > 10 mm, a chance de expulsão é baixa mesmo com MET. Em ureter proximal/médio, evidência é mais fraca.

Dose: 0,4 mg VO 1×/dia, por até 4 semanas. Efeitos colaterais: hipotensão postural, tontura, ejaculação retrógrada. Alternativa: nifedipina 30 mg/dia (menos usada).

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Por que pielonefrite obstrutiva é uma EMERGÊNCIA absoluta?
Pense

O que acontece quando há infecção atrás de uma obstrução? Qual o tempo para perda renal?

Resposta

Pielonefrite + obstrução = pus represado sob pressão dentro do sistema coletor. As consequências aparecem em horas:

  • Sepse / choque séptico: alta pressão facilita translocação bacteriana e endotoxêmica para a corrente sanguínea
  • Necrose do parênquima renal: pressão alta comprime os capilares → isquemia → perda irreversível de néfrons
  • Mortalidade alta se não drenado precocemente (estudos mostram >20% em casos graves não drenados)

Por isso a conduta é invertida: a primeira preocupação NÃO é tirar o cálculo, é DRENAR a via urinária. Antibiótico sozinho NÃO basta — precisa de drenagem mecânica:

  • Nefrostomia percutânea — drenagem externa, preferida em paciente grave
  • Duplo-J — via cistoscopia, preserva via natural

+ ATB amplo IV (ceftriaxona, piperacilina-tazobactam, ou carbapenêmico se grave). Cálculo é tratado depois, no 2º tempo, com o paciente estável.

Lembre: febre em paciente com cálculo é até prova em contrário pielonefrite obstrutiva. Não tem espaço para hesitação — pedir TC e drenar.

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Por que o cálculo de oxalato de cálcio é radiopaco, mas o de ácido úrico não aparece no Rx?
Pense

O que determina a radiopacidade de um material em radiografia? Qual elemento atômico é responsável?

Resposta

A radiopacidade depende da densidade eletrônica do material, que é proporcional ao número atômico dos elementos que o compõem.

O oxalato de cálcio contém cálcio (Z=20), um elemento de número atômico relativamente alto, com grande capacidade de absorver fótons de raios X. Por isso, CaOx e fosfato de cálcio aparecem bem no Rx como densidades brancas.

O ácido úrico (C₅H₄N₄O₃) é formado apenas por carbono (Z=6), hidrogênio (Z=1), nitrogênio (Z=7) e oxigênio (Z=8) — todos elementos de baixo número atômico, praticamente idênticos aos tecidos moles em densidade eletrônica. O feixe de raios X passa sem ser significativamente absorvido → radiolucente, invisível.

Implicação clínica: TC sem contraste (que mede atenuação em Unidades Hounsfield) vê todos os cálculos, pois mesmo o ácido úrico (~400-700 UH) é bem mais denso que urina e gordura. Em TC, pode-se ainda estimar a dureza: cálculos <500 UH tendem a ser de ácido úrico; >1000 UH = cálcio mono-hidratado (mais duro, resistente a LECO).

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Por que dieta hipossódica reduz cálculos de cálcio mais efetivamente do que dieta hipocálcica?
Pense

Como o sódio chega a aumentar a calciúria? Qual é o mecanismo tubular envolvido?

Resposta

O mecanismo é tubular: cálcio e sódio competem pela reabsorção no túbulo proximal via transportadores de sódio. Quando a excreção urinária de sódio aumenta (por alta ingestão), há saturação dos cotransportadores Na⁺/H⁺ → menos reabsorção tubular de Ca²⁺ → mais cálcio na urina. A proporção é aproximada: a cada 100 mEq de sódio excretado, ~25 mg de cálcio "acompanham" na urina.

Já a dieta hipocálcica age de forma oposta ao esperado: menos cálcio intestinal → menos cálcio para quelar oxalato no lúmen → mais oxalato livre absorvido → hiperoxalúria → mais supersaturação de CaOx. O resultado líquido é que a redução de cálcio dietético aumenta a excreção urinária de oxalato compensatoriamente.

O estudo de Borghi et al. (NEJM 2002) demonstrou exatamente isso: dieta normal em cálcio + baixo sódio + baixa proteína animal reduziu recorrência em 50% vs. dieta hipocálcica.

Resumo prático: sódio afeta cálcio urinário diretamente pelo mecanismo tubular; cálcio dietético protege controlando o oxalato intestinal. Restringir sódio age nos dois lados do equilíbrio.

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Por que o tiazídico reduz o cálcio urinário, se é um diurético? (O "paradoxo tiazídico")
Pense

Onde o tiazídico age no néfron? Qual o efeito na reabsorção de cálcio no túbulo distal?

Resposta

O tiazídico inibe o cotransportador NaCl no túbulo contorcido distal (TCD). Ao bloquear a reabsorção de sódio no TCD, cria um gradiente eletroquímico que estimula a reabsorção de cálcio pelo mesmo segmento, via canais TRPV5 apicais e trocadores NCX basolaterais. É um efeito oposto ao do sódio — enquanto alto sódio luminal "compete" com o cálcio, a redução do sódio luminal facilita a entrada de cálcio.

Adicionalmente, a leve depleção de volume induzida pelo tiazídico ativa o sistema SRAA → maior reabsorção proximal de sódio e, junto, de cálcio (mecanismo indireto secundário).

Resultado líquido: calciúria cai 25-50%. Em hipercalciúria idiopática, o tiazídico pode normalizar a excreção de cálcio e reduzir significativamente a recorrência de cálculos. Dose: hidroclorotiazida 25-50 mg/dia ou clortalidona 25 mg/dia.

Atenção: junto ao tiazídico, deve-se manter baixo sódio na dieta — alto sódio antagoniza o efeito hipocalciúrico do tiazídico.

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Na cistinúria, por que não basta hidratar intensamente? Qual o papel da tiopronina e da D-penicilamina?
Pense

A cistina é pouco solúvel. Quando apenas diluir não resolve, qual mecanismo alternativo pode ser explorado?

Resposta

A cistina é um aminoácido formado por dois resíduos de cisteína ligados por ponte dissulfeto (Cis-S-S-Cis). Sua solubilidade máxima em urina é ~250 mg/L em pH 7 — muito baixa. Homozigóticos excretam >600 mg/24h, o que exige volume urinário >2,4 L só para manter solubilidade, algo difícil de atingir na prática.

Hidratação intensa (+alcalinização para pH >7,5) reduz a concentração e aumenta a solubilidade da cistina, mas em muitos pacientes não é suficiente. É aqui que entram os quelantes da cistina:

  • Tiopronina (ácido N-2-mercaptopropionil-glicina) e D-penicilamina possuem grupo -SH livre que realiza troca de dissulfeto com a cistina: Cis-S-S-Cis + Med-SH → Cis-S-S-Med + Cis-SH. O complexo cis-med é muito mais solúvel (solubilidade >3000 mg/L) do que a cistina pura.
  • O resultado é a conversão da cistina insolúvel em um conjugado solúvel, que é excretado na urina sem precipitar.

A D-penicilamina tem mais efeitos colaterais (síndrome nefrótica, aplasia medular, lúpus droga-induzido) → tiopronina é preferida. Ambos são reservados para quando hidratação + alcalinização são insuficientes para controlar a formação de cálculos.

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Por que bactérias como Proteus e Ureaplasma geram cálculos de estruvita, e por que o antibiótico isolado não resolve?
Pense

O que é urease? Qual o produto da hidrólise da ureia? E o que isso faz com o pH?

Resposta

O mecanismo é bioquímico e elegante:

Proteus, Klebsiella, Pseudomonas e Ureaplasma urealyticum produzem a enzima urease, que hidrolisa a ureia urinária (CO(NH₂)₂) em dióxido de carbono e amônia (NH₃). A amônia, ao se dissolver em água, gera NH₄⁺ e consome H⁺ → pH urinário sobe abruptamente para >7,0, frequentemente >7,5.

Em urina alcalina com amônio em excesso + magnésio + fosfato → precipitação de fosfato-amônio-magnesiano (MgNH₄PO₄·6H₂O = estruvita). O crescimento é rápido — pode ocupar toda a pelve renal em semanas (cálculo coraliforme).

Por que ATB isolado não resolve: o cálculo de estruvita é uma biofilm mineral. As bactérias ficam fisicamente aprisionadas dentro da matriz cristalina, inacessíveis à maioria dos antibióticos circulantes. Mesmo com ATB adequado e urina estéril na urocultura, há bactérias viáveis no interior do cálculo. Quando o tratamento antibiótico cessa, as bactérias recolonizam a urina → ITU recorrente → novo cálculo.

Por isso a única conduta definitiva é remoção cirúrgica completa do cálculo (NLPC) + ATB prolongado pós-operatório. Sem remover o cálculo, é impossível erradicar a infecção.

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Hiperparatireoidismo primário causa qual tipo de cálculo e por quê? Como reconhecer clinicamente?
Pense

O que o PTH faz com o cálcio sérico e urinário? E com o fosfato? Quais outros órgãos-alvo são afetados?

Resposta

O hiperparatireoidismo primário (HPP) — causado em 85% dos casos por adenoma solitário de paratireoide — leva a excesso de PTH que age em três frentes:

  • Osso: ativa osteoclastos → reabsorção óssea → libera Ca²⁺ e PO₄³⁻ na corrente sanguínea → hipercalcemia
  • Rim: tubular — estimula reabsorção de Ca no túbulo distal, mas a hipercalcemia é tão intensa que a carga filtrada ultrapassa a capacidade de reabsorção → hipercalciúria. Além disso, PTH ativa 1α-hidroxilase → mais calcitriol → mais absorção intestinal de Ca
  • Fósforo: PTH inibe reabsorção de fosfato → hipofosfatemia + fosfatúria

Resultado: urina com alto cálcio + alto fosfato + pH urinário frequentemente elevado (PTH alcaliniza urina via inibição de trocador H⁺/Na⁺ proximal) → cálculos de oxalato de cálcio E/OU fosfato de cálcio.

Reconhecimento clínico — "Bones, Stones, Groans, Psychic Moans":

  • Bones: dor óssea, fraturas patológicas, osteíte fibrosa cística
  • Stones: cálculos renais recorrentes (15-20% dos HPP)
  • Groans: náusea, constipação, pancreatite
  • Psychic Moans: fadiga, depressão, confusão

Investigação: hipercalcemia + PTH elevado (ou inapropriadamente normal para o cálcio) → diagnóstico. Tratamento: paratireoidectomia resolve os cálculos.

14 / Quiz

Teste-se.

Sete questões. Sem espiar — cada uma tem feedback didático com a explicação completa.

Q1. Homem de 40 anos, obeso, com IMC 33, vem ao PS com cólica nefrética intensa à esquerda. TC sem contraste mostra cálculo único de 6 mm em ureter pélvico, com hidronefrose discreta. EAS: hematúria micro, pH 5,2. Qual o tipo MAIS PROVÁVEL de cálculo?
Q2. Mulher de 28 anos com primeiro episódio de cólica nefrética. TC mostra cálculo único de 4 mm em ureter distal, sem hidronefrose. Afebril, dor controlada com cetorolaco. Conduta MAIS adequada:
Q3. Paciente de 55 anos com cálculo ureteral de 8 mm, dor controlada, mas evolui com febre de 39°C, calafrios e leucocitose. EAS: piúria e nitrito positivo. TC: hidronefrose grau II e cálculo obstrutivo. Conduta IMEDIATA:
Q4. Paciente com cálculo de oxalato de cálcio recorrente. Urina de 24h: volume 1,4 L, Ca 380 mg, oxalato 28 mg, citrato 250 mg, ácido úrico 600 mg, Na 220 mEq. Qual a alteração metabólica PRINCIPAL?
Q5. Mulher de 45 anos com ITU recorrente por Proteus mirabilis e cálculo renal coraliforme bilateral em TC. Composição mais provável do cálculo:
Q6. Sobre a escolha de exame de imagem na cólica nefrética, qual afirmação é VERDADEIRA?
Q7. Sobre prevenção de recorrência em formador de cálculo de oxalato de cálcio com hipercalciúria idiopática, qual conduta é CORRETA?
15 / Armadilhas & Pearls

Não cair.

As armadilhas abaixo aparecem nas provas e no plantão. Internalizar cada uma evita erros que têm consequência clínica real.

ARMADILHA 1 — Febre + cólica = observação e analgesia

NUNCA. Febre em paciente com cálculo obstrutivo é pielonefrite obstrutiva até prova em contrário. É emergência. A conduta é drenagem imediata (nefrostomia ou duplo-J) + ATB IV, não analgesia e observação. O rim pode ser perdido irreversivelmente em horas.

ARMADILHA 2 — Restringir cálcio da dieta no formador de cálculo de Ca

O raciocínio parece lógico mas é errado. Cálcio dietético quela oxalato no intestino. Menos cálcio = mais oxalato absorvido = mais cristalização de CaOx. O que se faz é: manter 800–1.200 mg/dia de cálcio, reduzir sódio e oxalato. Suplementos isolados de cálcio (sem alimento) devem ser usados com cautela.

PEARL — Ácido úrico se dissolve. Os outros, não.

O cálculo de ácido úrico é o único que pode ser tratado sem intervenção cirúrgica. Alcalinização com citrato de potássio (alvo pH urinário 6,5–7,0) converte o ácido úrico (pouco solúvel, pKa 5,35) em urato monossódico (muito mais solúvel). Com alcalinização adequada, cálculos de AU podem dissolver completamente em semanas a meses. Essa é a única "dissolução farmacológica" possível na litíase.

PEARL — TC < 5 mm pode ser observado

Cálculo ureteral <5 mm em paciente estável, afebril, com dor controlável: conduta conservadora com taxa de sucesso ~80–90%. Intervenção precoce não muda o desfecho e expõe o paciente a risco desnecessário. Indicar LECO/URS/NLPC para cálculos pequenos estáveis é erro de conduta.

PEARL — AINE é 1ª linha, não opioide

AINE não é apenas "mais seguro" que opioide na cólica — é mecanisticamente superior. Bloqueia PGE₂ → reduz edema ureteral + diminui pressão retrograda + analgesia. O opioide trata apenas a percepção álgica sem atuar no processo inflamatório local. Cetorolaco IV ou cetoprofeno IV são as escolhas. Opioide é resgate quando AINE é contraindicado ou insuficiente.

PEARL — Oxalato de cálcio é responsável por ~75% dos cálculos

Na ausência de pistas específicas (obesidade+pH ácido para AU; ITU+coraliforme para estruvita; infância+hexagonal para cistina; ATR para fosfato de Ca), o diagnóstico mais provável de qualquer cálculo em adulto é oxalato de cálcio. Radiopaco, em qualquer pH, hipercalciúria idiopática é o fator mais comum. Nunca esqueça essa proporção em questões de prova.

ARMADILHA 3 — Hematúria ausente descarta cálculo

Falso. Em ~10% das cólicas, o EAS não mostra hematúria — principalmente quando há obstrução completa (sem fluxo de urina pelo segmento obstruído, sem contato entre urina e mucosa lesada). A clínica típica + TC diagnosticam o cálculo independentemente do EAS.

ARMADILHA 4 — Usar LECO ou URS em pielonefrite obstrutiva

Contraindicado no quadro agudo infectado. Qualquer manipulação do cálculo ou aumento de pressão no sistema coletor infectado pode disseminar endotoxinas e bactérias para a circulação → bacteremia → choque séptico. A sequência correta é: drenar primeiro, estabilizar, tratar cálculo depois (segundo tempo).

16 / Take-home

14 mensagens.

01

10% da vida

Prevalência ~10%. Recidiva ~50% em 10 anos. Não é uma doença "evento" — é doença crônica.

02

Oxalato manda

~60-75% dos cálculos são de oxalato de cálcio. Radiopaco, em qualquer pH, mais comum com hipercalciúria idiopática.

03

Ácido úrico é invisível

Cálculo de AU é radiolucente — não aparece em Rx. Visível em TC. pH ácido + obesidade/SM. Único que dissolve com alcalinização.

04

Coraliforme = estruvita

Cálculo coraliforme em mulher com ITU recorrente por Proteus = estruvita. Tratamento: NLPC + ATB prolongado.

05

Cólica é típica

Súbita, intensa, em cólica, irradia para virilha, paciente agitado sem posição de alívio, hematúria em 90%.

06

TC sem contraste

Padrão-ouro. S/E ~95-99%. US é 1ª escolha em gestante/criança/jovem por radiação.

07

AINE 1ª linha

Cetorolaco IV / cetoprofeno / diclofenaco IM. Opioide só se contraindicação/refratário. Antiemético junto.

08

Tansulosina = MET

α-bloqueador para cálculo 5-10 mm em ureter, principalmente distal. 0,4 mg/dia, até 4 semanas.

09

Febre + cálculo = EMERGÊNCIA

Pielonefrite obstrutiva mata em horas. Drenar (nefrostomia/duplo-J) + ATB IV. Cálculo é tratado depois.

10

Tamanho decide

< 5 mm: expulsa (~85%). 5-10: MET. > 10: intervenção. Coraliforme/>20 mm: NLPC.

11

NÃO restringir cálcio

Cálcio dietético quela oxalato no intestino. Restringir cálcio aumenta cálculos. Manter 800-1.200 mg/dia.

12

Água + limão + sal mínimo

Hidratação > 2,5 L/dia, citrato (limão), sódio baixo, proteína animal moderada. A "vacina" anti-recidiva.

13

Tiazídico paradoxal

Inibe NaCl no TCD → estimula reabsorção de Ca²⁺ → calciúria cai 25–50%. Droga de escolha na hipercalciúria idiopática persistente após dieta.

14

Citrato — inibidor interno

Quela Ca²⁺, impede ligação com oxalato. pH alto = mais citrato³⁻ ativo. Hipocitratúria = acidose/proteína. Trate com citrato de K ou limonada.

17 / Framework

Pense em 5 passos.

O paciente com cólica chegou. Cinco perguntas, na ordem certa, e você não erra a conduta.

1
Passo 1 · Diagnóstico
É mesmo cálculo?
Clínica típica + EAS sugerem cálculo, mas tenho confirmação por imagem?
SIM
TC sem contraste (stone protocol). Confirma, mede, localiza, vê hidronefrose, exclui diferenciais.
ESPECIAIS
Gestante, criança, jovem: US como 1ª linha (sem radiação). Se inconclusiva, RM sem contraste.
Toque para aprofundarRecolher
Por que TC é padrão-ouro

S/E ~95-99%. Vê cálculo de qualquer tipo (incluindo ácido úrico, radiolucente em Rx). Vê hidronefrose. Vê diagnósticos diferenciais críticos: aneurisma de aorta, apendicite, diverticulite. Rápida, barata, sem contraste (sem risco renal).

Pista no EAS
  • Hematúria em 90% (mas ausência NÃO descarta — obstrução completa pode não dar)
  • Cristalúria dá pista do tipo
  • pH urinário: < 5,5 sugere AU; > 7 sugere estruvita
  • Leucócitos + nitrito → atenção a infecção concomitante
β-hCG

Obrigatório em mulher em idade fértil: descarta gravidez ectópica (diferencial crítico) e contraindica TC com contraste.

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Passo 2 · Emergência
Há febre / obstrução grave?
Pielonefrite obstrutiva, anúria por cálculo, IRA, rim único acometido, sepse?
NÃO
Manejo padrão. Analgesia → MET → reavaliar.
EMERGÊNCIA
DRENAGEM URGENTE. Nefrostomia ou duplo-J + ATB IV amplo. Cálculo tratado depois.
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Red flags
  • Febre > 38°C em paciente com cálculo = pielonefrite obstrutiva até prova em contrário
  • Anúria (rim único ou cálculos bilaterais)
  • IRA com perda de função pelo cálculo
  • Sepse / choque
  • Dor refratária a analgesia padrão
  • Vômitos incoercíveis
  • Gestante com cólica complicada
Por que drenar antes de retirar o cálculo

Pus represado sob pressão = perda renal irreversível em horas + risco de sepse. Drenagem alivia pressão, escoa pus, salva o rim. Tratar o cálculo "no agudo infectado" pode disseminar a infecção.

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Passo 3 · Dor
Analgesia rápida e efetiva.
AINE como 1ª escolha — opioide só se contraindicado ou refratário.
1ª LINHA
AINE IV: cetorolaco 30 mg, cetoprofeno 100 mg ou diclofenaco 75 mg IM. Adicionar dipirona.
RESGATE
Opioide: tramadol ou morfina IV. Antiemético sempre junto (ondansetrona/metoclopramida).
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Por que AINE 1ª linha
  • Reduz produção de prostaglandinas → menos edema/inflamação ureteral
  • Diminui pressão hidrostática retrógrada (ação direta)
  • Analgesia efetiva e duradoura
  • Menos sedação, vômito e dependência que opioide
Contraindicações ao AINE
  • DRC (TFG < 30)
  • Úlcera péptica ativa, sangramento digestivo
  • Idoso frágil
  • Cardiopata grave (ICC, IAM recente)
  • Gestante (especialmente 3º trimestre)
Hidratação

Não é o tratamento da dor. Manter euvolemia. Hidratação agressiva NÃO acelera expulsão e pode piorar a dor (aumenta pressão proximal à obstrução).

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Passo 4 · Decisão
Expectativa ou intervenção?
Qual a probabilidade de expulsão espontânea? Vale esperar ou indicar intervenção?
EXPECTATIVA + MET
Cálculo < 10 mm (ideal < 7 mm), ureter, estável. Tansulosina 0,4 mg/dia até 4 sem. Coar urina.
INTERVENÇÃO
LECO (rim < 2 cm), URS (ureteral) ou NLPC (rim > 2 cm / coraliforme).
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Indicações de intervenção
  • Cálculo > 10 mm
  • Falha de MET em 4-6 semanas
  • Dor refratária ou recorrente
  • Obstrução persistente / perda de função
  • Pielonefrite obstrutiva (após drenagem)
  • Coraliforme
  • Rim único / IRA por cálculo
  • Profissão de risco
Escolha por modalidade
  • LECO: cálculo < 2 cm em rim (sup/médio) ou ureter proximal. Não-invasivo, ambulatorial
  • URS + laser: cálculo ureteral (qualquer terço) ou renal pequeno-médio
  • NLPC: cálculo > 2 cm ou coraliforme. Mais invasivo, melhor taxa stone-free
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Passo 5 · Prevenção
Investigação metabólica + medidas.
Vai voltar em 5 anos? Investigue e previna.
UNIVERSAL
Água > 2,5 L, sódio < 2 g, cálcio normal, citrato (limão), proteína animal moderada.
INDIVIDUALIZADA
Urina 24h (2×), análise do cálculo, sangue. Trate alterações específicas (tiazídico, alopurinol, citrato K).
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Avaliação metabólica completa — quem
  • Litíase recorrente, bilateral ou múltipla
  • Cálculos não-cálcicos (AU, cistina, estruvita)
  • Coraliforme, nefrocalcinose, rim único
  • Criança, adulto jovem com 1º cálculo
  • História familiar forte
  • Candidato à doação renal
Princípios farmacológicos por cenário
  • Hipercalciúria → tiazídico (HCTZ 25-50 mg)
  • Hipocitratúria → citrato de K 30-60 mEq/dia
  • Hiperuricosúria → reduzir purinas, citrato, alopurinol se persistir
  • Ácido úrico → alcalinização (alvo pH 6,5-7) — dissolve!
  • Cistina → tiopronina/D-penicilamina + hidratação extrema
  • HPP → paratireoidectomia
Não esqueça

Acompanhamento a longo prazo. Reavaliação anual de urina 24h. Imagem periódica (US a cada 1-2 anos em formador recorrente). Reforço de adesão a hidratação — o fator mais importante.

Decisão clínica fundamentada

Da cólica à prevenção da próxima crise. Cinco passos, na ordem certa, transformam um plantão difícil em um raciocínio fluido — e protegem o rim do seu paciente para a vida toda.